Rafael Lara

História | Muralhas e Paços Senhoriais de Barcelos

História | Muralhas e Paços Senhoriais de Barcelos

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Todos os dias são bons para visitar Barcelos, mas é ainda melhor se for quinta-feira, quando se realiza sua tradicional feira, que remonta a nada menos que o século XIII. Barcelos é considerada um dos maiores centros de artesanato do país, com ênfase na cerâmica, cestaria e latão. Mas também destacamos linhos, porcelana, bordados, enfeites, cobertores, retalhos, tapetes, entalhes, arranjos florais, trabalhos em cobre e o fabrico artesanal de remos para barcos e carros de boi.

A origem do nome da cidade é incerta. Afirma-se que significa “terra fluvial e plana”, mas também que provém de Barcellus ou barquinha. Além dos vestígios pré-históricos, Barcelos começa a ganhar relevo em meados do século XII, quando D. Afonso Henriques lhe concede uma carta, mais tarde confirmada por Afonso II. O seu dinamismo e crescimento populacional convence D. Dinis a conceder-lhe o estatuto de cidade, em 1298, e transformá-lo no primeiro município português.

Desde o 1º Conde de Barcelos, D. João Afonso de Meneses, o título é mantido nesta família até ao sexto conde, também D. João Afonso. Este morreu na batalha de Aljubarrota, em 1385. Mais tarde, o título foi transferido para o 1º Duque de Bragança, que mudaria sua sede de Chaves para Barcelos, tornando-se a cidade um grande município com vasto poder político e económico.

 

O século XV foi um período esplêndido para a cidade. Alguns de seus monumentos mais significativos foram construídos por essa época, como o Paço dos Pinheiros ou o dos Duques de Bragança, além do fortalecimento dos muros e da construção da Igreja Matriz.

Desde então, Barcelos, localizado na estrada para Santiago, tem sido um importante ponto comercial do norte de Portugal.

As Muralhas de Barcelos

Barcelos não tinha castelo. A construção dos seus muros foi realizada pelo oitavo conde de Barcelos e pelo primeiro duque de Bragança na primeira parte do século XV. Essa cerca seria, em geral, a mesma traçada por Duarte de Armas (” Livro das Fortalezas “, 1509). Decorado com ameias, o muro era reforçado por quatro torres, nas quais as principais portas da cidade foram abertas:

Torre e Portão da Ponte – Defendia o acesso à cidade pela ponte sobre o rio Cávado, ligada ao Paço dos Duques;

Torre e Porta do Vale – Situava-se no lado noroeste da cerca, facilitando a vigia do setor;

Torre e Portão de Homenagem (também conhecida como Torre de BarcelosTorre de Cimo da Vila ou Torre do Novo Portão, hoje a única que resta da estrutura original) – Era a de maiores dimensões e foi levantada em direção ao Norte, na estrada para Ponte de Lima e Viana do Castelo. No século XV, foi usada como residência do alcaide, sendo conhecida como “o castelo” até ao século XVII. Desde essas datas até 1932, foi usada como prisão.

A Torre de Barcelos tem uma planta quadrangular, com paredes formadas por enormes pedras de granito que, no lado norte, têm dois metros de espessura. Foi classificado como Monumento Nacional, em 1926, e hoje abriga o Centro de Artesanato e a Delegação de Turismo.

A leste da ponte, encontra-se uma torre de menores dimensões que defendia o Postigo do Pessegal, uma passagem estreita que comunicava com a Fonte da Vila situada na margem do rio, estrada cuja defesa foi reforçada por um pequeno barbacã.

Durante os séculos XVIII e XIX, as torres foram demolidas e as muralhas demolidas com a desculpa de expansão urbana.

A Ponte sobre o rio Cávado

Uma ponte que liga Barcelos a Barcelinhos é um dos monumentos mais emblemáticos da cidade. Na época, era uma das mais importantes da Baixa Idade Média, superada apenas pelas de Ponte de Lima e Ponte da Barca.

A sua construção ocorreu no século XIV, entre 1325 e 1328, durante o governo de D. Pedro, filho bastardo de D. Dinis e conde de Barcelos de 1314 a 1354, e que se encontra enterrado num túmulo monumental no Mosteiro de San João de Tarouca.

Ao contrário do que era usual em fins da Idade Média, em que as pontes costumam ser de cavalete duplo, em Barcelos foi adotado o perfil horizontal, uma opção totalmente justificada pela amplitude da secção a ser protegida. No entanto, os dois arcos médios são um pouco mais altos que os quatro restantes, o que sugere um pequeno cavalete.

A conexão – física e simbólica – entre o Paço dos Duques construído no século XV e a ponte fazia-se através de uma torre de dois andares que controlava a passagem. No piso inferior, era aberta por três amplas arcadas. Dessa estrutura, existem apenas as fundações onde a parede assentava, mas ainda foi desenhada por A. Augusto Pereira, numa pintura de 1856.

Da margem sul da ponte, do lado de Barcelinhos, tem-se uma vista esplêndida sobre o Paço dos Duques, a sua fortificação e a Igreja Matriz. Vale a pena desviar um pouco a visita ao centro histórico para contemplar essa vista sobre as águas do Cávado.

O edifício Solar dos Pinheiros

Trata-se de um edifício com reminiscências defensivas, que constitui um exemplo importante da arquitetura civil da nobreza enriquecida pelas descobertas portuguesas e pelo comércio exterior.

Construído por Pedro Esteves em meados do século XV, o edifício que podemos ver hoje é o resultado de quatro grandes reformas executadas entre os séculos XV e XVII.

Do núcleo primitivo do edifício, subsistem os portais do piso térreo, já que a fisionomia atual do edifício, um corpo central de planimetria retangular emoldurada por duas torres, é o resultado da primeira grande campanha de reforma enviada nos últimos anos do século XV por Álvaro Pinheiro, filho do fundador da casa. Esta campanha de obras produziu um modelo de arquitetura imponente que, apesar de não ter ameias, foi inspirado no palácio construído em Ponte de Lima por D. Leonel de Lima, e que foi utilizado na imponente arquitetura civil desde o final da Idade Média até ao período barroco.

O Solar dos Pinheiros foi declarado Monumento Nacional em 1910.

O Paço dos Condes de Barcelos ou dos Duques de Bragança

Este belo Paço fortificado foi construído na primeira metade do século XV por D. Afonso, oitavo conde de Barcelos e primeiro duque de Bragança, na época das muralhas da cidade, com as quais foi complementado.

Resta já muito pouco dele, algumas paredes e uma chaminé tubular das quatro que possuía. A torre que a ligava à ponte sobre o Cávado também desapareceu.

Apesar desse estado em ruínas, é um bom testemunho das nobres construções do final da Idade Média, quando uma parte significativa dos castelos recebeu alas residenciais para os seus guardas ou proprietários.

Embora num desenho de 1870 ainda seja retratado com uma aparência compacta, com as suas quatro grandes chaminés e a torre com os seus arcos controlando a ponte, na realidade, o declínio havia já começado no século XVII. Em 1609, estava em péssimo estado e, um século depois, os cânones do Colegiado solicitaram autorização do rei para usar a sua pedra na reforma da Igreja Matriz. Mas, depois dos danos causados ​​pelo terramoto de 1755, o declínio foi imparável. Em 1800, a torre que defendia a ponte desmoronou e, a partir de 1808, o município começou a desmontá-la, não apenas para aplicar a pedra noutros edifícios, mas também devido ao perigo de queda.

Foi declarado Monumento Nacional em 1910. Em 1920, começou a ser usado como Museu Arqueológico de Barcelos: um museu ao ar livre pontilhado de túmulos medievais, colunas romanas, uma cruz de pedra do século XIV, restos de elementos arquitetónicos e, claro, o “Cruzeiro d’ O Senhor do Galo”.

A lenda do Galo de Barcelos

Outra característica interessante de Barcelos é a riqueza de suas lendas e tradições, incluindo particularmente a famosa Lenda do Galo de Barcelos, mas também a que se refere ao Alcaide de Faria ou a lenda do frade.

Tornando-se um símbolo de Portugal, o galo de Barcelos foi criado pelo artesão Domingos Côto, inspirando-se na lenda do galo de Barcelos. Numa das versões desse relato, um peregrino galego que se dirigia a Compostela foi acusado, ao passar por Barcelos, de um crime que não havia cometido e foi condenado à forca.

Num apelo final, o peregrino solicitou uma reunião com o juiz que proferiu a sentença. Este recebeu-o quando estava prestes a comer um galo assado. Nessa altura, o réu jurou que, como prova da sua inocência, o galo levantar-se-ia do prato e cantaria: “É tão certo eu estar inocente, como certo é esse galo cantar quando me enforcarem“. O magistrado não acreditou nele, mas quando o prisioneiro estava prestes a ser enforcado, o galo levantou-se e cantou.

Tendo percebido o seu erro, o juiz correu para a forca e descobriu que o peregrino havia sido salvo graças a um nó mal feito na corda com a qual ele seria morto.

Esta história foi difundida por toda a Europa, embora tenha deixado a sua maior marca em solo português, onde se tornou um dos principais símbolos nacionais de Portugal e do turismo português, podendo ser encontrado em qualquer recanto do país.

 

Obs: Este artigo foi originalmente publicado em Torres, castillos y fortalezas, tendo sofrido ligeiras adequações na presente edição.

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Categorias: Cultura

Acerca do(a) Autor(a) do artigo

Rafael Lara

Trabalhador da Telefonica (aposentado). Acredita nas pessoas e finge modestamente lutar por seus direitos. Membro da Associação do Conselho de Diretores para os Direitos Humanos da Andaluzia desde a sua fundação em 1990. Duas paixões: a primeira - os castelos, as fortificações, as torres... em resumo os sistemas defensivos, embora seja uma pessoa de convicções profundamente pacifistas; e a segunda - ficção científica, da qual também mantenho um blog: (Mulher, feminismo, ficção científica).

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