António Manuel Reis

Covid-19 | Desconfinamento

Covid-19 | Desconfinamento

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Portugal entra este domingo, às 00:00, na fase de desconfinamento, substituindo o Estado de Emergência, pela Situação de Calamidade. Contudo apraz, fazer uma apreciação de tudo aquilo que se passou, até este momento.

Tivemos, desde o início da epidemia, em Janeiro, uma total dessintonia da Direcção-Geral de Saúde e do Governo, perante na altura, a epidemia SARS-CoV- 2.

Já com o vírus instalado na Europa, precisamente na Itália, em finais de Janeiro, temos a indicação dos nossos governantes, para estarmos tranquilos que o vírus é inofensivo, não é transmissível por humanos e que nunca chegaria a Portugal.

Em fevereiro, temos os nossos governantes (Ministra da Agricultura) a dizer aos portugueses que o vírus era muito positivo para a agricultura portuguesa e para as suas exportações.

Chegados a finais de Fevereiro, contra tudo que se estava a passar na Europa, o nosso Governo recusa o isolamento das pessoas que vinham de destinos onde havia transmissão do vírus.

No princípio de Março, enquanto o Governo dava indicações para que a população com sintomas ligasse para a Saúde 24, a linha deixou de receber mais de metade das chamadas e o responsável foi demitido.

Nesta altura, já com conhecimento do que se passava aqui ao lado, em Espanha, o Governo aconselhava a continuidade das visitas aos lares de idosos, alegando não haver qualquer risco especial; como também resistia ao encerramento das escolas.

Ao mesmo tempo ficavam cidadãos fechados, enclausurados em casas de banho, a aguardar ambulâncias do INEM.

Finalmente, a 9 de Março, Portugal suspende voos das áreas afectadas de Itália.

Logo a seguir, a 11 de Março foi declarada a pandemia, pela OMS.

Em meados de Março, foi feita a 1ª encomenda de material sanitário e de protecção (que ainda hoje vem a conta gotas).

Só a 16 de Março é que o Governo encerrou escolas, controlou a fronteira com Espanha e, de seguida, suspendeu os voos internacionais oriundos de fora da Europa.

A 18 de Março, o Governo por indicação do Sr. Presidente da República, declarou o Estado de Emergência Nacional.

A 23 de Março, em plena crise pandémica, António Costa afirmou que “nada falta no SNS e nada vai faltar”, sendo contrariado por todas as Ordens da área da saúde e profissionais.

Na mesma altura, com a situação gravosa que se vivia em Itália e Espanha, com o conhecimento do que se passou na China, com as medidas conhecidas que foram tomadas pelos governos da Coreia do Sul, Taiwan, Singapura, entre outros, nos quais se visualizava o uso obrigatório de máscaras, o Governo deu indicação aos portugueses para não colocarem máscaras porque elas davam “falsa sensação de segurança”.

Estes são alguns dos episódios que vale a pena reter, para memória futura, especificamente para que não se voltem a repetir, numa possível segunda vaga.

Assim sendo, chegamos ao milagre português no combate à pandemia. Se, porém, foi efectivamente um milagre que aconteceu em Portugal, que dizer e que nomenclatura se deve aplicar, ao combate ao vírus, protagonizado pela Nova Zelândia, Finlândia, Noruega, Coreia do Sul, Alemanha, só para citar alguns.

O nosso País encontra-se no 11º lugar dos piores do mundo, no combate a este flagelo, num universo de 193 países reconhecidos, e em 8º, no continente europeu.

Portugal conseguiu, e bem, controlar a propagação do vírus, em parte devido a variantes endógenas.

É um País com uma só fronteira terrestre, com Espanha, não teve jogos de futebol internacionais, como aconteceu em Bérgamo, Madrid, Valência e Londres, ou feiras internacionais, como as de Milão, não tem situações de migrantes e multiculturalismo, como acontece com outros países.

“Felizmente”, para Portugal, o início do surto epidémico/pandémico, na Europa, deu-se em Itália.

Os portugueses viram o quão horrível se estava a passar naquele País e, por iniciativa própria, voluntária, logo no princípio, procederam ao encerramento de actividades económicas, escolares e confinaram-se voluntariamente em casa, muito antes de qualquer medida decretada pelo governo.

O nosso Serviço Nacional de Saúde, um dos melhores da Europa, nesta pandemia debatia-se e continua a debater-se, com sérios problemas, na senda da degradação dos serviços públicos dos últimos anos (minimizados graças aos seus trabalhadores, médicos, enfermeiros, técnicos, assistentes e todos os outros, que abnegadamente se dedicaram a salvar vidas, colocando as suas em risco), devido à falta de pessoal, de material de protecção e clínico, máscaras, batas, luvas, testes, zaragatoas, entre outros.

A sociedade civil, sector social, IPSS, associações, sector privado, empresas, gestores, particulares, uniram-se exemplarmente, para salvar vidas e evitar o colapso do SNS.

As empresas de diversas áreas de negócio reinventaram-se e reorganizaram as suas produções, para fabricarem e doarem ao SNS, máscaras, viseiras, batas, luvas, toucas, fatos-macacos, gel desinfectante, fretarem aviões, intermediar negociações no Oriente (caso dos 500 ventiladores que o Governo comprou e dos quais só chegaram 65 e em mandarim) entre muitos outros.

O comércio de restauração, devido à falta de refeições nos hospitais, prontificou-se para alimentar gratuita e graciosamente, os profissionais de saúde, bem como a hotelaria se disponibilizou da mesma forma, para albergar aqueles que na linha da frente, estavam impossibilitados, por precaução de contágio, de regressarem diariamente, ao recato do seu lar.

O sector automóvel colocou à disposição, sem custos, frotas de veículos ao serviço dos hospitais e centros de saúde.

O sector social ingressou, sem delongas, como nunca, no terreno para mitigar as condições de menor humanidade que poderiam acontecer, mesmo tendo em mãos numa das suas vertentes os lares de idosos.

Os particulares desconhecidos doaram material clínico, principalmente ventiladores, (entraram mais rapidamente e em maior quantidade ventiladores doados no SNS que os comprados pelo Governo), e outro material em falta.

Os hospitais privados, colocaram gratuita e livremente à disposição dos serviços toda a maquinaria técnica e material clínico que fosse necessário, bem como a sua disponibilidade para absorver os doentes de outras patologias.

Para situações especiais, medidas excepcionais.

Como estaria hoje o SNS, se fosse somente suportado com a intervenção do Governo, como muitos sugeriam?

Nunca saberemos, mas podemos aferir alguns pontos.

Com a absorção do SNS pela Covid-19, muitas consultas, cirurgias, acompanhamento médico de outras patologias, foram adiadas, levando a casos extremos, até mesmo à morte de pessoas, podendo isto ter sido evitado se os hospitais privados não tivessem (por pancada ideológica de quem nos governa) sido preteridos, quando muitos sugeriam que estes absorvessem as outras patologias não Covid-19, como vem agora o governo sugerir.

Muitos portugueses com diversas patologias, muitas delas com suspeitas de AVC e Enfartes do Miocárdio, deixaram, por receio de contaminação, de ir às urgências hospitalares, (pois não lhes foi garantida a informação de segurança, dentro da inseguranca, do momento), ficando infelizmente à mercê, da sua sorte.

Os médicos, enfermeiros, farmacêuticos, pessoal do terreno, aconselharam o uso das máscaras(que agora veio a acontecer), se assim tivesse acontecido, possivelmente, muitos contágios teriam sido evitados.

Afinal, a “falsa sensação de segurança” e a insistência dos governantes em não aconselhar a sua utilização, chamava-se falta de máscaras, devido entre outras, às dívidas a fornecedores.

Nos países mais afectados pela pandemia, Itália e Espanha, a taxa de mortalidade nos lares de idosos era avassaladora. Mesmo sabendo desta situação, não foram tomadas nem indicadas medidas de alerta e contingência pela DGS e ou Ministério da Saúde,

Em Portugal, 40% dos óbitos aconteceram em lares de idosos.

Neste caso, em especial, não podemos deixar de enaltecer e realçar o papel do Poder Local, aquele que mais perto está da população, dos seus munícipes e fregueses.

Foi por iniciativa própria dos autarcas locais, Presidentes de Câmara, de Uniões e Juntas de Freguesia, que, mesmo contrariando informalidades do Governo, mitigaram e disponibilizaram verbas próprias, para evitar tragédias.

Criando, às suas expensas, hospitais de campanha, compra de testes para toda a sua população, controle sanitário nos lares, medidas de apoio às famílias, e muito mais.

Alguns exemplos, que merecem ser conhecidos e reconhecidos: Ricardo Rio (Braga), Paulo Cunha (Famalicão), Benjamim Pereira (Esposende), Salvador Malheiro (Ovar), Carlos Carreiras (Cascais), Rui Moreira (Porto), e um enormíssimo Presidente de um Governo Regional, Miguel Albuquerque (Madeira). Nestes se revêem tantos outros que merecem louvor e um agradecimento profundo das populações. São gente da 1ª linha, da frente de combate (confirmando, desta forma, que a descentralização de competências, é o caminho; com respectivo envelope financeiro).

Pese embora a relativamente boa gestão sanitária do Governo da República, conhecida e reconhecida, dentro e fora de portas, nesta pandemia, principalmente depois de rectificada a falsa partida, as desculpas de esta ser uma situação sui generis e desconhecida não desculpam, nem apagam, as falhas que existiram.

O Milagre Português, a existir, deve-se não só, à actuação do Governo, como muitos querem fazer crer, mas sobretudo à incomensurável vontade, força, dedicação de um povo, de uma sociedade civil empresarial, social e particulares, de um poder local, de uma Nação que quando se vê atacada, une-se e reage em unidade.

Assim somos nós, os Portugueses.

Relativamente à economia, sempre fui apologista do não lockdown total, manter todas as medidas sanitárias, proteger os mais vulneráveis, com comorbidades e o resto do pessoal, show de bola.

Muitas empresas não fecharam e não tiveram casos Covid-19.

Era bom que os governantes se deslocassem a essas empresas, vissem em loco o que foi feito em termos de segurança sanitária para poderem replicar.

Era bom que a oposição já o tivesse efectuado.

É preciso, nesta altura, uma oposição forte, fiscalizadora, colaborante, não inerte e a passar cheques em branco.

Quando melhor for uma oposição, melhor o Governo.

Dito isto, embora as medidas económicas apresentadas desde o início, tenham na teoria uma boa aparência, na prática tem-se detectado desvios significativos.

Creio que o helicóptero money para as empresas seria uma desgraça, muito bem as linhas de crédito mas com ajustes temporais e de fácil implementação no terreno, o que não está a acontecer e a levar muitas empresas à falência.

As moratórias são bem-vindas, a amplitude dos apoios aos sócios gerentes, trabalhadores independentes incluindo advogados, deveria ser uma realidade e não o é.

O layoff está a ser uma tormenta para empresários e trabalhadores, o capital não chega às empresas e muitas não vão conseguir honrar os seus compromissos com os seus colaboradores, levando a uma espiral de desespero e desconforto familiar.

Para os particulares, os apoios têm sido positivos e de fácil acesso.

Portugal está a desconfinar, mas ainda não apresentou um plano, um projecto, um desígnio, para como suplantar a crise económica e humanitária que se avizinha.

A única coisa que se consegue visualizar é um Governo, um Primeiro-ministro optimista irritante, um Ministro das Finanças desaparecido em combate, todos a olhar para o céu à espera que o helicóptero da Europa apareça, e comece a despejar euros, para cima da economia, de preferência, na base de subvenções.

Oxalá isso aconteça! Contudo, como dizia o avozinho, é melhor ir fazendo o trabalho de casa e não contar com o ovo no dito cujo da galinha.

O desconfinamento vai acontecer. Aos poucos e poucos, regressaremos a uma nova normalidade anormal.

Cabe a cada um de nós, com respeito, responsabilidade e muita cidadania, adaptarmos-nos aos novos tempos e novas vicissitudes.

Mas também exigir que aqueles que, anteriores a nós, tudo deram para que Portugal seja actualmente o que é, sejam respeitados, salvaguardada a sua integridade psíquica e sanitária, pois uma sociedade que não defende, não salvaguarda, não respeita, os seus idosos, é uma sociedade fraca, desumana e egoísta.

Sejamos responsáveis.

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Categorias: Crónica, Política, Sociedade

Acerca do(a) Autor(a) do artigo

António Manuel Reis

António Manuel Reis, nasceu em Barcelos a 07-10-1963. Concluiu em 1985, o curso na área de tinturaria têxtil UM/Mazagão. Formação em colorimetria, recursos humanos, automatização, sistemas de qualidade ISSO, planeamento, processos, produção. Industrial Têxtil de 1996 a 2009. Dirigente desportivo 1998 a 2004.Gestor empresarial de 2010 a 2013. Concluiu curso de formação de formadores em 2014. Trabalhador independente Real Estate Consultan 2018. Em curso, Licenciatura Ciências Sociais e Ciência Politica. Militante da JSD desde 1978/ Militante PSD desde 1981, delegado e Observador a Congressos, Delegado CPD, TSD, Membro da CPS, candidato a Presidente de Junta da UF Barcelos, deputado a UF. Candidato á Presidência da CPS. Membro independente da UF Barcelos. Partido Aliança em 2018.

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