José Miguel de Oliveira

Literatura | Alba

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Alba. Sebastião Alba, o poeta mendigo, nascido a 11 de Março de 1940 na Rua de São Geraldo, freguesia da Cividade de Braga, que deu pelo nome civil de Dinis Albano Carneiro Gonçalves, é um mestre poeta. Da sua vida recordo a imagem de um homem a quem um dia ofereci dois versos que muito o fizeram rir. Disse-me que, se lhe oferecesse uma cerveja talvez os versos se digerissem melhor. Conheci-o em 1994, em Braga, quando aí eu era estudante. Conversávamos sobre tudo o que podia haver no mundo, o mais importante de tudo no mundo que eram as mulheres e a poesia. O local era o café Brasileira, na Rua do Souto. Na altura eu era um rapaz egocêntrico totalmente indisponível para o diálogo, mas verdadeiramente isso pouco importava ao Poeta. Para o comum dos mortais, Alba era uma personagem fictícia da cidade, de barbas agrestes, que se refugiava… na loucura, no álcool e no tabaco… Para mim Alba era o eremita Siddartha que eu conhecera através do romance de Herman Hesse. O Poeta que em vez de se refugiar no bosque e comer as raízes das árvores, se refugiou nos muros da cidade. Alba era sábio.

Despojado da maioria dos bens materiais, não totalmente por culpa sua, mas por culpa daqueles que não valorizaram a sua arte e o seu processo criativo… a sua vida, na altura em que o conheci, era a de um homem livre, alegre e despreocupado. Lembro que usava regularmente as mesmas roupas e que dificilmente tomava banho. Sei-o, porque me disse uma vez que, tal como o filósofo Sócrates teria dito a Platão, decerto – só os ímpios e os impuros necessitavam de banho e de baptismo. A ele bastava-lhe lavar a cara e as mãos, e esfregar os olhos numa corrente limpa.

Nunca me falou da família, porque sei que a guardava demasiado religiosamente para me dizer, a mim alguma coisa acerca dela.

Lembro que me disse também que continuasse com o mesmo nervo, que não deixasse de olhar para as raparigas e continuasse a escrever com as vistas…

Alba, Sebastião – albano dinis, morreu atropelado, poucos dias depois de ter revisto as provas da sua antologia poética, caído no mesmo chão que o viu caminhar …“como uma pedra ao lado da evidência”.
Deixou ao antologiador o seguinte bilhete: “ Se um dia encontrarem morto o teu irmão Dinis, o espólio será fácil de verificar: a roupa do corpo e alguns papéis que a polícia não entenderá”.[1]

Alba e o destino dos poetas…

António Ramos Rosa. O poeta português disse uma vez: em qualquer parte um homem discretamente morre. Ergueu uma flor. Levantou uma cidade. [2]

Os verdadeiros poetas são mestres … porque a poesia é a sinfonia da mente recriando o mundo que se sente. O filósofo alemão, Heidegger defendia que o homem era um Dasein – a casa do ser e por isso o exercício de desocultação da verdade só se poderia exercer, verdadeiramente, pela poesia – a metáfora da verdade.

Ainda lembro o Poeta, entendo o Filósofo… ” ninguém como nós conhece o sol” porque nenhuma linguagem diz totalmente o mundo e, quanto mais procura dizê-lo decerto, mais se afasta.

 

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Categorias: Crónica, Cultura, Sociedade

Acerca do(a) Autor(a) do artigo

José Miguel de Oliveira

José Miguel Oliveira nasceu a 26 de maio de 1973. É natural da freguesia de Delães, no concelho de Vila Nova de Famalicão onde reside, e professor de filosofia no ensino secundário em Vila das Aves. Em 1994 publicou o seu primeiro livro "Primeira Palavra"; em 2008 foi publicado na antologia "Os dias do Amor"; em 2009 na antologia "entre o sono e o sonho" e em 2012 na "nova antologia de poetas alentejanos". Alguns dos seus poemas podem ser lidos no sítio deliriospoeticos.blogspot.com

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