Pedro Pinheiro Augusto

Lítio | A economia circular e a mineração

Lítio | A economia circular e a mineração

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A Natureza é um sistema de economia circular, autorregulado num processo cíclico. A energia provém do Sol em abundância e todo o ”lixo” de uma espécie é alimento de outra. Tudo nasce para depois morrer e se transformar em energia para o ambiente novamente. O ciclo funciona em harmonia – ou deveria…

A Humanidade vive em economia linear, quase tudo o que é extraído da Natureza acaba transformado em lixo/poluição e é continuamente substituído por mais extração, com cada vez menos sustentabilidade e possibilidade dos ecossistemas se recuperarem. Somos o único animal a criar desperdício, criando quase tanto desperdício como produtos. Em Portugal, produzimos 5 milhões de toneladas de resíduos, das quais cerca de 60% têm como destino o aterro, por ano. No mundo, são 1.200 milhões de toneladas, anualmente. Quantidade que não pára de crescer e que acaba, em grande parte, em aterros e lixeiras, consumindo mais recursos e emitindo mais emissões pelo caminho. Todos os custos são impostos ao consumidor, incluindo os de manutenção dos aterros, que são eternos (Manutenção de infraestruturas; tratamento de águas residuais; espaço ocupado; etc.).

No âmbito da mineração, tem relevo o lixo electrónico, grande consumidor de minerais raros:

  • Em 2018, cerca de 50 milhões de toneladas de lixo eletrónico terão sido geradas em todo o mundo, com um crescimento anual de 4-5%.
  • Atualmente, apenas 15 a 20% de todo o lixo eletrónico é reciclado.
  • Ao reciclar um milhão de telemóveis, podemos recuperar mais de 9.000kg de cobre, 9kg de paládio, 250kg de prata e 23kg de ouro.
  • São produzidos quase 2 mil milhões de telemóveis por ano, no mundo;
  • Só os norte-americanos deitam fora cerca de US $ 60 milhões em prata e ouro por ano, em lixo electrónico.

Muito do e-lixo é exportado para países pobres, sem qualquer cuidado ambiental, transformando-os em enormes lixeiras a céu aberto onde os locais, para subsistir, tentam recuperar os metais preciosos com métodos rudimentares e danosos para o ambiente.

A procura e preço do lítio aumenta, propulsionada pelos carros elétricos, sendo parte cada vez maior duma grande preocupação ambiental, dado o impacto nefasto da mineração. Apesar de ser 100% reciclável, apenas 1% do lítio é reciclado, mundialmente.

Estes números assustadores evidenciam a necessidade de mudar de paradigma. A economia circular propõe uma mudança em toda a maneira de consumir, desde o design dos produtos até à nossa relação com as matérias-primas e resíduos, à semelhança do funcionamento da Natureza: Extração, fabrico, produção, embalagem, transporte, consumo, reparação e reutilização, recolha, valorização de resíduos, reciclagem. Todas estas etapas têm de ser alteradas de forma a induzir valor e sustentabilidade nas restantes. Por exemplo, os eletrodomésticos devem possibilitar a reparação ou a reutilização, com componentes acessíveis e intercambiáveis, como os recentes carregadores de telemóveis.

Hoje, estamos cientes do valor depositado em lixeiras ao longo de décadas, criando depósitos 40 a 50 vezes mais ricos do que a mineração na Natureza. É estimado que a mineração urbana possa providenciar pelo menos 40% das necessidades mundiais, via a Reciclagem de materiais. O resto, pode e deve ser colmatado via a Redução e a Reutilização.

Actualmente, os consumidores pagam para remoção e tratamento do lixo. E se fosse ao contrário? Isto pressupõe a valorização do desperdício e, para tal, o real custo das matérias primas (incluindo custos ambientais) deve ser considerado nos produtos. Se, por um lado, o preço dos produtos novos possa vir a subir (a economia de mercado é especialista em encontrar alternativas, pelo que não se pode garantir), é também verdade que o valor dos produtos em segunda mão e resíduos subirá, viabilizando a sua reutilização e a sua reciclagem. Nem todos os produtos, no entanto, são viáveis nesta nova lógica de valorização. Exemplo: Os utensílios de plástico descartável ou as embalagens temporárias. Depois de dois minutos de uso, segue-se o aterro para sempre ou um dispendioso processo de valorização. A evitar!

Quem já visitou um centro de valorização de resíduos tem perfeita noção que aquilo que deitamos fora como imprestável tem valor. Quem já visitou um aterro sanitário tem noção do impacto e dos custos que tem, tal como do potencial valor que encerra em si. Os resíduos têm futuro: Metais renascerão como novos metais, os plásticos serão transformados em novos plásticos ou em energia, o vidro voltará a ver a luz do dia, a matéria orgânica providenciará biogás e composto orgânico (solo), o óleo vegetal usado será transformado em biodiesel. Todo este novo processo removerá pressão sobre a Natureza, permitindo-lhe que se regenere.

O conceito da economia circular não é só uma alternativa à actual economia. É a única hipótese de mantermos um ecossistema que permita a continuação da espécie humana como civilização. Todos as outras tácticas de “descarbonização”, de “promoção da eficiência energética”, etc., apenas fazem sentido integradas numa economia circular. Se não, então apenas vão consumir mais recursos do planeta, induzir mais emissões de gases de estufa e provocar mais poluição, ao mesmo tempo que vão reduzir ainda mais a capacidade do ecossistema se regenerar. Por exemplo, a questão da promoção da eficiência energética nas casas, ou a troca dos carros movidos a combustíveis fósseis por outros, eléctricos com base em baterias de lítio (ou outra tecnologia qualquer). Dado a quantidade de casas e de automóveis que existem, consideremos a origem e quantidade dos recursos necessários para a sua alteração e substituição. Agora, imaginemos os efeitos que isso teria em termos ambientais. Facilmente concluímos que não é exequível qualquer redução de emissões ou de poluição sem a economia circular.

É óbvio que não é expectável que o mundo transicione simultaneamente para um novo modelo de economia. No entanto, são as economias mais fracas, dependentes de importações, com balanças comerciais desfavoráveis, as mais interessadas. A redução das importações, o crescimento do emprego, a redução da dívida pública e até o crescimento do PIB são de esperar da adopção de princípios de Redução, Reutilização e Reciclagem, precisando do empenho e políticas adequadas por parte dos Estados.

Finalmente, temos que ser coerentes. Não podemos aceitar a promessa de sol na eira e chuva no nabal, como a economia circular a par da exploração mineira na Natureza…

Imagem: (1) Lawless Capture

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Categorias: Ciência, Política, Sociedade

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