Renato Rodrigues

Viver | O fosso entre sedes de concelho e freguesias: merecemos melhor

Viver | O fosso entre sedes de concelho e freguesias: merecemos melhor

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Sempre me chocaram as intervenções em arruamentos urbanos que vamos vendo pelas cidades portuguesas. Com frequência vemos ruas e avenidas em estado bastante razoável a serem novamente intervencionadas e normalmente com recurso a materiais caros. Uma coisa que se nota nas ruas de algumas das cidades mais ricas da Europa é que os passeios e outros arranjos são normalmente simples, baratos e funcionais. Mas há um outro país dentro de Portugal: um dia, num carro com quatro pessoas da região e um quinto de uma aldeia de Ribeira de Pena, ao passar por ruas de Ceide, o amigo de Ribeira de Pena interrogou, com ironia, se as pessoas daquela terra não pagavam impostos. Nós, os do Vale do Ave, não percebemos imediatamente, mas ele referia-se ao péssimo estado das ruas. Nós, os do Vale do Ave, não percebemos logo porque para nós é normal ter ruas em péssimo estado nas freguesias. Não é um problema de Famalicão, nem de esta ou daquela gestão autárquica, o problema é termos todos interiorizado que viver fora da sede de concelho implica ser um cidadão de terceira.

O fosso de qualidade dos espaços urbanos nas freguesias e nas sedes de concelho

Quem se passear pelo centro de Famalicão, que em contraste com outras cidades em Portugal é uma pequena cidade agradável e relativamente ordenada, e a seguir se aventurar por uma qualquer freguesia do concelho, certamente julgará ter viajado para outro país. As nossas freguesias são um caos urbano, constrói-se sem qualquer harmonia ou planeamento discernivel, os passeios, quando os há, são ondulantes ao serviço das rampas de garagem ou ridiculamente estreitos, permite-se que se conduza demasiado depressa, com frequência encontram-se buracos nas bermas ou obras mal assinaladas, que podem pôr em risco a perna de alguém que não conheça o local, ou mesmo a vida de uma criança ou de um idoso e – uma novidade dos últimos 10/15 anos – também já se perde bastante tempo no trânsito, basta ver a nacional 206 nas horas de ponta. Isto, tudo somado, resulta numa paisagem urbana bastante feia e em espaços completamente hostis à circulação a pé ou de bicicleta, à independência das crianças, ao comércio local ou à existência de pontos de encontro e de lazer no espaço público, em suma, resulta numa vivência mais pobre e menos saudável. Chegamos até ao caricato de, em Joane, se ter inaugurado um centro escolar do ensino básico em que, na via principal de acesso a este, não só não havia passeios, como se criavam grandes poças de água lamacenta nas bermas por onde era suposto os peões passarem. E isto durou meses e anos. É mau demais, é terceiro mundista e nós achamos normal.

O porquê deste fosso

Em geral, temos em Portugal uma aparente aversão ao espaço público. Basta ir a Espanha e ver a forma como os nossos “vizinhos” praticamente vivem na rua e criaram centros urbanos agradáveis em conformidade. Repare-se, por exemplo, que nas duas principais cidades do país eram raras as esplanadas até à explosão do turismo. O antigo Largo da Feira, em Joane, tem condições óptimas para uma zona de esplanadas com cafés e restaurantes. Só em Portugal é que se desperdiça um espaço com um potencial daqueles. Certamente que nas outras freguesias da região há outros espaços com potencial para uma zona de lazer. Os senhores nas Câmaras Municipais têm que deixar de vir às terras apenas para cerimónias e inaugurações. Tentem passear um pouco pelo concelho e percebam como é a vida das pessoas no dia-a-dia, mas as próprias juntas e a sociedade civil parecem não ter qualquer ambição de criar espaços públicos mais agradáveis. As nossas freguesias precisam de espaços ao nível das expectativas de uma população que, apesar de tudo, tem mais tempo livre e procura actividades de lazer. Para além da aversão ao espaço público, a minha teoria sobre a origem do desordenamento da nossa região, é que quase todos tínhamos um pequeno terreno e quase todos quisemos lá fazer a nossa casa. Tendo-se permitido que cada um pudesse construir nesse pequeno terreno, sem qualquer planeamento de quais as zonas a urbanizar, ficámos com zonas urbanas altamente dispersas. É para mim lógico, que este modelo de urbanismo implica custos de infraestruturas de comunicações, água e saneamento altíssimos, dado que cada 20 metros de tubo, de cabo, ou de estrada, em vez de servirem várias famílias, servem por vezes apenas uma. Não será por acaso que aqui, no litoral Norte, foi onde as redes de água canalizada e saneamento chegaram mais tarde, muitas vezes décadas depois em comparação com pequenas aldeias de concelhos do interior. Para além disso, as ruas são estreitas demais para permitir duas faixas de rodagem e um passeio de cada lado. Como as duas faixas de rodagem são normalmente sagradas, opta-se por não ter passeio. A questão que me coloco é a seguinte: há alguém nas autarquias e nas universidades que tenha pensado no que se estava a fazer e nas consequências deste modelo? E chegados a este ponto há alguém que pense daqui para o futuro? Será que as novas gerações ainda querem plantar couves, ter galinhas e uma ramada? Ou será que este modelo se irá tornar num fardo? Como se consegue ter um sistema de transportes mais barato e sustentável em freguesias, que apesar de populosas, têm densidades bastante baixas?

Algumas ideias

Vou propôr uma ideia muito radical: desenharmos um espaço urbano nas freguesias de que todos possam usufruir. Vou insistir, as ruas das nossas freguesias são completamente hostis a qualquer forma de circulação que não seja automóvel. Não consigo sequer imaginar como é que alguém com uma cadeira de rodas pode circular num sítio como Joane. Idem para pessoas com bengalas ou com qualquer tipo de dificuldade de locomoção. É uma questão de direitos humanos, o espaço público ser minimamente acessível a todos independentemente da idade, estado de saúde e condição económica. É desumano e é estúpido desperdiçarmos o potencial das nossas freguesias porque aceitamos que somos cidadãos de terceira e nos resignamos a viver pior. As ruas, nas freguesias, são muitas vezes os caminhos antigos, apenas com uma camada de asfalto e pontuais alargamentos. Se não há espaço para duas faixas de circulação e dois passeios, então que se sacrifique um dos sentidos de circulação: numa rua sobe-se, na rua ao lado desce-se. De carro, fazer mais 100 metros não custa nada. Também é sobejamente conhecido, que a melhor forma de levar os automobilistas a circular a uma velocidade segura para os peões, é tornar as faixas de rodagem mais estreitas. Não é preciso inventar a roda, com a internet e as viagens baratas, não há motivo nenhum para continuarmos a pensar as cidades e freguesias como se estivéssemos nos anos 60. Haja coragem, haja visão. Hoje temos até grupos de idosos que fazem caminhadas ao fim do dia por motivos de saúde e lazer e têm que andar em ruas desconfortáveis e perigosas. Nós merecemos melhor.

 

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Categorias: Crónica, Sociedade

Acerca do(a) Autor(a) do artigo

Renato Rodrigues

Cidadão de Joane, de onde fugiu em 2002 para se licenciar em Engenharia do Ambiente, em Aveiro, já viveu e trabalhou em Inglaterra, Bélgica e na Alemanha, onde se encontra neste momento. Guiado, desde que se lembra, por uma curiosidade omnívora, vê o mundo pelo lado prático da Engenharia e da Ciência, mas mantendo-se sempre aberto à perspectiva das Humanidades e das Ciências Sociais.

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