Daniel Faria

Espiritualidade | Os mistérios do Natal

Espiritualidade | Os mistérios do Natal

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O Natal é a festividade que assinala o nascimento de Jesus, o Cristo, sendo comemorada em todo o mundo por cristãos e não cristãos. Porventura, é a festa que enche mais o coração dos seres humanos, independentemente das suas crenças. Examinemos a origem do Natal e os seus aspetos históricos e espirituais.

 

A data de nascimento de Jesus

Os primeiros cristãos não celebravam o nascimento de Jesus. Enfatizavam a Páscoa, o dia da entrada de Jesus na realidade definitiva de Deus, ao superar a morte com a ressurreição gloriosa. Neste dia, recordavam o dia da glorificação de Jesus, o 14 de Nisan, dando sequência à tradição da Páscoa judaica, mas não a data de nascimento.

Em Roma, em 25 de dezembro, dias após o solstício de Inverno, celebrava-se o dies natalis Solis invicti, o dia do nascimento do Sol invicto, a vitória da luz sobre as trevas.

Fazendo um paralelismo entre o nascimento de Jesus e expressões bíblicas como “sol de justiça” (Ml 3, 20) e “luz do mundo” (Jo 1, 4s), os cristãos de Roma, a partir do século IV, passaram a celebrar em 25 de nascimento de Jesus, uma prática que foi adotada pelas comunidades cristãs do Ocidente, enquanto na tradição cristã oriental tem prevalecido a data de 6 de Janeiro.

Pode-se afirmar que Jesus não nasceu no ano 1 da nossa era comum. Foi o papa João I que no século VI incumbiu o monge e matemático Dionísio, o Pequeno, de calcular o nascimento de Jesus, com o propósito de calcular o calendário da era cristã.

O monge determinou que Jesus nasceu em 25 de dezembro do ano 453 da fundação de Roma. Portanto, o ano 454 seria o primeiro ano da era cristã. A questão é que Herodes, o Grande, rei da Judeia, faleceu em 450 após a fundação de Roma, ou seja, em antes da nossa era. Se Jesus nasceu no seu reinado, conforme é testemunhado nos Evangelhos, teve que nascer antes do ano 4 antes da nossa era. Dionísio cometeu outro erro. Não incluiu o ano 0 para ajustar a transição entre a era anterior a Jesus Cristo e a posterior. Daí que assinalamos a chegada do século XXI e do terceiro milénio em 1 de janeiro de 2001 e não um ano antes.

 

O local de nascimento de Jesus

No que se refere ao local de nascimento, a tradição cristã acredita que Jesus nasceu em Belém.

Mateus disse explicitamente que Jesus nasceu em “Belém de Judá, no tempo do rei Herodes” (Mt 2, 1; cf. 2, 5.6.8.16) e o mesmo menciona Lucas (Lc 2, 4.15). O evangelho de João referiu-o de uma maneira indireta. Na sequência de uma discussão sobre a identidade de Jesus, uns afirmavam: “Este é verdadeiramente o Profeta”. Outros diziam: “Este é o Messias”. Alguns, porém, diziam: “Porventura é da Galileia que há-de vir o Messias? Não diz a Escritura que o Messias há-de vir da descendência de David e da aldeia de Belém, donde era David?”” (Jo 7, 40‑42). O quarto evangelista recorreu à ironia: ele e o leitor cristão acreditam que Jesus é o Messias e que nasceu em Belém. Os oponentes a Jesus pretendem demonstrar que ele não é o Messias, alegando que a sua origem é em Nazaré, situada na Galileia.

Também existem historiadores que consideram Jesus não nasceu em Belém, alegando que esta ligação foi feita para legitimar a identidade messiânica de Jesus.

Contudo, existem evidências de Belém como local de nascimento de Jesus. Justino, o Mártir (c. 100-165 d.C.), nascido em Israel, mencionou que Jesus nasceu numa gruta próxima de Belém. Orígenes (185-253), um dos maiores pensadores do cristianismo primitivo, também testemunhou isso. Existem evangelhos apócrifos, que não foram incluídos no cânone oficlal do Novo Testamento, que também referem Belém como local de nascimento de Jesus.

Além disso, existe um facto histórico que merece especial menção. Na década de 130, o imperador romano Adriano decidiu fazer de Jerusalém uma cidade pagã. O seu nome passou a ser Élia Capitolina e resolveu construir templos pagãos nos lugares mais sagrados do judaísmo e do cristianismo nascente. Assim, no local do antigo templo judeu foi implantado o templo de Júpiter Capitolino e no local do sepultamento de Jesus foi erigido o templo de Vénus. Mas a audácia imperial não se circunscreveu a Jerusalém. Em Belém foi implantado um templo dedicado a Adónis. O paradoxo é que as obras destinadas à construção dos diversos templos contribuíram para preservar os locais mais sagrados do judaísmo e do cristianismo.

 

O caráter simultaneamente divino e humano do Natal

A maior parte das referências bíblicas a Deus são apresentadas com um rosto masculino. Os nomes de Deus mais mencionados na Bíblia são masculinos: Eloim, El, El-Chadai, Adonai.

Contudo, na Bíblia, existem referências à dimensão feminina de Deus, nomeadamente a Schekinah, a Presença de Deus, a Chokmah ou Sophia, a Sabedoria de Deus, e a Ruah, o Espírito de Deus.

Na Cabala judaica, que representa a dimensão mais mística e esotérica do judaísmo, Binah representa o princípio feminino de Deus, origem de tudo o que existe, sendo por isso considerada Mãe Divina e Mente Divina. De acordo com a Bíblia, tudo o que existe é manifestação da Mente Divina.

De acordo com a Cabala, que enaltece o cariz sagrado da sexualidade, há uma dupla união que ocorre no momento da conceção humana: uma, no plano metafisico, a dos aspetos masculino e feminino da Divindade, que providencia a alma; e a outra, no plano físico, do homem e da mulher, que fornece o corpo físico.

Quando foi revelado a Maria que o Espírito Santo viria sobre ela e o poder do Altíssimo a cobriria com a sua sombra, há uma referência clara à Shekinah, que está sempre presente na conceção de uma criança. Maria concebeu Jesus através da graça do Espirito Santo, tal como todas as outras mulheres que geram crianças.

Existe uma interpretação errónea da palavra “na’arah”, que significa “menina jovem”. As profecias do Antigo Testamento pregavam que uma na’arah deveria conceber o Messias. Contudo, a versão dos Setenta e a tradução grega da Bíblia hebraica, da qual se fizeram todas as outras traduções, fez uma interpretação errónea da palavra na’arah, dando o significado de virgem.

Há que ter em consideração que a generalidade dos primeiros cristãos partilhavam a convicção de que Jesus era o filho de Maria e José, considerando que isto não colocava minimamente a sua fé em Jesus como Messias anunciado pelos profetas do Antigo Testamento, glorificado e exaltado por Deus.

Nas últimas décadas, diversos investigadores tem revelado esta dimensão esquecida do cristianismo primitivo. Geza Vermes, um dos mais ilustres especialistas mundiais das Escrituras bíblicas (canónicas e apócrifas), escreveu um dia:

“Na versão definitiva das genealogias, tanto Mateus como Lucas insinuam, que apesar de tudo aparentar o contrário, José não era de facto o pai do filho de Maria. As palavras do texto tradicional de Mateus (4:16) tentam fugir ao problema: «Jacob gerou a José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, que se chama Cristo.» Todavia, vários testemunhos textuais, alguns manuscritos e a tradição em siríaco do Sinai, afirmam que José era o pai de Jesus: “José, a quem estava prometido a virgem Maria, gerou a Jesus, que é chamado o Cristo.” O «Diálogo entre Timóteo e Áquila», de origem grega, que apresenta uma discussão entre um judeu e um cristão, confirma de modo sucinto, que «José gerou a Jesus, que era chamado o Cristo».(…) A propósito, a ideia de José ser o pai natural de Jesus era professada pela antiga comunidade judaico-cristã dos ebionitas.”

Os próprios evangelhos canónicos também fazem referências a Jesus como o filho de José ou o filho do carpinteiro (Mc.6:3; Mt.13:55; Lc.4:22; Jo. 6:42).

A este respeito, é importante referir que o próprio Joseph Ratzinger, o papa emérito Bento XVI, escreveu em 1969: “A filiação divina de Jesus não se baseia (…) no facto de Jesus não ter pai humano; a doutrina da divindade de Jesus não seria posta em causa se Jesus fosse o fruto de um casamento normal.”

Juntamente com Maria, José manifesta a plena humanidade de Jesus, que não contradiz a convicção de fé de que a existência, de Jesus se explica, em última instância, a partir de Deus, e a sua condição de grande manifestante por excelência da Sabedoria Divina.

O Natal é muito mais do que a recordação sempre presente do que aconteceu há dois mil anos. A consciência crística, a inteligência infinita de Deus, presente em toda a Criação, simultaneamente transcendente e imanente, manifestada por Jesus e por outros mestres espirituais, conhecidos e desconhecidos, quer viver em nós e no meio de nós. Se nós acolhermos a mensagem de amor, fraternidade e libertação integral transmitida por Jesus nas nossas vidas, ele faz-nos entrar na grande família cósmica que é a do próprio Deus.

Imagens: Romero Britto

Romero Britto (1963) é um famoso pintor brasileiro. Nascido no Recife, mas radicado em Miami, nos EUA, é famoso pelo seu registo alegre e colorido e por apresentar nos seus trabalhos um tipo de pop art despojada da estética clássica e tradicional. É atualmente o pintor brasileiro com mais sucesso fora do seu país. As suas obras estão presentes em coleções espalhadas por todo o mundo.

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Categorias: Crónica, Sociedade

Acerca do(a) Autor(a) do artigo

Daniel Faria

Nasceu em 1975, em Vila Nova de Famalicão. Licenciado em Sociologia das Organizações pela Universidade do Minho e pós-graduado em Sociologia da Cultura e dos Estilos de Vida pela mesma Instituição. É diplomado pelo Curso Teológico-Pastoral da Universidade Católica Portuguesa. Em 1998 e 1999, trabalhou no Centro Regional da Segurança Social do Norte. Desde 2000, é Técnico Superior no Município de Vila Nova de Famalicão. Valoriza as ciências sociais e humanas e a espiritualidade como meios de aprofundar o (auto)conhecimento, em sintonia com a Natureza e o Universo. Dedica-se a causas de voluntariado. É autor do blogue pracadasideias.blogspot.com e da página Espiritualidade e Liberdade.

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