Carla Morais: Escutismo é resposta ativa contra a maré entorpecente que nos cerca

Dar | 25 anos de Escutismo em Nine

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Há muitos anos, sob o luar, um rapaz olhava o vermelho das chamas dançando.” É assim que começa o âmago do imaginário pelo qual serão norteadas as atividades do 25.º aniversário do Agrupamento de Escuteiros 1046 da freguesia de Nine, concelho de Famalicão. A celebração está marcada para o próximo fim de semana, dias 27 e 28 de julho, no antigo campo de futebol de Nine, e contará com a presença de centenas de escuteiros provenientes, maioritariamente, do núcleo famalicense.

 

 

A figura central deste imaginário é Gill Clay, neta do fundador do escutismo Robert Baden-Powell (1857-1941). No fundo, numa reviravolta de épocas, tempos, lugares e mentalidades, o que o Agrupamento 1046 propõe a todos os participantes passa pela seguinte imagem: procuremos imaginar uma criança, Gill, a demonstrar ao seu avô que as virtudes do escutismo continuam com vida e com sentido, contrariando o desânimo do Fundador, frustrado por todos os flagelos que assolam o mundo e pelo aparente conformismo dos seus discípulos (a crise ambiental não poderia, como é óbvio, excluir-se deste cenário, nem todos os que, cegos pelo poder, erigem muros, marginalizam ainda mais os excluídos e transformam os Direitos Humanos numa torpe figura de retórica).

Daí que Carla Morais, a Chefe do Agrupamento 1046, seja da opinião de que o escutismo, no que a este subjaz de contacto direto com as pessoas e o meio envolvente, continua a ser uma resposta ativa contra a maré entorpecente que nos cerca: “Acredito que o próprio escutismo precisa de cada vez mais escutismo”, afirma. E esclarece: “A ideia de fundo desta atividade passa por retomar o espírito do primeiro acampamento escutista, na ilha de Brownsea, em 1907. Todos nós nos queixamos do impacto das novas tecnologias nas nossas vidas, sobretudo nos mais jovens. Mas todos nós sabemos que não podemos fingir ser possível viver como se os i-phones e as redes sociais não existissem. No meio deste cenário, as raízes do escutismo – acampar a sério, sair do conforto das quatro paredes, caminhar, aprender orientação, conviver – podem proporcionar-nos experiências de vida diferentes, mais ricas, mais genuínas. No fundo, é essa a reflexão que desejamos inspirar a todos os escuteiros, a começar pelos nossos próprios jovens. Porque é neles que reside o futuro de qualquer agrupamento. E é para eles que estamos a trabalhar”.

Essa aventura pelas raízes escutistas está explícita no nome atribuído a este acampamento: Palestra de Bivaque n.º 1046: a nossa vez de DAR. No livro de Baden-Powell Escutismo para Rapazes, cada capítulo constitui uma palestra, ao longo da qual os futuros escutas são instruídos quanto a viver (e a sobreviver) em Natureza, a fazer construções, a reconhecer espécies de flora comestíveis, etc. E se, por um lado, a importância de servir a comunidade faz eco da conhecida divisa escutista – “Somos nós que fazemos anos, mas, em vez de receber, queremos dar”, conclui Carla Morais –, por outro lado, a restante parte do imaginário deste acampamento, que seguidamente apresentamos, reafirma como as várias palestras de bivaque, independentemente do choque abrupto entre o que nelas se lê e a digitalização omnipotente das nossas vidas, podem servir de ignição para uma reaprendizagem da vida, no que esta tem de mais simples e irrepetível:

 Há muitos anos, sob o luar, um rapaz olhava o vermelho das chamas dançando. Achou que era mágico e único o movimento do fogo, a sua dança imprevisível, o crepitar inesperado, fazendo tremer o silêncio da noite. Sentiu como o calor do lume lhe fazia bem ao corpo e à alma. Viu como a forma das chamas nunca se repetia. Percebeu como aquele momento diante a fogueira tinha qualquer coisa de sagrado, como um ritual muito antigo, quando os deuses eram muitos e estavam em todo o lado, nas pedras, nos rios, nas árvores. Sentiu-se livre, sentiu-se vivo. Imaginou a dança das chamas como um convite a que os humanos se juntassem à festa. Percebeu, enfim, como quem testemunha um milagre, que aquela fogueira poderia ser vivida, ensinada e partilhada como se fosse uma escola. Aquela fogueira era uma escola. Mas uma escola diferente de todas as outras. Sem paredes nem muros. Sem mesas e cadeiras. Sem repetições mecânicas, nem coisas para decorar. Toda a natureza à sua volta seria um mestre. Ter um rio como professor, as estrelas como um livro, o uivo do lobo como um guia. Imaginar seria tão importante como saber ler e contar.

Imagens: Agrupamento 1046 Nine

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Categorias: Crónica, Sociedade

Acerca do(a) Autor(a) do artigo

Diogo Martins

Diogo Martins nasceu em 1986 e é natural de Nine, do concelho de Vila Nova de Famalicão. Doutorado em Teoria da Literatura pela Universidade do Minho, iniciou em 2017 um projeto de pós-doutoramento intitulado "Ousar corromper: (o)caso retratístico em Rui Nunes". Interessa-se por poesia, literatura, cinema e fotografia, e mais ainda pelas relações entre estas e outras artes.

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