Diogo Martins

Dar Coisas aos Nomes | O inferno somos nós

Dar Coisas aos Nomes | O inferno somos nós

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Elizabeth Moss não tem um papel fácil em Her Smell (2018) – e confesso ter demorado algum tempo até conseguir perceber o grau de exigência do seu desempenho e a tremenda injustiça com que estive prestes a vedá-la a um juízo mais aprofundado. Isto porque, ao longo de toda a primeira metade do filme de Alex Ross Perry, que assina também os créditos na produção e no argumento, a atriz principal parece expor-se diabolicamente na tela para que os espectadores a odeiem de morte.

Chama-se Becky Something, é vocalista de uma banda punk, tem uma base sólida de fãs e uma mão cheia de êxitos (mostrados a partir de um conjunto de vídeos caseiros que assinalam o percurso ascensional deste trio punk feminino). Mas o foco do filme não se detém no suposto glamour da fama, ou no prazer da música ao vivo. A atenção detém-se apenas na personalidade explosivamente tóxica de Becky. Vemo-la ofender tudo e todos – a mãe, o manager, as duas amigas com quem partilha o palco. Percebemo-la enquanto joguete devorado por drogas e álcool, manipulada por xamãs sem escrúpulos que lhe incensam a mais pequena réstia de sensatez, extorquindo-lhe dinheiro a troco de magia negra contra o ex-marido e a sua atual companheira. Atrasa-se a subir ao palco, compromete a imagem do grupo, boicota as gravações em estúdio, impossibilitando a hipótese de haver qualquer laço de empatia com a sua personagem. Como se ela existisse tão-só para quebrar qualquer pacto implícito de identificação entre nós e a protagonista. Não há espelho possível para um reflexo, não há água rasa onde possamos mirar por segundos a nossa fisionomia (para nos imaginarmos, enfim, sob a sua pele, vendo o mundo com os seus olhos, sentindo alguma compaixão por ela). Tudo o que resta são estilhaços desse espelho projetados furiosamente contra nós, cegando-nos a vista, abrindo-nos lanhos no corpo. O que há, por último, é a projeção de tudo o que odiaríamos ser se entre nós, os outros e a superfície de um espelho não existisse uma membrana, ainda que residual, ainda que precária – a mais pequena força de resistência contra uma generalizada psicose, um buraco negro vertiginoso para dentro do qual Becky nos arrasta com um riso demoníaco, olhos esborratados e um pedaço de vidro na mão.

A coisa descamba fatalmente. O argumento põe o dedo em feridas que já vimos sangrar em direto, nessa torpe exploração mediática que a pop culture acabara por incorporar no seu próprio ADN, seja para o desconstruir, seja para o homogeneizar, como um mau vício: Jimi Hendrix, Freddie Mercury, Kurt Kobain, Janis Joplin, Amy Winehouse, Whitney Houston… Portanto, já todos vimos este filme: a queda dos nossos astros de bolso, os pequenos mitos em exibição penosamente autofágica, o apocalipse à escala humana, uma vida de cada vez. E é a este nível que trabalha a câmara, nos seus movimentos bruscos e acidentados, empenhada em fazer-nos odiar tudo aquilo que nos obriga a ver de perto, demasiadamente de perto, colada aos rostos, numa imagem tão terrível de claustrofobia que quase sentimos o hálito felino de Becky na nossa cara. Além de que este sufoco é acentuado pelos próprios lugares que o filme frequenta: por detrás dos bastidores, nos desvarios e excessos que se desenrolam no camarim, na cave negra onde Becky Something explode à mercê dos seus demónios. (Após alguns segundos de pesquisa na net, percebi não estar sozinho ao ter inicialmente imaginado esta Becky como uma versão de Courtney Love, a viúva negra de Kurt Kobain, que conta também no seu curriculum com um largo historial de errâncias autodestrutivas. Aliás: ao ver o trailer, pensava estar a assistir à promessa de um biopic.)

Contudo, é preciso esperar pelo fim para saber que o fim ainda não é o fim de tudo. No último ato, um ano depois de Becky ter ditado o desfecho inglório da banda, a câmara estabiliza, desnuda-se da anterior fúria em movimento, distancia-se dos corpos. A vocalista está em casa, falida, só, preparando um chá. Na parede, um calendário; sobre a mesa, um temporizador kitsch. Como se nesses pequenos gestos mantivesse a liberdade sob apertada vigilância, a mesma liberdade que, noutros tempos, a engolia viva. O outro lado do rock é isto, apenas isto: uma casa no meio do nada, um silêncio de se cortar à faca, uma estrela punk sem brilho.

Mas, entretanto, o ex-marido faz-lhe uma visita e traz consigo a filha do casal. E é na presença desta, a seu lado, ao pé do piano, que Becky corporiza o momento mais quintessencial do filme. “Toca uma canção que te faça pensar em mim”, pede a criança. Becky obedece-lhe: “É um cover” – e a escolha, sobretudo ao nível desta designação, joga a seu favor com um toque de ambiguidade, no mínimo, genial. Não vai apenas tocar uma música de um outro artista: vai cobrir-se com ela e, nesse movimento, quanto mais se protege nas palavras de outrem, mais ela se expõe na sua máxima vulnerabilidade. Quanto mais a melodia funciona de escudo entre as palavras e o seu sentido literal, mais a versão de Becky se aproxima dessa zona de ninguém que é o desnudamento, o efeito de real que torna as lágrimas de alguém a impropriedade essencial da linguagem. É esse o outro lado, indizível, das palavras: o corpo (as lágrimas) mostra aquilo que o discurso, dizendo-se, nunca chega a dizer. O excesso de ser que há no ser, na condição liminar de se ser, num tempo que é finito, num lugar que é só aqui. Um excesso de sentido que advém do próprio sentido literal da canção – a balada Heaven, do canadiano Bryan Adams – de que Becky se apropria, numa imanência absoluta. Como se a letra tivesse sido escrita de propósito para a sua filha, e só na voz de Becky visse finalmente consagrada a sua força de vida, o seu estado de graça, o instante decisivo onde não podemos mais interpretar o que vemos e ouvimos, porque já não há mais nada para além daquilo. Senão morrer.

Assim, o que poderia descambar num momento de sentimentalismo, como um “mea culpa” dirigido, sobretudo, aos espectadores que toleraram Becky nos primeiros 40 ou 50 minutos do filme, transforma-se justamente nessa coisa grandiosa que o cinema circunscreve: o momento em que começamos a escutar uma canção de Bryan Adams como se fosse poesia. Pela voz de um ídolo punk que reconhece, por fim, que o seu amor pela filha é tanto a raiz do mal como a sua tábua de salvação. Tendo descido aos infernos, Becky olhou para a morte de frente – mas não viu a morte. Viu-se a si mesma olhando-se olhos nos olhos, escapando de si mesma por um atalho rente à mais negra das noites: “And love is all that I need / And I found it there in your heart / It isn’t too hard to see / We’re in heaven”.

O fim virá depois, mas será outra coisa, outro caminho, outra noite.

O filme foi exibido esta quinta-feira, dia 3 de outubro, na Casa das Artes, integrado na programação mensal do Cineclube de Joane.

Trailer do filme Her Smell: A Música nas Veias (de Alex Ross Perry, 2018): https://www.youtube.com/watch?v=Q5IyjcrSG0M.

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Categorias: Crónica, Cultura

Acerca do(a) Autor(a) do artigo

Diogo Martins

Diogo Martins nasceu em 1986 e é natural de Nine, do concelho de Vila Nova de Famalicão. Doutorado em Teoria da Literatura pela Universidade do Minho, iniciou em 2017 um projeto de pós-doutoramento intitulado "Ousar corromper: (o)caso retratístico em Rui Nunes". Interessa-se por poesia, literatura, cinema e fotografia, e mais ainda pelas relações entre estas e outras artes.

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