Ricardo Nogueira Martins

Conexão | Tempo para ser natureza

Conexão | Tempo para ser natureza

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Os grandes desafios do Dia da Terra são os desafios do quotidiano da escala geográfica de cada um e a valorização da escala biótica em que todas as partes contam na frágil cadeia de interdependência entre seres vivos.

Por outro lado, também, a falta de conectividade com o nosso entorno natural, cuja fórmula milagrosa para encarar os desafios futuros do desenvolvimento sustentável é aparentemente simples seria algo como “A + B = C”.

Em que “A” é a  compreensão global de nós mesmos como parte da natureza, “B” a apreensão e assimilação da sabedoria de teor ambiental e “C” a prática ambiental, a ecocidadania.

O denominador que põe em causa a fórmula e que se situa entre o “B” e “C” é a experiência, a linha ténue entre a literacia ambiental (situação de referência) e a prática ambiental enquanto rotina. Portanto, se é a experiência o denominador comum, devemos discutir a gestão emocional apelando a uma corporização do ser humano com a natureza.

Isto é também a necessidade da avaliação do ambiente/natureza não ser meramente estética, tão só porque a estética não pressupõem a experiência no conjunto dos sentidos humanos no âmbito da percepção, cognição e representação. Outros autores, têm tentado explorar esta versão, desde a geografia, a psicologia ambiental a sociologia entre outros campos científicos.

De facto, recentemente a consciência tem-se tornado tema crítico, em parte promovido por estudos do neurologista António Damásio. Para este autor, o estado ou os estados conscientes da mente utilizariam precisamente o conhecimento em diversas matérias sensoriais, sejam corpóreos, visuais ou auditivos manifestando propriedades qualitativas variadas para os diferentes fluxos sensoriais usados na percepção do ponto de vista memorial.

Assim,  a percepção nunca é um mero contacto da mente para com o objecto presente; está sim impregnada com imagens-memória (experiências) que completam a acção ao mesmo tempo que a interpreta, tal como os textos do filósofo Henri Bergson apontam.

Yi-Fu Tuan, géografo da Universidade de Wisconsin, diz-nos que o contacto com o ambiente natural é cada vez mais indirecto ou limitado a ocasiões especiais. E. que é fora dos aglomerados rurais, que o envolvimento com a natureza torna-se mais recreacional do que vocacional.

O movimento ambiental teve um impacto muito necessário na nossa consciência da natureza e na necessidade de a impactar de forma menos negativa. Reconhecemos que a natureza não é um objeto em si mesma e que somos parte da natureza e não uma parte dela. Contudo, assistimos a uma menor conexão e experiência, o que significa um impacto negativo nos seres humanos, porque estamos a perder os efeitos benéficos da natureza. Como resultado, estamos menos conectados à natureza e sentimos menos responsabilidade em proteger/compreender/conservar o ambiente. Se um indivíduo se sente conectado à natureza (possivelmente passando algum tempo nela), ele está naturalmente mais inclinado a preocupar-se com a natureza e a proteger o ambiente.

A conexão com a natureza é a extensão em que os indivíduos incluem a natureza como parte de sua identidade.

Schultz, psicólogo social da California State University San Marcos, aponta três componentes: a componente cognitiva que é  o núcleo da conexão com a natureza e refere-se à forma como alguém se sente com a natureza; a  componente afetiva que é  o senso de cuidado individual com a natureza e a componente comportamental é o compromisso de um indivíduo em proteger o ambiente natural. Esses três componentes formam a conexão com a natureza e são necessários para um relacionamento e crescimento equilibrado do ser humano desde tenra idade.

Em qual das componentes nos situamos? Segundo a Organização Mundial da Saúde, dois terços do tempo médio de uma pessoa são gastos em casa e um quinto no ambiente de trabalho. As crianças, em particular, passam a maior parte do tempo em ambientes interiores. Talvez este momento de pandemia que nos tomou de assalto seja aquele em que melhor somos capazes de reconhecer o valor da natureza. Para os que têm a possibilidade de ficar em casa, amparemos a sanidade mental mediante o contacto com a natureza da qual somos parte; dos animais de estimação ao jardim e ao quintal passando pelos vasos do parapeito. Sugestão adicional: procure identificar as aves que circundam a sua casa ou os demais animais selvagens como os insectos que habitam o seu jardim ou varanda.

 

Leituras:

Bergson, H.(2006). Duração e Simultaneidade. São Paulo: Martins Fontes. 
Bergson. H. (2004). Matter and memory. Nova Iorque: Dover Publications.
Damásio, A. R. (2012). Self Comes to Mind: Constructing the Conscious. Nova Iorque: Vintage 
Franklin PJ. Indoor air quality and respiratory health of children. Paediatric Respiratory Reviews 2007; 8: 281-286.
Harrison RM, Thornton CA, Lawrence RG, Mark D, Kinnersley RP, Ayres JG. Personal exposure monitoring of particulate matter, nitrogen dioxide, and carbon monoxide, including susceptible groups. Occup Environ Med 2002; 59: 671-9
Nisbet, E. K., Zelenski, J. A., & Murphy, S. A. (2009). “The nature relatedness scale: Linking individuals’ connection with nature to environmental concern and behaviour”. Environment and Behaviour, 41, 715-740. 
Tuan, Y-Fu (1974). Topophilia. A study of environmental perception, attitudes and values, New Jersey, Prentice Hall Inc. 
Schultz, P. W. (2002). “Inclusion with nature: The psychology of human-nature relations”. In P. W. Schmuck & W. P. Schultz (Eds.), Psychology of sustainable development. (pp. 62-78). Norwell, MA: Kluwer Academic.
United States Environmental Protection Agency. Report on the Environment (ROE). https://www.epa.gov/report-environment/indoor-air-quality#note1
World Health Organisation. Combined or multiple exposure to health stressors in indoor built environments.http://www.euro.who.int/en/health-topics/environment-and-health/air-quality/publications/2014/combined-or-multiple-exposure-to-health-stressors-in-indoor-built-environments
WHO. Principles of characterizing and applying human exposure models. IPCS Harmonization Project Document, No.3. World Health Organization, Geneva, 2005b, pp. 74.

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Categorias: Crónica, Sociedade

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