Pedro Costa

1/4/2020 | A incerta verdade dos números da Covid-19 em Portugal

1/4/2020 | A incerta verdade dos números da Covid-19 em Portugal

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A 18 de março passado, Portugal foi declarado em estado de emergência que pedíramos dez dias antes, atendendo à evolução da pandemia de Covid-19 em Portugal.

De forma um tanto tardia, acabou ainda assim por ser instaurado, bem como a a solução, ou soluções, que o Governo tem vindo a implementar, no seu conjunto, parecem estar, à primeira vista, a resultar na luta contra o vírus. O estado de emergência deverá aliás ser prorrogado com alguns aditamentos (leia-se ajustamentos).

Anthony Bellanger, em artigo na FranceInter, reflete sobre o mistério português face à covid-19:

‘Há um mistério português (…) que é o seguinte: enquanto a Espanha se encontra severamente confinada e o Governo espanhol acaba de decretar a cessação de toda atividade económica não essencial … os portugueses estão confinados, os espaços públicos são fechados, mas não há sanções, nem um certificado de viagem. Questionado, António Costa, o Primeiro Ministro Português, respondeu: “Os portugueses são tão disciplinados que a repressão é desnecessária”.

Tudo isto, inclusive o habitual ‘otimismo irritante’ de António Costa, que tem sempre surgido em público com semblante sereno e tranquilo, surpreende e incomoda ao mesmo tempo. Surpreende porque, na verdade, fomos tomados de assalto por um tsunami epidémico mas também informativo; incomoda porque deixa certo tipo de comentadores, principalmente intelectuais (incluem-se aqui alguns políticos) que acham que tudo está sempre mal porque não vai ao encontro daquilo que pensam e que a tendência é sempre para piorar, apesar de a história da humanidade, e as leis da física, demonstrarem sempre precisamente o contrário.

É precisamente neste momento que vem agora a público a discussão sobre a ‘verdade’ dos números portugueses, tendo em conta a inexatidão de alguns dados que têm vindo a público sobre a Covid-19, em Portugal, e a real dimensão da ‘verdade’ dos factos do combate à doença. Ontem, Marcelo Rebelo de Sousa, para pensar o prolongamento do estado de emergência, esteve reunido com especialistas e políticos vários, e só houve um consenso possível. Imagina qual?

Nessa referida reunião, a DGS, sem pronunciar certezas, admitia 9.500 infetados. No mesmo dia, também no Observador, Jorge Buescu, o matemático estatístico que, nesta discussão, alertou que Portugal estaria já com forte probabilidade a contar 19.300 a 31 de março – números que parecem estar longe de se concretizar, deixou a preocupação das suas contas atuais: entre 57 e 121 mil infetados. Atendendo às características da doença, “os médicos vão ser submergidos por esta onda gigante que vem aí”, afirma. “O número de doentes UCI foi de 230. É um exercício aritmético simples saber quando é que, a este ritmo, as 1142 camas UCI anunciadas pelo Primeiro-Ministro estarão todas ocupadas.” E aí não vai ser possível “equilibrar as expectativas” com números “incompletos”. Aliás já não haverá expectativas, apenas o embate frontal com a duríssima realidade”.

A verdade, todos o sabemos, e pese embora possa até parecer estar aqui a contradizer-me, tem o seu quê de subjetivo. Cada qual avança sempre com a ‘sua’ verdade, a qual não pode deixar de ser uma verdade parcial. A luz faz-se da discussão, mas temos que reconhecer também que, com frequência, as conclusões de uma discussão não são comuns às partes envolvidas.

Rita Dinis, ontem, no Observador, evidencia a verdade do momento: ‘“Ninguém faz ideia do que pode acontecer a seguir”. A frase, relatada por uma fonte partidária que esteve presente na reunião desta terça-feira na sede do Infarmed, resume aquilo que diz ser o sentimento geral que reina entre especialistas, médicos e elite política: a incerteza’.

Os maiores especialistas, mesmo em situações que conhecem e dominam bem, cometem erros. Neste caso, em que todos estamos a lidar ainda com um enorme desconhecido, toda a ‘verdade’ muda a cada dia, a cada hora, minuto ou segundo. E isto tanto é verdade para cada um de nós quanto para a comunidade no seu todo.

Em breve saberemos, com toda a certeza se, de facto, o combate à Covid-19 em Portugal está a resultar. Tal é o nosso desejo, esperando que o número de vítimas seja o mais baixo possível.

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