Diogo Martins

Dar Coisas aos Nomes | Do amor que os burros não entendem

Dar Coisas aos Nomes | Do amor que os burros não entendem

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Jorge de Sena (1919-1978) não consentiria, decerto, com os laivos de impressionismo na abertura deste texto, tendo ele sido um porta-voz do rigor em tudo quanto mereceu a sua atenção e sensibilidade, as duas de mãos dadas, numa paixão violentíssima e inseparável, como verdadeira paixão que se preze. Mas não resisto a ceder às primeiras e súbitas impressões de uma leitura (por serem já-ainda leitura, um pensamento larvar da leitura, ou a leitura a apropriar-se de nós, fazendo-nos seus mediúnicos, para ganhar corpo e fazer-se luz). Assim seja: vejo o Joker (na versão de Heath Ledger) no momento em que apanha de surpresa os faustosos convivas de Bruce Wayne, tudo fato Armani e lantejoulas, arruinando-lhes o protocolo das peneiras, a musiquinha ambiente de fundo, a paz podre dos 1% no meio de uma Gotham neoliberal abandonada aos ratos (“a paz quotidiana da injustiça”, acusa Sena num poema de 1972). “Good evening, ladies and gentlemen” – irrompe o vilão, de arma em punho, falando segundo os códigos de cortesia para que das boas conveniências se extraia um espinho e com este se perfure a carne, tanto mais fraca quanto mais veemente for a vaidade com que aquela se ilude. “We are tonight’s entertainment!

E pronto, cá estamos: cem anos depois, a 2 de novembro de 2019 foi assinalado o dia em que Jorge de Sena nasceu. A festa continua: conferências, congressos, debates, mesas-redondas. O costume. Mas faltou Sena, mesmo que em modo espectral, a irromper a meio de um salão, com os académicos da praça, a acusar-nos a todos de proselitismo manco, pouco talento e miserável paixão, a borrar-nos a pintura assepsiada da crítica sustida a pinças, a afirmar triunfalmente, como Joker, que é ele o bobo da festa e o espetáculo da noite. Em 1977, no prefácio ao terceiro volume de Poesia, comentando os seus “quarenta anos de pública servidão poética”, Jorge de Sena deixava no ar a questão, entre o sarcasmo mesquinho e a lucidez magoada: “Que hei-de eu fazer senão comemorar-me a mim mesmo, se não sirvo para as comemorações de ninguém, e às vezes até estrago algumas?

Segundo Eugénio Lisboa, “[o] autor das Andanças do Demónio trabalhava com a fúria de quem sabe que vai morrer no dia seguinte”, e essa fúria impressiona pela multiplicidade de formas que assumiu, pelo caráter multifacetado, poliédrico ou monumental da extensíssima obra de Sena, como se tem vindo a realçar nos últimos dias. Que Sena foi um académico de uma versatilidade incrível, eis o que atesta a enumeração que se segue: ensaísta, historiador, dramaturgo, romancista, novelista, contista, epistológrafo, intelectual de peso nos seus variados cambiantes, conferencista, crítico de cinema e teatro, tradutor de excelência (entre muitos outros, de Kavafis e Emily Dickinson), antologista, no sentido minuciosamente crítico do termo (a esse título, Ricardo Vasconcelos assina no Público, dia 7 de novembro de 2019, um artigo que faz justiça, por exemplo, ao modo como a antologia Líricas Portuguesas, marcante para várias gerações de leitores, se destaca “pela originalidade da metodologia, pela argúcia crítica das notas biobibliográficas de Sena, e pela riqueza do prefácio”, ousando assim “criar um espaço para a contemporaneidade” que retirasse da sombra e do esquecimento outros poetas pós-geração Orpheu e pós-revista Presença).

Sena é incontornável no seio dos estudos camonianos, a começar pela urgência em dar a ler o poeta d’Os Lusíadas sem “esse arroto de passadas glórias”, o ruído das pompas e circunstâncias do provincianismo patrioticamente serôdio que continuam a eclipsar as leituras que se finge fazer de Camões. E daí os poemas “Camões dirige-se aos seus contemporâneos” e “Camões na Ilha de Moçambique”: neste último, o poeta pátrio por excelência é imaginado por Sena sem “bronze”, sem “louros na cabeça, / nem no escrever parnasos”, mas tão-só aninhado junto às rochas do mar, a largar “a malcheirosa escória de estar vivo”.

Sena é igualmente uma referência indeclinável para lermos Pessoa e o modernismo português, sobretudo pelo modo como contrapôs o fingimento poético pessoano e o seu “drama em gente” àquilo que Sena chamou a poética do (e enquanto) “testemunho”, assumindo-o como “a mais alta forma de transformação do mundo”. E acrescenta, de modo lapidar: “Como um processo testemunhal sempre entendi a poesia, cuja melhor arte consistirá em dar expressão ao que o mundo (o dentro e o fora) nos vai revelando, não apenas de outros mundos simultânea e idealmente possíveis, mas, principalmente, de outros que a nossa vontade de dignidade humana deseja convocar a que o sejam de facto.” (do prefácio à primeira edição de Poesia – I, Moraes Editores, 1960)

Sena, o poeta

Eis um poeta (a) sério: no sentido em que o profundo conhecimento da poesia dos outros se tornara imprescindível para fazer a sua, mais livre de angustiosas influências ou histéricas genealogias quanto mais profundamente foi conhecedor das liberdades que cada poeta ajudou a matizar: “Se vos traduzo para vós em mim, / […] [é] para que sejais da minha língua, / aquela a que eu pertenço e me pertence, / e assim nela eu me sinta em todo o mundo e sempre, / por vossa companhia” (do poema “Envoi”). Fazer poesia, aqui, reinveste-se do sentido radicalmente etimológico da poiesis, isto é, de quem se abeira da técnica, da mecânica intrínseca dos versos, da sua música de fundo, das possibilidades combinatórias em que se joga a própria inclinação lúdica da poesia, mas sem com isso desbaratar o exercício para uma preguiçosa masturbação lírica, derramada numa qualquer intenção confessional.

De igual modo, o domínio desta ciência não devém uma marioneta rigidamente controlada por cerebralismos, intelectualismos e demais -ismos de escola (com o surrealismo e o neorrealismo à cabeça). Os poemas de Sena respiram. Há sangue neles, ímpeto de vida, o corpo-a-corpo na sua imanência brutal, numa entrega jubilosa ao sexo, ao amor, à ternura quente da intimidade e da beleza que há em ser-se íntimo – “e no silêncio se ouça o só ranger / da carne que é da carne a só razão” (de Exorcismos, 1972) –, o que se afirma, desse modo, como um mostrar a língua de fora contra o puritanismo de costumes e contra a vergonha de ser que por cá, com Salazar no poder (e mesmo depois de morto e enterrado), mutilavam os espíritos e emagreciam a vida, vampirizando o desejo de viver.

De Sena, mesmo os seus poemas mais citados não cansam. Não provocam esse prurido daninho das frases empasteladas que mais não cumprem que uma cansadíssima função fática, isto de por cá andarmos a dizer que sim uns aos outros para despachar o frete, nesta “porra triste”. Assim, num poema justamente intitulado “Aviso de porta de livraria”, a magoada consciência do poeta não se dá sem que um justo desprezo pela poesia fira o respeitável bom gosto, a fraudulenta veneração pela coisa poética feita pelos “heróis do palavrão doméstico” e “que andam aos pulinhos num pé só, / com as duas castas mãos uma atrás e outra adiante, / enquanto com a terceira vão tapando a boca / dos que andam com dois pés sem medo das palavras”. Amar verdadeiramente a poesia implica destilar igualmente este veneno, um nojo profundo pela falta de coragem e pelo apego às alegrias fáceis, prostrando-se à poesia dos bons sentimentos, cuja bondade devém outro nome para o sentido de conveniência ou oportunismo. É uma raiva vital contra a própria poesia, o seu excesso, o mercado livresco e todos os que nela se movem, esta barbárie civilizacional que empesta a partir do que diz ser a cultura. Mas uma raiva sem a qual a dignidade de tudo isto se perde. E daí a força desta advertência:

De amor e de poesia e de ter pátria

aqui se trata: que a ralé não passe

este limiar sagrado e não se atreva

a encher de ratos este espaço livre

onde se morre em dignidade humana

a dor de haver nascido em Portugal

sem mais remédio que trazê-lo n’alma.

(de Exorcismos, 1972)

A dor de haver nascido em Portugal

Como Eugénio Lisboa afirmara, “[…] Jorge de Sena teve de lutar contra as clássicas perfídias dos menos talentosos que são quase sempre também os mais mesquinhos.” Num país governado a pulso de ferro, cuja promoção cultural coincidia forçosamente com as diretrizes estatais, com o lápis azul a rasurar o intempestivo e, por arrasto, a homogeneizar – sempre por baixo – os homens e mulheres que se tomavam por espíritos livres, não espanta que a própria imagem de um meio literário soe mais a miragem do que a um conjunto minimamente coeso para assumir contornos reais. Mas o meio literário era o meio literário possível, condenado a ser inexistente, a ter medo de existir. E, por isso, diante uma personalidade como Jorge de Sena, tão real na mossa que a sua presença infligia na superfície esvanecente das coisas, as reações só poderiam ser portuguesmente mesquinhas – considerando, ainda para mais, o escândalo de Sena ser engenheiro civil de formação, olhado de soslaio como um outsider dentro da república das letras. O diagnóstico é, pois, o seguinte: “[…] nós vivemos na urgente necessidade de liquidar depressa e com eficácia os nossos valores de primeira linha. O talento afronta. A inteligência perturba. O trabalho (dos outros) ameaça. A integridade insulta. De tudo isto possuía Jorge de Sena abundantes provisões. Uma obra apenas interessante ou apenas talentosa consegue-se e triunfa com pouco trabalho, alguma sorte e muita corte. Uma obra grande e profunda é sempre o resultado de uma longa e nunca saciada obsessão. […] Sena pertencia à raça sublime e minada dos grandes obcecados” (Eugénio Lisboa, no prefácio à antologia que organizou um ano após a morte do poeta, no âmbito das comemorações do 10 de junho, dia de Portugal e tralalá).

Mas quem ri por último ri melhor? O riso ainda, muito jokermente, como uma navalhada espectral que nos arde por dentro ao respirar (idêntica à risada de Mozart encerrando o conhecido filme de Miloš Forman: riso descarnado e insolente, “na sua gloriosa extemporaneidade”, a própria vida que se ri a partir do riso de Mozart, segundo Sousa Dias, 2016). Mas a pergunta, ainda que retórica, não deixa de ser parva e precipitada, por sucumbir a uma lógica (tão ferozmente contemporânea) de competição de todos contra todos, poetas e menos poetas, mais lacaio menos lacaio. Sena, por sinal, sabia-se superior a isto: seja pelo seu quê de altivez (que terá servido a muitos como pretexto para odiá-lo), seja, sobretudo, por saber de facto o quanto acreditava na dignidade e na integridade de tudo o que fazia. E como aferir quanto vale a dignidade e a integridade de um trabalho que se define como “uma fidelidade integral à responsabilidade de estarmos no mundo, mesmo quando tudo nos queira demonstrar que estamos a mais… ou a menos” (de uma entrevista de 1954, em O Reino da Estupidez, 1961)?

Continuando, por outras palavras: “Dado que eu não acredito em nenhuma forma de imortalidade, e tenho erudição bastante para saber que cemitérios são as bibliotecas e as histórias literárias; e dado ainda que não me dou a participar em partidarismos que me ofereçam, por substituição, a ilusão da imortalidade, será bem clara a razão de exigir o reconhecimento que me cabe pelo muito e bom que tenho feito. Tenho horror de falsas modéstias, de facto. Mas tenho ainda maior horror da mediocridade que se compraz em recusar-se a reconhecer o que a excede. Não, não sou um dos meus mais seguros admiradores. Se o fosse, seria como a maioria dos mesmos da vida literária portuguesa, tão satisfeitos de si mesmos que escrevem sempre um livro pior do que o anterior. O problema não está em eu me considerar muito grande – mas sim em os outros serem, na maioria, tão pequenos.

“Nada nos salva desta porra triste”

No entanto, entre o desalento e o cinismo, pelo meio desse desafetado apuramento que, muitas vezes, só uma visão realista-pessimista consegue atingir – o que, por sua vez, reafirma com maior veemência o ímpeto vitalista, a sagração do amor e dos corpos, a criação como liberdade livre –, seria injusto fincar exclusivamente este olhar sobre Jorge de Sena em arraiais tão sombrios, num azedume de se cortar à faca. Mesmo que a injustiça tenha sido inteiramente sentida pelo próprio, que a denunciou sem fim, se tivermos em conta que viveu sempre contra o fascismo do Estado Novo, condição que tomaria depois letra de forma no seu exílio voluntário, primeiro, no Brasil, em 1959, e, depois, nos Estados Unidos, em 1965, onde singrou como professor catedrático. Contra o fascismo, a censura, as suas violências tanto ínfimas, porque sistemicamente invisíveis, como explícitas e brutais; contra a Guerra Colonial e a mitomania que lhe é tão cara quanto hipócrita: “O general combateu heroicamente nas Guinés / (todos os generais são heróicos porque não se arriscam / todos os dias como os soldados, mas só às vezes / quando visitam a «frente» para mostrar aos soldados / que têm colhões como eles, e os soldados acreditam) […]”, etc. (de 40 Anos de Servidão, 1989).

Mas há mais, muito mais, para lá daquele Joker calculadamente diabólico, arruinando-os a festa da língua erguida sobre “cafés, popós e brilhantinas”, vingando-se do “quão delicadas estas bestas são”, incapazes de um só verso de “verdade bruta”, sem intenções cifradas (de Dedicácias, 1980). Um Joker destinado à ironia de forçar tudo e todos a exporem as suas próprias máscaras, a reconhecerem-nas como a face mais torpe, se não genuína, de si mesmos: quer se ria na face dos poetas – “A poesia tão igual a uma lepra! / … … … … … … … … … / E os poetas na leprosaria / vão vivendo / uns com os outros, / inspecionando as chagas / uns dos outros.” (de Perseguição, 1942) –, quer a acidez da gargalhada esbarre contra toda a “ditosa pátria minha amada”, que, além de “cabra” e “badalhoca”, é “peste e fome e guerra e dor de coração” (do poema “A Portugal”, escrito a 6-12-1961).

(E, de súbito, quanto mais me assiste a imagem do Joker segundo Ledger no filme de Nolan, mais a sua brutalidade me parece excessivamente imprópria para o Jorge de Sena que revisito nestas leituras. Mais a malignidade desse “agente do caos”, como amiúde se define a criatura, passa a palavra e o corpo ao mais recente Joker, na retorcida magreza de Joaquin Phoenix, esse monstro que ajudamos a nascer, de cuja vocação assassina nos tornamos cúmplices e mestres, tão sem qualidades quanto ele, de Musil ao Taxi Driver, de Robert Walser a Mr Robot, do Pessoa pré-Panteão à sordidez desesperada do Fight Club. Toda uma triste romaria de olhos pisados, dentes podres e roupa suja, mas tudo maquilhado a filtros, com orelhinhas patetas e sépias forçados à la instagram, que já nem o tempo deixamos que envelheça. Tudo a subir e a descer os pisos do shopping, o paraíso fiscal dos menos pobres que os pobres reais. E depois, finalmente, este gargalhar ferido de tudo, devido a tudo, contra tudo, “[…] a fugir / de colhão para colhão do seu pai / para ver se escapava a ser filho da puta…” E é isto. É ainda Sena que o diz – “E é isto” –, em diálogo com o chofer do táxi (que, de repente, na minha cabeça, tem a cara de Travis Bickle e me olha pelo espelho retrovisor, dizendo-me sem o dizer que a culpa disto tudo – do ordenado de merda, do SNS tal como está, mais o Berardo e o Sócrates, mais a escola que lhe embrutece os filhos e o bebé achado no lixo – também é minha): “E é isto: andam de colhão para colhão / a ver se escapam – e muitos não escapam. / E os outros não escapam aos que não escaparam.”)

“Não há limites para a Vida”

Como poeta, Jorge de Sena é imensamente muitas coisas, variadamente imenso. Lendo a sua poesia, assegura Teresa Carvalho, “ficaremos a saber o que pensa sobre uma infinidade de coisas, das mais complexas às mais triviais: da ressurreição (“um negócio individual, requerendo vítima, sepulcro emprestado”), das histórias da literatura, dos estudiosos e até dos actores dos filmes pornográficos” (jornal i, 4-6-2018, num artigo que assinalava, à data, os 40 anos da morte do poeta). Encontraremos também um engenhoso panorama de quem conheceu e ousou experimentar todos os géneros e subgéneros da lírica: da índole popular ao modelo clássico do soneto, da aparente simplicidade das cantigas (de que um título como “Variações sobre cantares de D. Dinis” é desde logo ilustrativo), ao ofício caprichoso sobre a matéria plástica do som (“Dentífona apriuna a veste iguana / de que se escalca auroma e tentavela”, lê-se no primeiro dos Quatro Sonetos a Afrodite Anadiómena); sem esquecer as suas meditações poéticas no diálogo com as outras artes – a denominada ekphrasis –, de que Metamorfoses (1963) e Arte de Música (1968) constituem manifesto emblema.

Da contenção expressiva num único verso, que condensa a mais abissal imagem do homem como um mundo imensamente só – “Cria-se da angústia uma cadeira para assistir à noite” –, Sena salta para os poemas longos, de verso livre, em tom declarativo, mas sem que o desafogo verbal alguma vez perca o sentido rítmico do verso (o que é muito diferente do que, em 1977, Sena apontava “nestes tempos de versos que apenas quebraram o pé em cantatas pseudo-revolucionárias”). Como se até ao mais terrível movimento de terras se pudesse atribuir um obstinado equilíbrio formal, uma cadência orgânica, mas não menos laboriosa, para captar a intensidade inesgotável da sua fúria. Um poema com o título “Lamento de um pai de família” arranca sem qualquer freio, sem bolinha vermelha ou advertência quanto ao risco de ferir a suscetibilidade de todos os que, lendo-o, se lhes veem metida a carapuça, enterrada até aos pés:

Como pode um homem carregado de filhos e sem fortuna alguma

ser poeta neste tempo de filhos só da puta ou só de putas

sem filhos? Neste espernear de canalhas, como pode ser? 

[…]

Cumprem-se estas palavras como expoente máximo da condição de ser livre, não para ofender gratuitamente quem quer que seja, nem para embandeirar o que muitos hoje exsudam de “politicamente incorreto” (escondendo assim a sua pequenez de espírito, o vidro dos seus sujos telhados e o mero facto de serem boçais no charco dos preconceitos), mas livre na medida de uma consagração da plena liberdade de existir e de afirmar essa liberdade em nome da própria liberdade, em sua defesa contra os que a destroem ao pretenderem cifrá-la, diminuí-la, moldá-la em função das comodidades do momento. O inferno, porém, toca a todos, e é em vida, só em vida, enquanto cá estamos, que nos cumpre denunciá-lo e combatê-lo:

[…] Antes morrer.

Mas que adianta morrer? Quem nos garante que a morte

não existe só para os filhos da puta? Quem me garante que

não fico lá, assistindo a tudo, e sem sequer poder chamar-lhes

filhos da puta, com o devido respeito a essas senhoras que precisamente

se distinguem das outras por não terem filhos, nem desses nem dos outros?

Mas mesmo isto não consola nada. A quantidade, a variedade

gastaram a força dos insultos. E não se pode passar a vida,

esta miséria que me dão e querem dar a meus filhos, a chamar nomes

feios a sujeitos mais feios do que os nomes. Como pode um homem

sequer estar vivo no meio disto, sem que o matem?

E o pior é que matam, sim, e sem saberem primeiro quem,

para não se inquietarem com o problema de terem morto por engano

um irmão, desfalcando assim a família humana de alguma ornamento

que a tornava menos humana e mais puta.

(15-6-1964, de 40 Anos de Servidão)

Como o próprio reconhece, ao comentar num poema a sua “peregrinação” segundo o retrato deformado pelos demais que o (não) liam: “tentaram assassinar-me com o hermetismo”, ou “com insinuações de que eu copiava o Eliot”, ou que era ora “discípulo de Pessoa” ora de Camões, consoante o lado para que pesava a balança preguiçosa do enviesamento hermenêutico. “E sou clássico, barroco, romântico, / discursivo, surrealista, anti-surrealista, / obnóxio, católico, comunista, / conforme as raivas de cada um.” A questão é que, de facto, Sena cultivou todos esses matizes, todas essas figurações, do estilo à substância, testemunhando-se, assim, a luz negra da complexidade humana, a tensão contínua de quem, sendo o que é, oferece igualmente a outra face, mesmo que o faça contra si, no sentido mais cristãmente ético deste gesto. Ético e poético, sem fissura nem clivagem. E, por isso, afirma num poema não poder simplesmente desesperar de toda a humanidade, porque nem toda a humanidade o repugna inteiramente:

E daí, também, como já no poema anterior se depreende, a ambivalência relativamente ao país de origem, que tão mal o tratou, nunca ser motivo suficiente para lhe diminuir o amor à língua em que se cumpre como poeta:

Dar testemunho

A razão de tudo isto continua a ser, sempre, a poesia, os poemas, os textos. A vontade de saber alguns de cor, um par de versos como “No escuro cresce o amor / que só nocturno se ama”, fechando-se a intimidade num só lugar onde o amor é, de súbito, instância de abertura, entre quatro paredes e dois corpos que condensam e realizam o infinito. E a vontade, mais dorida, mais pisada, de conseguir despejar num só jato demencial os longos poemas de Sena, que parecem ter sido escritos no futuro por tão bem se engalfinharem naquilo que somos como país, como democracia, como antro de intrigas, raivas e cancros que alastram – e “os cancros são fascistas” –, diante os quais o silêncio é, o mais das vezes, sinal de cobardia e complacência. Complacência diante o crime, a desonra, a deslealdade, a miséria de não mais resistir a tudo quanto nos amesquinha, cínicos até à medula, imunizados contra a imaginação, essa perda de tempo. “E a miséria é isso: não imaginar / o nome que transforma a ideia em coisa, / a coisa que transforma o ser em vida, / a vida que transforma a língua em algo mais / que o falar por falar”. E neste falar por falar as palavras apodrecem – “e com elas apodrece o mundo / e se dissolve em lama a criação do homem / que só persiste em todos livremente / onde as palavras fiquem como torres / erguidas sexo de homens entre o céu e a terra” (de Conheço o Sal… e outros poemas, 1974).

Mas este antro continua a sê-lo mesmo nele havendo beleza, por muito que o simples gesto de contemplá-la e de reconhecê-la na prosa dos dias seja tão violento quão violenta é a convicção de que esse gesto é precário, que dura o tempo de um relâmpago, o tempo de uma vida. A beleza perseguida a ferro e fogo, com unhas e dentes, pela noite dentro – perseguição, aliás, que deu nome ao seu livro de estreia, em 1942, pela Edições Cadernos de Poesia, “fosse ela [a perseguição] da beleza e do vocábulo justo, do amor claramente dito ou de um rancor pronunciado sem reservas”, lê Manuel de Freitas (Incipit, 2015, p. 11).

A beleza de possuir a cada vez mais rara “capacidade de admirar”, como referiu Sena a propósito de Florbela Espanca. A beleza de um desejo inocente porque impossível, mas não menos desejável (e desejante, no seu vitalismo intrínseco) por isso: “Quisera adormecer / como a criança acorda, / à beira de outro tempo, que é o nosso. // Só quero o que não posso.”, escrevia em 1953. Um breve poema que reafirma as palavras póstumas de Eugénio Lisboa: “Fazendo figas ao protocolo e às convenções, excedendo-se, consternando alguns de nós, às vezes discutível, mas sempre generoso e corajoso, ele foi até ao fim um admirável grande homem dentro de uma interminável grande criança…”

A beleza, por fim, que mais não é do que dar testemunho – assim, sem predicativos. Dar testemunho. Sem infusões derridaneanas, nem voltas desconstrucionistas ao bilhar grande – não desfazendo, é certo, essas possibilidades e errâncias, que são também, goste-se ou não, modos de ler e de nos lermos lendo. É esse o testemunho vital por que pugnou Jorge de Sena de corpo e alma, com a força desesperada de quem tem a obsessão de fazer vingar a liberdade e, em nome dela, “[…] lembrar aos outros que há uns valores essenciais, muito simples: honra, amor, camaradagem, lealdade, honestidade, sem os quais a vida não é possível, e toda a poesia, por mais sábia que seja, é falsa. Uma testemunha de que, sem justiça e sem liberdade, as sociedades humanas não dão ao homem a dignidade que é a sua, e que ao poeta cumpre afirmar. Não uma testemunha passiva: mas activa. Porque é esse o papel da poesia.” (Jorge de Sena, 1977)

E amiúde num poema seu: “Há que resistir porém e sem porquê. […]” Poesia, defesa do atrito, qualquer coisa assim – mas qualquer coisa que nos instigue a sermos responsáveis por aprender a nomeá-la com precisão, honestidade e justiça. Qualquer coisa, na verdade, que não se resigne a ser somente assim, nem tão pouco qualquer coisa, fortuita e vulgar. Resistir porém e sem porquê – como a rosa de Silesius, um instante de beleza, a eventualidade incerta que clama por nós, pelo que há a mais em cada um de nós, público de homens e mulheres por vir. Uma “comunidade que vem” nos termos de Giorgio Agamben. Nos termos de Jorge de Sena: testemunhar. Porque “[m]ais do que nunca, num mundo onde as vidas humanas se tornaram tão baratas que podem ser gastas por milhões, aos escritores cumpre resistir. Poderemos ter revoluções: mas tenhamos esperança de que nelas as pessoas podem morrer por acidente, mas nunca assassinadas”. Foram estas palavras que Sena escreveu num texto para o Encontro Internacional de Grado, em Itália, em setembro de 1976, e às quais recorre para concluir o prefácio à segunda edição do volume Poesia – I. Mas deixa ainda espaço para a seguinte coda, e que as condições específicas do tempo histórico que nos coube viver, em novembro de 2019, agora, na premência deítica desta data (pormenor tão caro a Sena), parecem convocar e atualizar:

E por agora basta, quando Portugal – a quem a minha obra primordialmente pertence – tem de aprender a praticar as ironias democráticas, para sobreviver e ocupar, no mundo, o lugar que lhe cabe de antiquíssima nação gloriosa: por uma vez, nesse país, que haja, na garantia da liberdade e da justiça, lugar para todos, como tão raras vezes houve. Do país subitamente falei. De lugares na literatura é melhor não dizer mais nada.

Referências

Ricardo Vasconcelos, “Jorge de Sena, antologista”, Público, 7 de novembro de 2019, pp. 36-7.

Manuel de Freitas, “Incipit # 1: Jorge de Sena”, in Incipit, Lisboa, Averno, 2015, pp. 11-16.

Jorge de Sena, Poesia – I, 2.ª ed., col. Círculo de Poesia, Lisboa, Moraes Editores, 1977.

Jorge de Sena, Antologia Poética, ed. Jorge Fazenda Lourenço, Porto, Asa, 2001.

Jorge de Sena, Versos e Alguma Prosa de Jorge de Sena, prefácio e selecção de textos de Eugénio Lisboa, Arcádia & Moraes Editores, 1979.

Teresa Carvalho, “Uma casa para habitar Jorge de Sena – 40 anos depois da morte do autor”, jornal i, 4-6-2018, disponível em https://ionline.sapo.pt/artigo/614632/uma-casa-para-habitar-jorge-de-sena-40-anos-depois-da-morte-do-autor-?seccao=Mais.

Sousa Dias, O Riso de Mozart – música pintura cinema literatura, Lisboa, Documenta, Sistema Solar, 2016.

 

Imagens: fotograma de Joker (Todd Phillips, 2019); “Jorge de Sena / A Verdade dos Dedos (113)” (1949), fotografia de Fernando Lemos.

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Categorias: Crónica, Cultura

Acerca do(a) Autor(a) do artigo

Diogo Martins

Diogo Martins nasceu em 1986 e é natural de Nine, do concelho de Vila Nova de Famalicão. Doutorado em Teoria da Literatura pela Universidade do Minho, iniciou em 2017 um projeto de pós-doutoramento intitulado "Ousar corromper: (o)caso retratístico em Rui Nunes". Interessa-se por poesia, literatura, cinema e fotografia, e mais ainda pelas relações entre estas e outras artes.

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