Uma “família” com artistas de múltiplas nacionalidades

Reportagem | INAC: Circo de todos e para todos

Reportagem | INAC: Circo de todos e para todos

Pub

 

 

O INAC – Instituto Nacional de Artes do Circo faz parte da rotina de muitos artistas, que vêm de todos os cantos do mundo para estudar a arte circense. Apesar da formação diária intensiva, a paixão pelo circo fala mais alto e convida também alunos com deficiência, que estão institucionalizados, a conhecer um pouco mais esta arte.

O frenesim começa cedo na escola de circo famalicense. Por entre risos, abraços e boa disposição, os alunos do Instituto Nacional de Artes do Circo vão experimentando acrobacia aérea, malabarismo, ‘cyr wheel’ e equilibrismo. O circo contemporâneo parece ser, mais do que uma escola, um refúgio, onde todos se sentem em família. Estamos perante o paraíso do circo contemporâneo em território nacional.

Para além do nariz vermelho, o INAC aposta na formação e requer a cada artista que explore o seu movimento, a sua expressão e a sua identidade.

Na hora de avaliações, há quem esteja a treinar. Naiana Padial, de 25 anos, aluna do Ano Técnico do instituto famalicense, pratica, focada, o equilíbrio no monociclo. A artista veio da zona Sul de São Paulo, Brasil, para estudar no INAC e concretizar a sua “paixão”. Formada em Letras pela Universidade de São Paulo, foi ainda no primeiro ano de faculdade que descobriu o circo e que soube que queria “ser palhaça e aprender coisas novas”. “Eu gosto de descobrir que sou capaz de fazer alguma coisa que antes era impossível fazer”, explica a aluna, para quem não existem impossíveis.

Com o apoio da família, que está no Brasil, Naiana segue uma rotina diária intensiva que lhe permite “comunicar com o mundo de forma inspiradora”. Vem a pedalar todos os dias para a escola, que abriu portas em setembro de 2016, treina muito – “o dia inteiro” – e, quando as aulas acabam, às 17h30, “ainda [fica] mais um pouco para treinar enquanto o corpo aguenta”. Depois, e por entre risos, confessa que volta para casa e cozinha bolos para “vender na escola e pagar as contas”. O seu grande sonho, admite, é “conseguir unir a técnica com a linguagem e criar um espetáculo próprio e com outros parceiros”.

Naiana Padial treina o equilíbrio no monociclo | Foto: Maria João Mesquita

Enquanto Naiana está no monociclo, no “pondus”, palavra latina que em português significa “peso”, encontra-se André Freitas. O bastão em que pratica, e que para o artista representa “o peso que levas às costas, as felicidades, as decisões, os problemas que carregas, que pesam, mas que ao mesmo tempo te suportam”, faz parte da peça que levou ao Festival Eucima, que decorreu em Madrid, em abril deste ano.

Com 23 anos, aluno do 2º ano do curso profissional do INAC, e natural de Vila Nova de Famalicão, André Freitas decidiu enveredar pela arte circense após tirar o curso de animador sociocultural na Escola Profissional Cior. O circo é o lugar onde consegue “ligar o lado mais criativo ao lado artístico”. Especializado nas cintas aéreas, vulgarmente conhecidas por “straps” (termo em inglês), o aluno já vinha com alguma técnica no trapézio fixo. Agora no INAC, refere, tem desenvolvido “outras bases técnicas de movimentos acrobáticos, trampolim e outros”.

André sempre gostou de artes e contou sempre com o apoio da família e dos amigos, que “sabem que [está] a fazer o que gosta”. Para o artista, o INAC é mais do que uma escola, “é uma grande família, um sentimento que não se explica”. Questionado sobre o futuro, os seus objetivos passam por “ingressar no mercado de trabalho” e “terminar o solo final de curso e levá-lo ao maior número de sítios possíveis”. Sabendo que o importante é “evoluir cada vez mais”, André deseja, um dia, poder “criar um projeto de circo com alunos e ex-alunos do INAC”.

André Freitas no “pondus” | Foto: Maria João Mesquita

Quem também gosta de praticar a sua arte no tempo livre, sozinho, é Mauricio Jara, professor de pinos e acrobacia. Veio da Costa Rica há um ano para dar aulas no INAC, inspirado “pela partilha da arte e da absorção de diferentes modalidades do circo”. O professor costa-riquenho afirma que existe “um balanço entre treinar e dar aulas”, acrescentando que vive numa “constante partilha com as pessoas do circo”.

A ter um feedback positivo por parte dos alunos e a aprender também “a vê-los trabalhar”, Mauricio Jara crê que “os artistas procuram, cada vez mais, estar formados em distintas áreas e não só numa específica”. Interrogado sobre como será o circo daqui a 10 anos, o professor, que acredita na “diversidade”, fala “numa arte combinada com outras artes do espetáculo”, perdoe-se o pleonasmo.

Mauricio Jara pratica a sua arte, sozinho | Foto: Maria João Mesquita

André Borges, um dos diretores do instituto, sente que “o circo está a crescer”, esperando que “uma maior quantidade de público possa vir cada mais vez assistir aos espetáculos”. Apesar de ter tirado o curso de Engenharia, é artista de circo há 18 anos e professor do INAC há três. É apaixonado “pelo mundo do espetáculo em geral”, fez algumas performances a solo e já viajou um pouco por todo o mundo, o que lhe permite lidar de uma melhor forma com a frustração. Isto, porque, segundo o próprio, “é algo que acontece a toda a gente”, principalmente no circo.

Curiosidade:

O INAC conseguiu um lugar nos órgãos sociais da Federação de Escolas do Circo da Europa, estando representado por André Borges. Tal é motivo de “satisfação” para o instituto, que vê nesta eleição “o reconhecimento do trabalho efetuado, porque estavam a concorrer escolas de circo com 20 e 30 anos de existência”. Bruno Machado, membro da direção da escola de circo famalicense, crê que este “é um ponto positivo para Portugal, porque terá uma voz na Europa”.

Para além do treino, o professor de equilíbrios e monociclo garante que, para se ter sucesso no mundo do espetáculo, é fundamental “adquirir técnicas artísticas, estudar o movimento, a interpretação, não desmotivar e aprender a lidar com a frustração”. Relativamente ao INAC, assevera que “o feedback lá fora é bom e a maior parte dos alunos que terminaram o segundo ano perguntam porque é que não há um terceiro”. Tal “demonstra que eles realmente gostavam de poder continuar os estudos cá e que teriam interesse em ficar mais um ano”, esclarece.

Professores do INAC num momento de avaliação | Foto: Maria João Mesquita

A azáfama prolonga-se pelo dia inteiro. Andar de um lado para o outro já faz parte do quotidiano de Juliana Moura. Ora está a avaliar os alunos, juntamente com os outros professores, ora está a dar aulas ou a ter reuniões. Juntamente com o seu companheiro, Bruno Machado, embarcou no sonho de “construir uma escola de circo”. Com uma turma de nove alunos já formada, o INAC tem, atualmente, 72 alunos e quatro turmas, incluindo-se nestas o Ensino Secundário. Como diretora do INAC e responsável pela coordenação pedagógica, Juliana revela que o que se pretende “é continuar a dar resposta à formação”.

———————-

Há uma energia que é disseminada entre as pessoas e as artes”

A professora de acrobacia aérea e de dança contemporânea, para quem “a arte é comunicação”, vê o INAC, que aposta na contemporaneidade, na acrobacia e na ginástica, como “uma casa” para os artistas: “acredito que há uma energia que é disseminada entre as pessoas e as artes, e acho que isso se sente”.

Juliana Moura dá uma aula de acrobacia aérea | Foto: Maria João Mesquita

Futuramente, e nas palavras da responsável, o INAC tenciona “ter uma Licenciatura em Circo”, assim como “construir um novo espaço, ainda mais estruturado para a arte circense”.

previous arrow
next arrow
Slider

Um dia no INAC | Fotos: Maria João Mesquita

Apesar de todos os projetos que o INAC tem em mãos, nomeadamente o curso profissional, as aulas particulares para aqueles que não veem o circo como atividade profissional e o projeto de inclusão social, o instituto dá apoio ao profissional que já não está em formação, mas que se encontra no mercado de trabalho. No fundo, um dos propósitos deste instituto, e segundo os principais responsáveis, é que “o virtuosismo do circo” seja “uma ferramenta de expressão e de pesquisa”.

Infografia: Maria João Mesquita

O INAC instalou-se de malas e bagagens em Famalicão em 2017, mas já existia na Maia desde 2016. Com o apoio do Município famalicense, o instituto conseguiu autorização para utilizar as instalações de Ribeirão, assim como um espaço de caravanismo para os artistas. Além disso, pode apresentar os seus projetos na Casa das Artes de Famalicão, participar no festival de novo circo Vaudeville Rendez-Vous e formar os alunos dos Cursos Profissionais das escolas do concelho.

Embora o espaço seja especialmente dirigido à formação, o INAC tem instalações para o acolhimento de artistas em residência artística, bem como uma tenda de circo com lotação para 330 pessoas, aproximadamente.

O circo visto pelos artistas

As aulas terminam às 17h30, mas há sempre tempo para treinar mais, pelo menos enquanto o corpo aguenta.

 

Imagens: Maria João Mesquita

**

*

Se chegou até aqui é porque provavelmente aprecia o trabalho que estamos a desenvolver.

Vila Nova é cidadania e serviço público.

Diário digital generalista de âmbito regional, a Vila Nova é gratuita para os leitores e sempre será.

No entanto, a Vila Nova tem custos, entre os quais se podem referir, de forma não exclusiva, a manutenção e renovação de equipamento, despesas de representação, transportes e telecomunicações, alojamento de páginas na rede, taxas específicas da atividade.

Para lá disso, a Vila Nova pretende pretende produzir e distribuir cada vez mais e melhor informação, com independência e com a diversidade de opiniões própria de uma sociedade aberta.

Se considera válido o trabalho realizado, não deixe de efetuar o seu simbólico contributo sob a forma de donativo através de mbway, netbanking ou multibanco.

MBWay: 919983484

NiB: 0065 0922 00017890002 91

IBAN: PT 50 0065 0922 00017890002 91

BIC/SWIFT: BESZ PT PL

*

Pub

Categorias: Sociedade

Acerca do(a) Autor(a) do artigo

Escreva um comentário

Apenas utilizadores registados podem comentar.