Hélder Filipe Azevedo

Ocidente | A vingança dos medíocres

Ocidente | A vingança dos medíocres

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“Os limites da minha linguagem significam os limites do meu próprio mundo”.

Ludwig Wittgenstein, Tratado Lógico-filosófico, 1921

 

Na antiga mitologia grega, Zeus, depois de ter criado a humanidade, arrependeu-se. Considerou que os humanos foram criados para serem equivalentes aos deuses, mas acabaram por degenerar numa raça fraca e dependente. Zeus, ou Júpiter, passou então a ter como grande desígnio destruir, matar a humanidade, e só o não conseguiu porque Prometeu roubou o fogo aos deuses e deu-o aos homens. Sabemos que, como castigo, foi criada a primeira mulher, Pandora, que trouxe consigo uma célebre caixa que continha todos os males do mundo.

A história do mundo ocidental começa assim com o mito do ser humano condenado a viver sob uma espécie de espada de Dâmocles.

É sabido, também, que a grande filosofia académica europeia começa com um condenado à morte. Sócrates, o filósofo grego, filho de um pedreiro e de uma parteira, aceita cumprir, por obediência à lei, a sentença a que fora condenado e bebe um cálice de cicuta para acabar com a sua vida. Os seus discípulos compadeceram-se, mas houve gáudio na terra dos espíritos medíocres. No entanto, decretada e efetivada a morte, houve algo de Sócrates que sobreviveu ao tempo e à vontade. A sua vida e os seus ensinamentos estruturaram uma grande civilização.

Também o cristianismo nasceu com um condenado à morte. Jesus Cristo aceitou a sua crucificação para salvar a  humanidade. Fora condenado como Sócrates e, também aqui, a tristeza apoderou-se dos seus apóstolos e daqueles que pertenciam ao seu círculo familiar, enquanto os medíocres rejubilavam, lá na terra dos espíritos fracos, condenando
novamente um inocente à morte. Mas, claro está, houve algo de Cristo que sobrevivera e o mundo ocidental caiu numa nova civilização e continuou a evoluir.

Agora, deixem-me falar de Espinosa. Aqui, os espíritos medíocres foram mais refinados: já não basta a morte física, nem a danação da memória, é preciso ir além, ao mundo dos fundamentalistas e da vilania. Aqui condenaram um homem bom e sábio a viver uma vida numa condição equivalente à morte. Merece transcrição esse herem, numa linguagem bela e negra, que condenou o ilustre filósofo a um funesto exílio na própria terra:

Maldito seja de dia e maldito seja de noite, maldito seja em seu deitar e maldito seja em seu levantar, maldito ele em seu sair e maldito ele em seu entrar…caia nele todas as maldições contidas no livro desta lei. (…) Ninguém lhe pode falar oralmente nem por escrito, nem lhe fazer nenhum favor, nem estar com ele debaixo do mesmo teto, nem junto com ele a menos de quatro côvados, nem ler papel algum feito ou escrito por ele”.

Dando um salto cronológico, vamos ver como os espíritos medíocres chegaram à contemporaneidade.

Em Abril de 2015 vandalizaram a casa de Emmanuel Kant, escrevendo: Kant é um imbecil! Em Dezembro de 2018, a estátua, uma placa honorífica e o túmulo do filósofo, foram vandalizados em Kaliningrado, um enclave russo no continente europeu, que se chamara outrora Konigsberg, antiga capital da Prússia. Acusavam o filósofo – que tal como a sua pátria, já não existia – de ser um traidor e inimigo da sua pseudo-pátria, a Rússia, porque, e cito, era um académico que escrevera livros incompreensíveis que ninguém leu ou virá a ler. Isto foi dito por um vice-almirante russo sobre o maior filósofo europeu dos últimos mil anos.

Também em Janeiro e Fevereiro de 2019, o túmulo de Karl Marx, em Londres, fora vandalizado. Escreveram frases como: “Assassino de massas” ou “Arquiteto de genocídios”. Já em 1970 tentaram destruir o seu mausoléu com explosivos. O leitor saberá, certamente, que Marx morreu há mais de cento e trinta anos e nunca se lhe conheceu qualquer homicídio ou mesmo delitos menores.

Todos estes casos mostram-nos que os medíocres já não se contentam com a morte propriamente dita. Querem-lhe juntar uma condenação ordinária perpétua, ou seja, querem condenar à morte, tudo aquilo que os ameaça, todos os dias, a cada instante, para sempre.

Por esta altura questionar-se-á o leitor sobre o porquê de falar tanto da morte. Pois bem, falo da morte porque quero trazer algo de novo ao mundo dos vivos. Os espíritos medíocres condenaram à morte, por volta do século oitavo, o latim e o grego. Agonizantes, as duas línguas cultas que moldaram a civilização ocidental, recusaram-se a morrer. Sobram-lhes ainda um leve sopro divino que está prestes a extinguir-se. É preciso, caro leitor, ressuscitá-las. São línguas que nos deram Hesíodo, Homero, Tucídides, Aristófanes, Virgílio, Horácio, Plauto, Ovídio, Santo Agostinho, Copérnico, Erasmo, Montaigne, Descartes, e muitos outros vultos da cultura europeia. Foram estas línguas que geraram as línguas modernas, desde o português até ao romeno, passando pelo francês, espanhol, italiano e muitas outras. Foi o grego e o latim que nos moldou o espírito e nos tornou cidadãos europeus.

O finlandês não deriva nem do grego, nem do latim. Mas em 2006, quando a Finlândia assumiu a presidência rotativa da União Europeia, começou a distribuir um boletim de notícias semanal em latim (Conspectum rerum). Pretendiam que o latim se convertesse, depois do inglês, na segunda língua oficial da União. Wilfried Stroh, professor da Universidade de Heidelberg, perguntava se os finlandeses tinham enlouquecido. Concluiu que não estavam em delírio, mais não seja porque os finlandeses eram aqueles que no teste PISA tinham os melhores resultados.

A ideia do retorno das línguas clássicas, não é apenas uma causa elitista, é toda uma luta pela civilização ocidental.

 

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Categorias: Crónica, Cultura

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