André Antunes

História | As epidemias do Império Romano

História | As epidemias do Império Romano

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O Império Romano, com toda a sua extensão e poder económico, permitiu aos seus cidadãos deslocarem-se por distâncias consideráveis de forma segura e eficaz, fazendo com que pessoas e bens circulassem rapidamente (para os padrões de então) entre as diversas províncias. Tudo isto através de uma extraordinária rede de estradas, no continente, e de redes comerciais do Mar Mediterrâneo, que o império havia enfim livrado do perigo endémico da pirataria. Por isso, quando o império se consolidou, por inícios do século segundo depois de Cristo, a sua prosperidade foi notória. Os Romanos, a julgar pela sua capacidade militar, económica e financeira, viviam uma era áurea.

Porém, no ano de 165 depois de Cristo, ao que parece após uma vitória sobre os Persas, os soldados Romanos trouxeram do Oriente não só as glórias militares, mas também um inimigo invisível: a peste.  Era no tempo do imperador Marco Aurélio, o imperador filósofo, e a medicina da época não estava minimamente preparada para o surto. Segundo se crê, esta doença poderá ter sido o sarampo, tendo atingido tanto a população urbana do império, como os seus exércitos. Foi o período do célebre médico romano Galeno que, ciente das dificuldades e da sua própria insuficiência, refugiou-se na sua terra natal, fugido de uma Roma apinhada de gente. Efetivamente, se não havia uma clara consciência médica acerca das causas e dos meios de propagação desta praga, compreendiam-se os perigos de propagação em grandes multidões.

Esta epidemia só atingiu o pico em 167. Ela atacava por igual ricos e pobres, senadores e plebeus, e os registos indicam um aumento tal no número de mortes que houve dificuldades em conseguir enterrar os mortos. Roma, em vão, recorria a rituais de purificação para aplacar a ira dos deuses. Os exércitos Romanos, na fronteira norte com a Germânia, sofriam pressões e ataques sem poderem retaliar de forma eficaz – muitos dos efetivos sucumbiam à doença antes de poderem apresentar-se na linha de batalha. Foi neste ambiente que Marco Aurélio, governando as legiões, compunha, nos momentos solitários, as suas célebres Meditações. E mesmo, quando uma expedição estava a ser preparada, o general e co-imperador Lúcio Vero, presumível herdeiro do império, tentando refugiar-se nas zonas rurais, terá contraído a peste e morrido. Quando, em 180, Marco Aurélio morre e deixa as rédeas do governo a Cómodo, ainda grassava a epidemia. Uma nova onda de contágios surgiu por volta de 189: estima-se que milhares morriam por dia. E, como esperado, a economia romana ressentiu-se profundamente.

Isto marcou severamente a prosperidade do império no século segundo depois de Cristo. E, ao longo do século seguinte, contínuas ressurgências da peste ao longo de todo o território imperial vão surgindo ciclicamente.  Estes ciclos, porém – que também já foram associados à varíola – encontraram o Império Romano num estado completamente diferente, imerso numa anarquia. Cómodo, o filho do imperador Marco Aurélio, havia sido assassinado pela guarda pretoriana, tendo em seguida sido instituída a chamada dinastia dos Severos. Com o seu fim, em 235, iniciou-se um longo e turbulento período no qual diferentes exércitos, elegendo diferentes imperadores em diferentes províncias, disputam entre si a supremacia do poder. E foi justamente nesta altura, de intensas guerras civis, que se verificaram novas recorrências da peste. A propagação e disseminação da doença parecia assim acompanhar as vicissitudes políticas e militares dos Romanos.

As implicações demográficas e sociais destas epidemias foram naturalmente elevadas. A alta mortalidade, agravada por diversas guerras civis e fronteiriças teve consequências profundas a nível económico e financeiro. A ocupação de terras sofreu um elevado retraimento; a mão de obra escrava, que havia sido abundante, fez, pela sua raridade, valorizar o trabalhador rural, agora mais difícil de encontrar, sem poder ser desbaratado como um mero objeto. As coletas de impostos por parte do governo central foram sendo progressivamente menores, afetando seriamente a capacidade para pagar e recrutar exércitos. Como um todo, o recobro total destas epidemias foi lento e gradual: quando terminou, pelo século sexto, de novo encontrou um império Romano muito alterado.

Por essa altura, já Roma havia deixado de ser o centro administrativo que fora. O imperador Diocleciano instituíra a chamada tetrarquia, dividindo o território na sua metade Oriental e Ocidental; mais tarde, uma nova capital havia sido estabelecida, Constantinopla; o Cristianismo havia-se expandido e propagado como religião oficial; o império do Ocidente havia caído; por fim, o imperador Justiniano, herdando um império oriental robusto e forte, inicia uma série de campanhas militares audazes para reconstituir o que fora a antiga glória imperial. Nos inícios do século sexto depois de Cristo, assim, a população parece ter dado sinais de vitalidade, conseguida após um longo processo de criação de resistências e imunidades.

Mas então, em 541, a peste negra chega ao Império Romano Oriental, muito antes de ela ter eclodido, no século XIV, na Europa Ocidental. Estima-se que tenha vindo da parte da Etiópia, tendo tido como origem a Índia ou África Oriental. Propagou-se rapidamente pelo Mediterrâneo, fazendo uso das rotas comerciais que estavam em vigor, assim como dos exércitos que se deslocavam pelos quatro cantos do império. Atingiu com particular veemência as grandes cidades, e algumas estimativas apontam para que metade da população de Constantinopla, de longe a mais volumosa à época, tenha sido exterminada. Mais uma vez, todos os estratos sociais foram afetados: e o próprio imperador Justiniano foi por ela fustigado.

Tudo isto atingiu o império numa das suas campanhas mais intensas e ambiciosas de reinstalação das antigas fronteiras. Atacou-o justamente nos dois pilares em que Justiniano se apoiava energicamente: nos exércitos, agora com quebra de efetivos, e na população que pagava impostos, agora mais dificilmente fiscalizada. Tudo isto associado a invasões e instabilidade social. E, ainda que o vigor e persistência de Justiniano tenham permitido solidificar e até mesmo expandir os seus anteriores sucessos militares, a peste e as suas posteriores recorrências vão minar diretamente a robustez interna dos Romanos. Deixou-os vulneráveis para os séculos seguintes. Em 748 dá-se a última grande eclosão da peste em Constantinopla: nessa altura já parte significativa do território imperial tinha sido conquistada pelos Árabes.

Este breve panorama das principais epidemias por que passou o Império Romano, ainda que necessariamente simplificado e muito esquematizado, permite ver como no Mundo Antigo, desde que se criara uma rede de transportes e contactos desenvolvida, também as epidemias desempenharam, invisivelmente, o seu papel na estruturação dos diversos desenvolvimentos históricos. Ainda que não tenham tido a última palavra nos destinos da civilização enquanto tal, acompanharam-na e moldaram o seu progresso.

Para referência:

Treadgold, Warren, A History of the Byzantine State and Society, Stanford University Press, 1997: pp. 196-207.

Bowman A. K. et alii¸(ed.) The Cambridge Ancient History, v. XI «The High Empire», Cambridge University Press, 2008: pp. 165-170.

Imagens: (0) Malagabay, (1) Staatssammlung für Anthropologie und Paläoanatomie München / Archäologische Staatssammlung München, (2) Alchetron, (3) Petar Milosevic

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Categorias: Cultura

Acerca do(a) Autor(a) do artigo

André Antunes

André Antunes é licenciado pela Universidade do Minho em Estudos Portugueses e Lusófonos e mestre pela Universidade de Coimbra em Estudos Clássicos. Estudou na Academia Vivarium Novum, em Roma. Presentemente, desenvolve Cursos de Latim e de Grego na Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, em Braga.André Antunes é licenciado pela Universidade do Minho em Estudos Portugueses e Lusófonos e mestre pela Universidade de Coimbra em Estudos Clássicos. Estudou na Academia Vivarium Novum, em Roma. Presentemente, desenvolve Cursos de Latim e de Grego na Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, em Braga.

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