Daniel Faria

Espiritualidade | Os Mistérios do Caminho de Santiago

Espiritualidade | Os Mistérios do Caminho de Santiago

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No calendário litúrgico cristão, o dia 25 de julho é dedicado a Tiago, filho de Zebebeu, um dos principais discípulos de Jesus, que foi martirizado na década de 40 do século I, em Jerusalém.

No século IX, surgiu na Galiza uma estória surpreendente, na sequência das visões de um eremita chamado Pelágio ou Paio (as fontes não são consensuais), que viu umas luzes estranhas num bosque.

O eremita comunicou o facto a Teodomiro, bispo de Iria Flávia. O bispo e a sua comitiva descobriram na mata um monumento, no qual havia um túmulo e um altar, tendo concluído que que se tratava do sepulcro de Tiago.

O achado prodigioso foi comunicado ao rei das Astúrias e da Galiza, Afonso II, o Casto, que ordenou a construção de uma igreja no local.

Estava dado o impulso que faria de Compostela um dos maiores centros de peregrinação de todos os tempos.

Atualmente, os Caminhos de Santiago são uma das principais rotas de peregrinação a nível mundial, mobilizando anualmente centenas de milhares de pessoas de diversas identidades espirituais na sua busca de conexão com a Realidade Divina.

Contudo, existe uma outra tradição, bem documentada, segundo a qual foi sepultado em Iria Flávia o líder de um movimento carismático e espiritual com forte implantação na Ibéria romana, que tinha sido executado pela sua fé. A população da Galécia fez deste local um centro de devoção e de peregrinação e a força do movimento persistiu, pelo menos, até ao século VIII. O nome deste líder espiritual era Prisciliano.

Prisciliano foi uma das personalidades mais significativas da história espiritual da Península Ibérica, Viveu na época denominada pela Antiguidade Tardia, assim designada por historiadores e outros eruditos para descrever o intervalo entre a Antiguidade clássica greco-romana e a Idade Média, na Europa e no mundo mediterrânico, geralmente entre o declínio do Império Romano cerca do ano 300 e o fim do Imperio Romano do Ocidente em 476, que marcou a consolidação dos reinos germânicos na Europa ocidental e a afirmação do Império Romano do Oriente, também designado como Império Bizantino.

De acordo com determinadas fontes históricas, Prisciliano nasceu na povoação de Iria Flávia, que se encontra hoje ligada à vila de Padrón, numa Galiza que, na altura, pertencia à província romana da Galécia, cuja capital era Bracara Augusta (atual Braga). Para além da atual Galiza, o território da Galécia romana incorporava o Norte de Portugal e partes de Leão e Astúrias.

Prisciliano liderou uma corrente do cristianismo, com características reformadoras, ascéticas e inclusivamente gnósticas, tendo sido o primeiro heterodoxo a ser condenado à morte pela hierarquia eclesiástica, em articulação com o poder político então vigente.

Autores diversos como Agostinho da Silva, Jaime de Cortesão, Miguel de Unamuno, Sanchéz Albornoz e Teixeira de Pascoaes atribuem ao priscilianismo uma relevância fundamental na espiritualidade característica dos povos ibéricos.

Ele considerava-se como um asceta que renunciara às tentações mundanas e como tal, buscava a proximidade com o Divino através de uma ascese rigorosa. A principal atividade utlizada nesta ascese era a leitura e a interpretação das Escrituras, incluindo os documentos apócrifos, que ele considerava válidos, com o fundamento de que eram igualmente resultado de uma revelação divina. Na sua perspetiva, o cânone do Novo Testamento tinha sido uma decisão humana.

Defendia que a alma se encontrava aprisionada num cárcere material, o corpo, e que era imperiosa promover a sua libertação, de modo que pudesse regressar ao plano divino.

Enfatizando a unidade de Deus, mostrava reservas em relação à doutrina da Trindade, tal como tinha sido proclamada pelo Concílio de Niceia, em 325.

Prisciliano contestava o modelo hierarquizado de Igreja já vigente na sua época, que tinha o apoio ativo do poder político imperial, que pretendia deste modo instrumentalizar o cristianismo. Com efeito, defendia um modelo de Igreja próximo daquele que tinha promovido pelos primeiros discípulos de Jesus, baseado na prática da ascese e na leitura e interpretação dos textos sagrados, tanto dos canónicos como dos apócrifos. Defendia a igualdade entre homens e mulheres. Questionava a exclusividade dos bispos e dos demais ministros ordenados na transmissão dos ensinamentos espirituais, considerando que Deus pode escolher crentes, fossem ordenados ou não, e conferir-lhes a capacidade de pregarem e interpretarem as Escrituras. Neste sentido, o Espírito de Deus pode conceder a qualquer crente a luz que o permite compreender a mensagem das Escrituras. Na interpretação das Escrituras, Prisciliano enfatizava a dimensão simbólica em detrimento da dimensão literal.

Proclamando uma doutrina que visava o conhecimento do Divino através do autoconhecimento de cada um, as propostas de Prisciliano defendiam igualmente a pobreza voluntária, a abstinência do álcool e da carne, o exercício da esmola, a abolição da escravatura e a igualdade entre homens e mulheres. Recomendando o celibato, Prisciliano não proibia, no entanto, o casamento de clérigos e monges, reconhecendo que a sexualidade consciente também era um valor que podia ser sacralizado. É nessa linha de pensamento que Prisciliano, escandalizando os seus contemporâneos, abre as portas dos templos às mulheres, como participantes integrais e ativas na liturgia e ousa afirmar que as almas humanas são, em essência, da mesma substância que Deus e podem transmigrar-se.

As reuniões das comunidades influenciadas pela mensagem de Prisciliano eram abertas à participação das pessoas que o desejassem, independentemente do sexo ou da condição social.

Essas reuniões eram frequentemente noturnas, tendo lugar nas montanhas, recordando os cultos estelares e de natureza, de origem celta. Nessas reuniões, a dança desempenhava um papel ritual importante.

Para além da Península Ibérica, a sua pregação teve um forte impacto no sul da atual França, lançando o germe de futuros movimentos heterodoxos, nomeadamente o catarismo.

As ideias de Prisciliano tiveram fortes influências em todos os estratos da sociedade, desde escravos à aristocracia, o que contribuiu para desencadear a reação dos setores mais conservadores da ortodoxia, que não hesitarem em aliar-se ao poder político, para promover a sua condenação à morte, um procedente de mau agoiro que iria marcar toda a história do cristianismo e estabelecia os fundamentos daquilo que, séculos mais tarde, iria ser a Inquisição.

Como homem livre e cristão, Prisciliano valorizava acima de tudo o autoconhecimento como via privilegiada do encontro da pessoa humana com o Divino, apelando à experiência individual, que não podia ser substituída por nenhuma escritura, por mais sagrada que fosse, pois continuava a ser “letra” e o objetivo era a “consciência”; ou seja, seria essencial distinguir entre a letra que mata e o espírito que vivifica e renova.

Prisciliano foi o auto de diversas obras teológicas, mais concretamente as seguintes:

– Livro apologético (Liber Apologeticus), defesa do Sínodo de Saragoz

– Livro ao Bispo Dámaso (liber ad Damasum Episcopum), carta ao Papa;
– Sobre a fé e os apócrifos (De fide et apocryphis);

– Tratado da páscoa (Tractatus paschalis);

– Tratado do êxodo (tractatus Exodi);

– Tratado dos primeiros salmos ( Tractatus Psalmi tertil);

– Tratado para o povo I – II (Tractatus ad populum – I – II);

– Bênção ao povo (Benedictio super populum).

Prisciliano compôs igualmente hinos para ajudar na difusão da sua mensagem. Um dos hinos mais belos cuja autoria é-lhe atribuída é o célebre “Hino a Jesus Cristo”, que contém um apelo aos crentes para que não se fixassem nas palavras, mas que desenvolvessem a sua intuição espiritual, como caminho para promover a conexão com a Realidade Divina.

 

“Quero desamarrar e quero ser desamarrado

Quero salvar e quero ser salvo

Quero ser engendrado

Quero cantar, cantai todos

Quero chorar, batei nos vossos peitos

Quero enfeitar e quero ser enfeitado

Sou lâmpada para ti, que me vês. “

 

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Categorias: Crónica, Cultura

Acerca do(a) Autor(a) do artigo

Daniel Faria

Nasceu em 1975, em Vila Nova de Famalicão. Licenciado em Sociologia das Organizações pela Universidade do Minho e pós-graduado em Sociologia da Cultura e dos Estilos de Vida pela mesma Instituição. É diplomado pelo Curso Teológico-Pastoral da Universidade Católica Portuguesa. Em 1998 e 1999, trabalhou no Centro Regional da Segurança Social do Norte. Desde 2000, é Técnico Superior no Município de Vila Nova de Famalicão. Valoriza as ciências sociais e humanas e a espiritualidade como meios de aprofundar o (auto)conhecimento, em sintonia com a Natureza e o Universo. Dedica-se a causas de voluntariado. É autor do blogue pracadasideias.blogspot.com e da página Espiritualidade e Liberdade.

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