Patrícia Martins

As Palavras É Só Bolinhas de Sabão | João Félix e o fim de um mundo

As Palavras É Só Bolinhas de Sabão | João Félix e o fim de um mundo

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Para quem nasceu na década de 80 há um mundo do futebol que já não conheceu. Não lhe imediatamente compreensível, por isso, a razão que leva alguém de Requião a ser adepto do Belenenses. A explicação tem de vir do meu pai e a razão chama-se Sebastião Lucas da Fonseca. Conhecido no mundo da bola como Matateu, foi o primeiro jogador vindo de Moçambique a encantar os relvados portugueses. Ainda não sonhávamos com Eusébio. E era a paixão pelos jogadores da bola, por aqueles homens que conseguiam fazer magia com os pés, que levava as pessoas ao estádio e a apaixonarem-se por um clube. Aprendia-se a jogar com bolas de trapos e em campos improvisados. E por essa razão os mágicos da bola exerciam uma atração fatal. Eram pessoas como nós, que cresceram com pouco e aprenderam com tudo. Quase que podíamos ter sido nós. Era um mundo diferente em que o futebol chegava pela emoção da rádio. Sem transmissões televisivas, era um espetáculo ao vivo para apreciarmos Eusébio, Coluna, Simões, Peyroteo e Travassos. E foi em torno destes nomes que as paixões clubísticas foram nascendo e crescendo, pois clubes e jogadores confundiam-se.

As gerações seguintes lembram outros nomes. João Vieira Pinto, Vítor Baía, Figo. As coisas já começavam a mudar mas ainda não o sabíamos. É verdade que as estrelas deste tempo tiveram experiências lá fora, algumas mais felizes do que outras. Mas enriqueceram os nossos relvados durante tempo suficiente para mantermos as referências que alimentavam a nossa paixão. E sonhávamos ser como eles. Os adeptos do Porto terão sempre uma longa lista de jogadores que fizeram os anos de ouro do clube. Foram duas décadas em que os jogadores faziam a estrutura e não a estrutura os jogadores. Vivíamos a paixão muito em função deles e respeitávamo-nos em função dessa paixão. Afinal, o coração deles só tinha uma cor. E geralmente era igual à nossa.

Hoje temos um novo mundo. Os jogadores de futebol já não são pessoas como nós. São produtos de um longo processo de formação que tem em vista “um modelo de negócio”, gerido por essa estranha entidade que são os empresários de futebol. E a relação ao clube passa a ser meramente instrumental. Como Pedro Proença disse depois de tomar conhecimento do negócio de João Félix, “fizemos um investimento claro nas nossas academias e agora estamos a colher os frutos”. Para quem viveu o futebol de outros tempos não há uma ponta de sentido nestas declarações. Crescemos a pensar no prazer da bola e na possibilidade de ver os craques do jogo ao vivo. E tornamo-nos adultos presos a uma narrativa de identificação com o nosso clube e os seus jogadores. Perceber que o objetivo agora é apenas vender os melhores jogadores que formamos para que adeptos de outros clubes possam usufruir da sua magia tem um sabor amargo. É verdade que o sofrimento não é imenso – nem sequer temos tempo para isso. Saem das nossas academias tão rápido que nem memorizamos as suas caras com as nossas camisolas. Mas fica a mágoa de já não termos referências e de não podermos ver os grandes mágicos no relvado, portugueses como nós, partilhando a nossa paixão, suando a nossa camisola. E por isso o dia da saída de João Félix simboliza um dos dias mais tristes do futebol português.

O filósofo Michael Sandel, refletindo sobre política, chama a nossa atenção para aquilo que o dinheiro não deveria poder comprar. O problema, diz-nos Sandel, é que quando o dinheiro entra em jogo afasta todos os outros valores que antes valorizávamos. Neste caso, o compromisso, o amor à camisola, a capacidade de sofrimento mútuo, ser-se de um clube desde pequenino. Não significa que a culpa é de João Félix, de Pedro Proença, do Benfica ou até dos empresários – parecem todos limitar-se a jogar as regras de um jogo que não determinaram. Mas não podemos deixar de notar o fim de um mundo do futebol. No admirável mundo novo, os valores da bola já não são o prazer e a paixão, mas o que o dinheiro pode comprar. Quem viveu outros mundos sabe o que perdeu. Os mais novos, infelizmente, terão muito pouca magia, muito pouco prazer e nenhuma paixão.

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Categorias: Sociedade

Acerca do(a) Autor(a) do artigo

Patrícia Fernandes

Nascida e para sempre ligada a Famalicão, estudou Direito no Porto e Filosofia em Braga, direcionando a sua formação para a Filosofia Política. Interessa-se pelo poder das palavras, pela dinâmica dos discursos, pela contingência que dá sentido àquilo que pensamos e pelo Benfica. Mas no meio disto tudo, gosta mesmo é de dar aulas, o que faz atualmente na Universidade da Beira Interior. Dinamiza, com outro parceiro do crime, o blog Viagem ao fundo da noite.

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