Diogo Martins

Dar Coisas aos Nomes | Desaparecer o mais discretamente possível (com quatro livros)

Dar Coisas aos Nomes | Desaparecer o mais discretamente possível (com quatro livros)

Pub

 

 

“Sempre me faltou a auréola do santo, e só com ela se pode triunfar na literatura”, confessou Robert Walser, criador de anónimos e, como estes, ele próprio um perseguidor dessa zona de sombra, repudiando “qualquer halo de heroísmo, de resignação ou algo do género”, a receita certa “para o sucesso” (Carl Seelig, Caminhadas com Robert Walser, trad. Bernardo Ferro, BCF, 2019, p. 28). E quando Seelig, de visita ao sanatório onde Walser viveria os últimos anos, propõe ao escritor suíço um passeio para verem de perto uma placa homenageando o poeta Hölderlin, a resposta de Walser corta que nem uma lâmina: “Que repugnantes são as coisas que procuram, ostensivamente, parecer piedosas! […] A celebridade de um homem não deve fazer-nos esquecer os que ficaram anónimos” (idem, p. 89).

Difícil será, assim, conceber a escrita de hoje como uma arte de desaparecer, de sair de cena. À imagem de Bartleby, o famoso escrivão de Melville: dizer que não à lógica mediática da promoção literária, de percorrer o rodízio dos festivais. Dizer que não, inclusive, à própria escrita quando se percebe que esta engata num exercício de oca veleidade, de ensimesmamento inócuo, de sobreprodução desarrazoada, nesses bacocos autodeslumbramentos que, ao invés de nos ajudarem a parar diante o mundo, a suster a respiração, a discernir uma espécie de milagre no infalível trânsito do comum, apenas arrastam o tédio para a outra margem da náusea, sem surpresa, sem virtuosismo, sem o mínimo de espanto.

Contra isto, ficam aqui quatro livros a descobrir, quatro exemplos de quem escreve para não dar nas vistas, sob risco de eclipsar o trabalho da escrita com a figura do autor. Quatro livros, portanto, no que de mais óbvio e imediato existe nessa intransitiva qualidade objetual – livros, coisa física, objeto a folhear, a ler com tempo, para lavar os olhos com esse mundo em perigo que é o da imaginação gratuita, capaz de urdir visões prodigiosas a partir do que, em aparência, são apenas grafos legíveis.

Ler, portanto, para interromper o curso das obrigações mundanas, da escravidão voluntária à produtividade do mais forte, do mais eficiente, do mais reles também. E ler, por fim, para minar em nós até às últimas consequências qualquer vontade subterrânea que nos incite à escrita, escoltada por inúmeros workshops de escrita criativa e demais indústrias do entretenimento-barra-embrutecimento (será assim tão mesquinhamente descabido imaginar que os mesmos que não pegaram num livro nos últimos seis meses possam coincidir com a percentagem dos que viram publicados os seus tijolos pela Chiado Editores, aplaudidos de pé pelos respetivos presidentes de câmara, familiares e amigos?).

E é aqui que a leitura desinteressada, sob o signo do mar e do Verão e do direito ao desleixe, se oferece vigorosamente como um ofício terrorista: ler para ler melhor. Aprendendo a peneirar os livros do demais lixo lustroso que nos há de matar mais cedo do que a subida das águas. Discernindo entre essa fome absoluta de criação verbal e o que não passa de um resquício juvenil em desejar ver anexado ao currículo, além da árvore plantada e do filho parido, um subproduto folheável da vaidade pessoal. Maturando o desencanto para não se inebriar pelo “humanismo” apriorístico da literatura enquanto destino messiânico, ou antídoto demagógico contra a barbárie e a ignorância – e, nesse sentido, aprendendo a procurar livros e autores que desafiam a própria literatura, que a desdenham, até, com o intuito de elevá-la, de fazer dela mais do que um aperitivo gourmet ou um apêndice seboso dessa já referida vaidade. (E só assim, sem interpretações demoradas, quase por instinto, se compreende o alcance deste repto de Walser: “Não será um escritor de sucesso também um assassino, à sua maneira?”)

Ler para se sair da leitura esmagado de fulgor e humildade, com algum embaraço à mistura, tirando proveito do que esses fugazes instantes de clarividência podem fazer por uma pessoa: como quem reconhece não ser capaz de tanto e, por isso, se abstém de escrever – e apenas lê. Esse tanto que significa “a árdua inventividade que é a arte a que só alguns podem dar voz” (Joaquim Manuel Magalhães, Um Pouco da Morte, 1989, p. 176) é o reconhecimento de que mais um livro no mundo não é apenas, em jeito autodesculpabilizante, algo de inofensivo. Pelo contrário: é o reconhecimento, crítico e honesto (e este par de adjetivos torna-se pleonástico neste contexto), de que um livro a mais tem contra si “o peso infindável de tudo o que foi escrito a impedir a repetição”, assim como “a resistência das palavras a dizer o que se pretende”. Portanto, conclui JMM, “[a] criação não é um acto da vontade, não é o resultado directo de um desejo. Não conseguirei ter o direito de escrever um poema como devo ter o direito de aprender, de votar, de escolher a minha forma de vida” (p. 176).

Por último, ler para reconhecer a luta a que nos obriga a beleza, com a glória de sermos por ela derrotados: “Um poema, com o seu mistério, corta ao meio o sentido do mundo suspenso de milhares de palavras comuns, e transforma-o num balão que se eleva e perde nos ares. Se, como é costume, chamarmos a isso beleza, então a beleza será uma rebelião indescritivelmente mais implacável e cruel do que qualquer revolução política!” (Robert Musil, O Homem sem Qualidades, vol. I, trad. João Barrento).

1.

É aqui que entra, pé ante pé, um livro como A Mulher do Meio, de Ivone Mendes da Silva (edição Língua Morta, 2019). Sucedendo a Dano e Virtude, lançado pela mesma editora no ano passado, o gesto (e o gosto) de escrever prossegue com as mesmas teimas, os mesmos hábitos, o mesmo vício delicioso: esta “tendência persistente de ver na luz alheia a perfeição coalhada” (p. 17). Nada de assombroso se passa nestes apontamentos diarísticos de Ivone Mendes da Silva: sabemo-la professora do secundário, nem sempre maravilhada com as diligências do ofício. Mas há, pelo menos, a certeza de que a solidão a espera ao fim das aulas, com os pequenos cadernos onde regista o fascínio pela “passagem do tempo” – “Daí este viver na pretensão ilusória de que o ouço quando dobra os dias e as noites e arrefece a lua e volta o vento” (p. 47). O tempo que, pela elegância do estilo e pela atenção rigorosa com que o mede e o destila a partir do seu rastro nas coisas, adquire espessura, elevando a trivialidade a instantes de apoteose: “Tão manso é o tempo que se estendesse a mão conseguiria tocar-lhe” (p. 75); “O dia está propício às pequenas coisas. Nelas me demoro como se fossem do tempo a face visível” (p. 121).

Aponta-se quem entra e sai do café, imprevistos da manhã, futilidades cientes de o serem, pequenos vislumbres. São detalhes anódinos como haver “[u]m cortinado que galga o parapeito de uma janela e se lança sobre a rua” que, por sua vez, se arriscam a potenciar reflexões de uma aguda sensibilidade sobre a condição humana: “Pensei que no fundo todos os homens adultos perderam a mãe e é pelo modo como sublimam essa ausência que eles se diferenciam uns dos outros” (p. 91). Somam-se-lhes a moleza de um fim de tarde, o capricho de “uma grande taça de morangos comprados com desconto” (p. 98), o prazer de nomear as coisas na ilusão consciente de ser a primeira pessoa a fazê-lo (“Porque nada existe antes de ser nomeado”, p. 119), e a importância de ter, apesar de tudo, pequenos hábitos que fixam a existência na vida: “Releio-me e penso outra vez que a diarística está condenada à repetição” (p. 81). Repetição, porém, que não recrudesce nas cócegas narcísicas de um ego em face dos seus próprios sentimentos, mas que transforma esse ego em pura superfície exterior, na qual a luz do mundo se reflete, se esbate, se (des)faz em matizes de variadíssimo fulgor. E, por isso, mais do que a vida vivida, e muito mais que a rasa vidinha, A Mulher do Meio deixa-se enlevar pela indiscernível ficção inscrita na tessitura da vida: “nunca saberei ao certo se as pessoas que vejo são reais ou se sou eu que as invento” (p. 136).

Só para terminar, fica o extraordinário poder de sedução de uma passagem como esta: “Não voltou a chover e eu fiz sopa de tomate. Não há qualquer relação entre as duas coisas. Ou talvez haja. Subtis ligações entre todas as coisas que existem desde as vegetais às minerais desde a chuva aos meus pensamentos. Mas não quero descobri-las porque gosto da persistência da dúvida. Sei – isso sim – que a alma é um gato. Inapreensível numa esquiva de veludo por entre os dedos.” (p. 71)

2.

Por momentos, apetece cruzar circunstâncias díspares como quem, na histeria face a uma incrível descoberta, vê os astros alinharem-se diante os olhos. Ainda há um par de semanas falecia o ator Rutger Hauer, o androide de Blade Runner (Ridley Scott, 1982), que legava no cinema a eternização da sua angústia diante a morte com o tanto que há na vida por fruir, falando-nos de memórias intransmissíveis que se perdem no tempo “como lágrimas na chuva”. E o famoso discurso que continua a fazer correr tinta começa com estas simples palavras: “Eu vi coisas que nenhum de vocês imagina…” O olhar num apelo desafiante, a vida a destilar-se em preciosíssimos segundos. E é o halo insondável desse tipo de visões que se desdobra no magnetismo de imagens verbais como as que Bruno Schulz nos legou:

“A noite de Julho! Com que compará-la? Como descrevê-la? Podereis compará-la com o interior de uma enorme rosa negra que nos cobre com o sono cêntuplo de mil pétalas de veludo? O vento nocturno entreabre a sua espessa penugem até ao âmago e nesse fundo perfumado o olhar das estrelas alcança-nos. / Poderei compará-la com o firmamento negro das nossas pálpebras semicerradas, cheio de poeira migratória, brancas sementes de papoila das estrelas, foguetes e meteoros? / Ou talvez compará-la com um comboio nocturno, comprido como o mundo, correndo por um túnel negro que nunca termina? Atravessar a noite de Julho é passar com dificuldade de um vagão a outro, entre passageiros sonolentos, entre corredores apertados, compartimentos abafados e correntes cruzadas de ar.” (pp. 126-7)

Sanatório sob o signo da clepsidra (Edições do Tédio, 2019) é atravessado de ponta a ponta por estes rasgos: um exercício impetuoso de imaginação. É um desses livros que trabalha a linguagem como um repositório de tesouros milenares ou achados faraónicos, como se entre o verbo e os delírios da infância não existisse esse fosso insuperável onde a vida adulta cava a sua sepultura a crédito e o tempo da realidade se traduz num cronómetro vazio, “eventos limítrofes”, segundo descreve a narrativa “Dodo”, como “aniversários, exames, noivados, promoções”. Pois Dodo pertence a essa liga de homens sem qualidades, como as personagens de Musil, Kafka, Pessoa/Soares ou Robert Walser, cujos périplos biográficos recusam a luz fosca do endeusamento social, preferindo por isso a sombra, a sensação anónima de serem vividos pela própria vida, falados pela língua, devindo figuras de uma visão caleidoscópica: “Viver à custa de metáforas é uma das particularidades da minha existência; deixo-me levar facilmente pela primeira metáfora que aparece. Assim levado, tenho de me chamar de volta, com dificuldade, recobrando lentamente os meus sentidos”, lê-se em “Solidão” (p. 233).

Este livro de Bruno Schulz é extraordinário por diversos motivos. O primeiro é esse convite explícito a fazermos da leitura um gesto inseparável da imaginação, no que há nela de rocambolesco, de absurdo, de extraordinário, fruindo da liberdade máxima dos sentidos. Nunca a realidade, na sua elementar evidência, nos pareceu tão simplória diante esses outros mundos secretos que se urdem no interior dum virtuoso como Schulz; e nunca o estribilho sobre a-liberdade-não-conhecer-limites conheceu um autor que estivesse justamente à altura de elevar essa liberdade à vertigem de si mesma, mostrando que o (im)possível é somente um ofício de insinuação, nimbado por fantasias mitológicas, por simbologias ocultas nas proximidades mais óbvias – o pai Jakub, a mãe, as figuras de cera, as deambulações pela rua –, grávidas de fascinantes alucinações que marcam decisivamente o tempo da infância e, depois, delegam à restante vida a missão de compreender a intensidade do segredo (a “genealogia mítica” da biografia pessoal, segundo Schulz): “Estou sentado e escuto o silêncio. […] Devo revelar que o quarto está emparedado? Como assim? Emparedado? Como poderia então sair? Pois é isto: a boa vontade não conhece obstáculos, o desejo supera tudo. Tenho apenas de imaginar a porta, uma porta velha e boa como a da cozinha da minha infância, com maçaneta de ferro e tranca. Não há quarto tão emparedado que não se abra com uma porta de confiança como essa, basta haver força suficiente para insinuar-lhe a existência dela.” (p. 234)

O segundo motivo prende-se com o modo como Schulz se deleita com as palavras à imagem de quem afunda as mãos num baú milenar atulhado de moedas de ouro e cristais preciosos, deixando-os desfilar magnanimamente por entre os dedos. A escrita equivale, por isso, a uma verdadeira festa, na qual o ritmo delirado da frase e a demência engenhosa das imagens contribuem para essa marca do “estilo” que, segundo Deleuze, distingue os verdadeiros escritores dos prosadores de domingo. A título de exemplo (e o mais difícil é escolher um entre mil), veja-se a exuberância deste excerto (porque é de ver que aqui se trata: a frase-imagem, o real em bruto marchetado verbalmente): “Os meus olhos absorviam insaciáveis a aveludada e suculenta negrura das partes mais escuras, a gama dos grisalhos apagados das cinzas de pelúcia que transcorriam em arpejos de tons abafados, quebrados pelo abafador do teclado – o nocturno da paisagem. O ar abundante e plissado drapejava em torno do meu rosto como um lençol sedoso e tinha o sabor da doçura insípida da água da chuva” (p. 171).

A terceira razão do quão incrível este livro é tem que ver diretamente com Bruno Schulz (1893-1942). Não é condescendência admitir que o seu nome não é sobejamente conhecido por comparação com os de Kafka ou Jorge Luis Borges, mas a obra deste escritor e pintor polaco de origem judia é um assombroso atestado da imaginação na literatura europeia, empurrando-nos para esta agoniada interrogação: como é ainda possível falar-se tão pouco da força irradiante deste cometa no corpo de um homem tão tímido, a ponto de quase pedir licença para existir?

Sem tirar grandes dividendos das provações literárias, levou uma vida como professor demasiado discreta para deixar mossas minimamente percetíveis, pois Schulz era “delicado e silencioso, como se pesasse na vida muito ao de leve” (por Zofia Nalwowska, a primeira a editar As Lojas de Canela, que se diz ter ficado siderada com a leitura das trinta primeiras páginas do manuscrito). Só mesmo a corrente de vida imaginária o salvava da condenação paralisante da vida prática, ainda para mais esvaziada de todo e qualquer sentido pelo terror nazi que, entretanto, grassava pela Europa. E embora protegido por Felix Landau, um oficial da Gestapo (explorando os talentos plásticos de Schulz para colorir murais de propaganda hitleriana), foi com a aziaga estrela de David selada na roupa que o autor de Sanatório sob o Signo de Clepsidra acabou assassinado na Rua Stolarska, no gueto de Drohobycz, a 19 de novembro de 1942, com um naco de pão escondido no bolso e uma bala na nuca. Viu-se, assim, embrenhado em fatídicas encruzilhadas do destino que só o Mal nazi, com a sua perversa racionalidade, consegue explanar: “Mataste o meu judeu? Então vou matar o teu!” E assim foi: morto a frio por Karl Günther, outro oficial das S.S., que rivalizava com aquele que ia excluindo Schulz das deportações em massa e das câmaras de gás. Morto aquele que S. I. Witkiewicz disse ser “um demonólogo” e, nas palavras finais de Patrícia Guerreiro Nunes a esta edição, “um artista dionisíaco, sempre pronto a baixar ao Hades para resgatar a vida às sombras e revelar a face oculta das coisas” (p. 252).

(Para uma leitura mais detalhada sobre a vida de Schulz e o efeito de contágio suscitado pela sua obra, fica aqui a sugestão deste artigo de David Grossman, “The Age of Genius”, na revista The New Yorker. Acrescente-se ainda o prefácio de Aníbal Fernandes à edição de As Lojas de Canela, pela Sistema Solar, 2012.)

3.

 O próximo livro é uma incursão pela poesia portuguesa: À Beira do Mar de Junho, de João Miguel Fernandes Jorge, reeditado pela Relógio D’Água em abril deste ano (a primeira edição data de 1982). Trata-se de um belíssimo conjunto de poemas, entre a concisão do verso e o despojamento das imagens, que se organiza em torno da ausência, do passado e da memória, sem nunca escorregar pelos ais e uis do sentimentalismo e da melancolia por tudo quanto a vida torna irrecuperável. Ausência, passado e memória, aqui, inscrevem-se nos pequenos objetos quotidianos, tomam-lhes o gosto, e aplicam-se furiosamente a dizer o desejo a partir dos seus lastros, sombras e transfigurações: “Um dia resta uma paisagem // sobre as duas a asa da ave // sobre as ondas o remo do barco // a viagem do sol / a água azul sonora” (p. 64). É reconhecido o impoder da linguagem, o seu irredimível gaguejar quando se tenta extrair do mundo real um esboço descritivo, uma tentativa racional de obrigá-lo a prostrar-se diante o nosso discurso. Mas outra coisa é elevar essa falência do verbal a um exercício às avessas da elegia, no qual a desolação, a mágoa e a perda dificilmente se demarcam da alegria de recordar o vivido, o prazer sexual, as artimanhas subtis do desejo – a poesia, enfim, como forma salutar de um convite à vida: “Bem-vindo aos mares do sul. / Sejam claros os dias / pelos caminhos que trazes” (p. 67).

De resto, aqueles que associam a poesia de Fernandes Jorge às relações com outras artes (pintura, fotografia, escultura, cerâmica, galerias inteiras, num uso muito livre da écfrase) encontram em À Beira do Mar de Junho um objeto menos ambicioso a esse nível, mas não menos impuro, essa impureza essencial que põe a língua em delírio, estranhando-se a si mesma, capaz destes arroubos de delicadeza e simplicidade: “Envia a tua sombra”. Pois que mais haverá a pedir à imagem de alguém que se amou num verão passado, a esse passado que a memória enrola fatalmente nas malhas da ficção, tornando indiscernível o vivido e o imaginado? Que mais, a não ser a sombra, a fulgurante promessa aninhada nesse “tu” silencioso, subentendido, como destinatário impossível de todas as cartas por remeter. “Envia a tua sombra”: eis o poema da página 44 citado na íntegra e um dos mais bem conseguidos exemplos do que é deixar o desejo amoroso escrito por extenso.

4.

Ainda na poesia, no que esta possa ter de mais vadio, de mais marginal, paredes-meias com a prosa, o anedótico, a blague, de quem escreve sem se levar muito a sério, mas sem que tal esmoreça numa tarefa frívola, eis um volume do tamanho da vida: O sangue a ranger nas curvas apertadas do coração, de Rui Caeiro (Maldoror, 2019), falecido no início deste ano. Reúne-se aqui o conjunto da sua obra, a maioria textos de restrita tiragem, plaquetes e edições de autor (custa-lhe, amiúde, chamar “livros” ao que escreve, preferindo, com menor solenidade, designá-los como “suspiros, desabafos, bocejos, ais…”).

Muito se brinca por aqui: brinca-se com a vida e a morte, os gatos, o sexo, poetas mais novos, poetas sem talento, os suicidas, os bêbados, os becos de Lisboa, os lugares comuns, a condição de editor na &etc, “venerável buraco da Rua da Emenda onde se fala de muita coisa: livros, traduções, poesia, tudo menos dinheiro” (Mis Amigos, p. 304). Brinca-se com o cancro, também, e com “uma modesta vontade de chorar” como “companhia danada”, uma vez que se trata de “qualquer coisa de bom na minha vida / talvez a própria razão de ser do meu parco equilíbrio / o esteio da minha relação possível com o mundo” (p. 325). E brinca-se, sobretudo, com “o magno problema da existência de Deus”: Deus, o sacana. Deus, o grande vazio cheio de nada. Ou a própria poesia, enquanto miasma inevitável dessa ficção onde todas as angústias buscam consolo: “Não conheço muitas provas da bondade divina. Mas não posso esquecer que até aos maus poetas Deus concede, aqui e ali, a graça de um bom verso. Prodigalidade? Mera distracção? Pura bondade” (p. 23).

Brinca-se com o que há de inerentemente infantil na própria linguagem. Há uma coloquialidade jubilosa nestes apontamentos de Rui Caeiro, um modo de criar uma imediata cumplicidade com o leitor, piscando-lhe o olho a esse fundo comum de canalhice, doçura e absurdez pelo qual nos vamos ainda reconhecendo como filhos do mesmo tempo sujo, esse fundo comum que nos faz “[…] rir, com vontade. Se houver vontade. / E dentes, os que restarem” (Chama-lhe o que quiseres, p. 518). E é manifesta a truculência com que se discorre filosoficamente sobre mamas – “há mamas de que pura e simplesmente se não sai ileso, ou se não sai inteiro. Ponto final” (p. 529) –, numa proporção ironicamente às avessas do apreço que (não) se tem pelas vaidades e vanidades literárias: “Sim, os poetas da cidade são uns tontos, / têm ingenuidades e vícios, chegam a / Vila Velha de Ródão e perguntam: onde estão / os monumentos e as estátuas? Não há, / meus lindos, aqui é mesmo só o que / a terra deu […]” (p. 767). Assim, como quem põe a língua de fora, num jeito traquina de quem andou tempo suficiente pelos corredores da prezada instituição literária para aprender a desprezá-la condignamente, a brincadeira faz-se subterfúgio, modo de virar costas, arma de arremesso, como nestes remoques de “Sala de Chuto”, no contexto de um internamento hospitalar: “Querias um humanismo para o nosso tempo, não era? Well, you came to the right place. / Um humanismo para o nosso tempo. Quem não queria? / O humanismo da burocracite, do caga e tosse, do faz de conta. O da indiferença e o da impiedade. Sobretudo este. / Here you are. Vieste ao sítio certo.” (p. 597)

E o sítio certo, por outro lado, é o mais das vezes o lugar da intimidade, do prazer a dois, de quando o diálogo no texto se cola ofegantemente a um corpo físico, às suas virtudes e vícios, ao prazer demorado pelos seus poros, púbis e demais deleites anatómicos. No fundo, é nada mais do que o gesto de mandar a metafísica às favas e, em passos distraídos e desinteressados, despindo o fato cínico das sobrevivências diárias, tirar o máximo proveito do acidente de ter nascido: “Encaro o tempo difícil de passar, fantasio / sobre o que ele dá, sobre o que ele tira / e não dá mais ou volta ainda a trazer / Olho ansioso o tempo, sinto-o como um obstáculo / na via, passagem de nível estupidamente fechada / Soa a campainha da porta, o que trazes de mais / nu, as pernas, é o que vejo em primeiro lugar / musculadas, decididas. Vamos dar início / à simples idade, música suave, simplicidade / fazer no tempo um buraco, esconder-nos dentro” (O quarto azul e outros poemas, p. 426).

*

Last but not least: “Não se deve querer desvendar todos os segredos. Pensei assim a vida toda. Que belo que é haver na nossa existência tantas coisas alheias e insólitas, como que escondidas por detrás de um muro coberto de trepadeiras! Isso confere-lhe um encanto indizível, que se perde cada vez mais. Hoje em dia, tudo é cobiçado e possuído com brutalidade.” (in Caminhadas com Robert Walser, de Carl Seelig, BCF, 2019, p. 54)

Fotografias: Diogo Martins

Fotograma: filme Blade Runner (1982), de Ridley Scott

**

*

Se chegou até aqui é porque provavelmente aprecia o trabalho que estamos a desenvolver.

Vila Nova é gratuita para os leitores e sempre será.

No entanto, a Vila Nova tem custos associados à manutenção e desenvolvimento na rede.

Se considera válido o trabalho realizado, não deixe de efetuar o seu simbólico contributo sob a forma de transferência bancária.

MB Way: 919983484

Netbanking ou Multibanco:

NiB: 0065 0922 00017890002 91
IBAN: PT 50 0065 0922 00017890002 91
BIC/SWIFT: BESZ PT PL

*

Pub

Categorias: Crónica, Cultura, Destaque

Acerca do(a) Autor(a) do artigo

Diogo Martins

Diogo Martins nasceu em 1986 e é natural de Nine, do concelho de Vila Nova de Famalicão. Doutorado em Teoria da Literatura pela Universidade do Minho, iniciou em 2017 um projeto de pós-doutoramento intitulado "Ousar corromper: (o)caso retratístico em Rui Nunes". Interessa-se por poesia, literatura, cinema e fotografia, e mais ainda pelas relações entre estas e outras artes.

Escreva um comentário

Apenas utilizadores registados podem comentar.