Diogo Martins

Dar Coisas aos Nomes | Um olhar liso como um vidro: a infância, o real e Sophia

Dar Coisas aos Nomes | Um olhar liso como um vidro: a infância, o real e Sophia

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Não há um poema ou trecho literário que não faça luzir, entre olhos comovidos e recordações temperadas pelo tempo, um pouco de infância. Seria até bastante válida uma imagem que fixasse, de uma vez para sempre, uma ligação mais do que sanguínea, espiritual, entre infância e poesia: cada poema novo recomeçando a infância da poesia, a infância de toda a linguagem (o seu devir-minoritário, como lhe chama Deleuze, que permite à palavra estranhar-se a si mesma, cavando na mesmidade do discurso uma brecha por onde irradia o espanto e a nossa surpresa). A poesia enquanto criação pura, enquanto festa da língua. Mas, para quem recorda, tal constitui um momento simultâneo de festa e de amargura, porque, segundo o poeta Herberto Helder, recordar a infância implica forçosamente ter que a inventar: “Sim, o adulto inventa a infância como terapêutica de ser adulto. […] Assegura-lhe a verosimilhança um fundamento bem real: numa certa perspectiva (que, não raro, é uma perspectiva certa), a criança sabe exactamente o que o adulto ignora. Por isso, os adultos aprendem com as crianças. E, quanto mais capazes se mostram de aprender, mais interessantes são essas pessoas. Uma zona delas mantém-se impermeável à lepra dos compromissos, que quase sempre acaba por tornar os homens mais pobres, e cépticos, e uniformes – menos surpreendentes” (“Aprender ou não”, in em minúsculas, 2018).

Se há uma força poderosíssima na criança, tão poderosa quanto evidente, é o poder de tornar tudo verdadeiro e real. A criança acredita no mundo da invisibilidade, entre dragões e sereias. Acredita no poder avassalador do seu toque numa árvore, num animal, num objeto inerte algures na sala. Quer dizer: a imanência das coisas – a sua natureza brutal, a sua opacidade, o seu atrito – não constitui um obstáculo que segregue, de um lado, este mundo e, do outro, aquele, virtual, imaginário, alucinado. A imanência recusa esse tipo de disjunções: precisamente porque a criança confia nela, espraia o seu corpo nela, não teme que o mundo lhe devore os pés só porque tem a cabeça a planar sobre as nuvens. Céu e terra, terra e mar, corpo e espírito, consciência e inconsciência, hoje e amanhã: não há dualismo que sobreviva a este exercício de vida que é, de uma vez só, no mesmo movimento, devir-pássaro, devir-ogre, devir-criança. Não há metáforas, sequer: existir e imaginar são uma só força indiscernível. Ser é agir como se, sem mediação linguística.

E daí a arte, da poesia à pintura: o devir e a osmose. “Para bem pintar um peixe, escrevia um pintor japonês, é preciso aprender a ser peixe” (José Gil, Caos e Ritmo, p. 62). Pintar um peixe implicará uma crença objetiva – uma fidelidade, se quisermos – no ofício de pintar, com os seus diversos materiais, e na realidade desse peixe. E atendendo a essa disposição do sujeito para se fidelizar a tal ponto com o real, a tal ponto que o corpo desposa o mundo, fazendo da pele uma zona de limiar que, ao invés de cerzir, se abre a contágios permanentes, há um nome implacável que, sem esforço, se diz a si próprio: Sophia de Mello Breyner Andresen.

Por várias razões. A primeira, mais protocolar, faz a vénia à efeméride que, ao longo deste ano, se ocupa de celebrar o centenário do nascimento de Sophia, com publicações, congressos e colóquios (sob o risco de à sua volta se gerar “um inane culto empenhado em entregá-la àquela unanimidade burra, esvaziando e neutralizando a sua obra, por meio de inúteis homenagens póstumas ou monumentos”, como avisa Diogo Vaz Pinto, no semanário Sol. E não é preciso distanciarmo-nos das palavras de Sophia para alargarmos o perímetro dessa unanimidade fatal, como um pântano que nos soterra a todos, mesmo que a vida nos domestique o suficiente para nos refinarmos sob a lama. Veja-se, por exemplo, como continua urgente o vigor com que Sophia enlaça a poesia com a aprendizagem dos mais novos, sobretudo nestes tempos de polidez atroz e estupidez funcional, imiscuídas no uso que fazemos da língua e dos livros que a desrespeitam com mais virtuosismo e esplendor. Contra a vulgaridade – esse consenso lodoso que foge da dificuldade perante um texto como o diabo foge da cruz –, insurge-se Sophia no posfácio à antologia por si organizada Primeiro Livro de Poesia, com ilustrações de Júlio Resende que, volta e meia, gosto muito de revisitar: “É possível que muitos considerem este livro difícil. Mas a cultura é feita de exigência. Por isso afastei o infantilismo, o simplismo. Uma criança é uma criança mas não é um pateta”, p. 185).

Depois, as outras razões, as que me são caras: a infância, de que os seus contos se tornam exemplares (A Menina do Mar, A Árvore, A Noite de Natal, A Fada Oriana e, claro, o livro Contos Exemplares), e a poesia, com os seus versos exatos, de uma segurança imperturbável diante um real que muitos aceitam como liquidado ou inexistente, pura alienação que se instala dentro de nós como um vírus no computador, doença da língua que, incapaz de nomear o mundo, duvida mais do mundo e menos da psicose (a começar pelos poetas, descambando nos filósofos, nos múltiplos ismos do pós-modernismo, e em nós todos enquanto inscientes cobaias do viciante medo de existir).

Mas em Sophia, dizer real, dizer verdade ou dizer poesia é estar diante a mesma coisa: uma fidelidade à vida é uma fidelidade à poesia, dois compromissos inadiáveis. “Pois foste criado e tens de ser real”, diz-nos. Seria isto possível, hoje, de ser escrito com tamanha acuidade ontológica? Não é que não haja espaço para a dúvida (Sophia jamais renegaria esse lado de sombra no ser humano sem o qual toda a forma de luz se torna submissão à cegueira e à tirania, como um olho sem pálpebra). Acontece, porém, que o real nos é dado como evidência, como promessa inicial. Duvidamos a partir dele, e não dele. Fomos criados e temos de ser reais, temos de existir continuando: “Por isso não percas nunca teu fervor mais austero / Tua exigência de ti e por entre / Espelhos deformantes e desastres e desvios / Nem um momento só podes perder / A linha musical do encantamento / Que é teu sol tua luz teu alimento” (in O Búzio de Cós, p. 96)

Ser-se fiel a este nível implica, portanto, crer no real – “Na concha na flor no homem e no fruto”. Acreditar que a palavra poética é uma forma de milagre; e mesmo não esquecer o horror – “a suprema ignomínia”, diz Sophia sobre Treblinka e Hiroshima – é comprometer-se diante o milagre da palavra ser ainda possível, não para nos redimir do passado, mas para que o futuro permaneça ainda em aberto. Para que a própria ideia de permanência tenha futuro, enquanto “primordial projecto” (in O Nome das Coisas, p. 18). “Por isso”, conclui Sophia, “recomeço sem cessar a partir da página em branco / E este é meu ofício de poeta para a reconstrução do mundo” (p. 70).

Habitar poeticamente o mundo não é apanágio exclusivo de quem o diz por estas palavras, nem sequer de quem se arroga de ter livros editados. Habitar poeticamente o mundo não é menos frívolo do que expor a vaidade na vitrine, com o manequim em pose pensativa. Em abono da verdade, o poeta António José Forte rematou o assunto com esta clareza desarmante: “Não estar morto não quer forçosamente dizer que se esteja vivo, como não escrever não equivale sempre a ser analfabeto. Há mortos nas sepulturas muito mais presentes na vida do que se julga e gente que nunca escreveu uma linha que fez mais pela palavra que toda uma geração de escritores”.

Habitar poeticamente o mundo é um modo laborioso de dizer o que uma criança faz no seu febril desígnio de ser criança, de correr pelo parque, de mexer em tudo, de rodopiar. É a tal imanência. Habitar poeticamente o mundo é devir imanente ao próprio mundo, do qual somos continuidade corpórea e imaterial, pensamento e desejo. É uma forma de descoberta que principia a todo o instante: “Saudavam com alvoroço as coisas / Novas / O mundo parecia criado nessa mesma / Manhã” (Ilhas, p. 34). Nessa mesma manhã luminosa, lisa, que outro verso diz ser “a pura manhã da imanência” (O Nome das Coisas, p. 16). A mesma manhã que se habita como quem entra na casa de todos os dias, mas uma casa anterior à ruína do tempo, no tempo em que era sagrada – “[…] Isto é habitada / Não só por homens e por vivos / Mas também pelos mortos e por deuses” (Ilhas, p. 37).

O poema termina assim: “Porém a poesia permanece / Como se a divisão não tivesse acontecido / Permanece mesmo muito depois de varrido / O sussurro de tílias junto à casa de infância”. A poesia como se. A infância é como se. Como se permanecesse indivisa e eterna, matéria instituinte da eternidade: um devir-pássaro não dura o tempo de um voo, de um rodopio. Pelo contrário: opera um salto sobre a própria ideia de duração, de uma temporalidade delineada por inícios, meios e fins. É em pleno salto que a criança habita poeticamente o seu devir, o seu mundo. A nós, adultos, resta-nos observá-la como quem lamenta, com uma inconfessável vergonha, ter perdido esse “puro júbilo” da gratuitidade, segundo Herberto Helder: “O puro júbilo que vem de fazer por fazer, agir por agir, falar por falar, rir por rir – o gratuito, descomprometido, lúdico, mágico, criador, vital –, esse puro júbilo, perdemo-lo. E então procuramos as crianças, inventamos a infância que, se calhar, não tivemos. O que importa é libertarmos uma força, inscrita obscuramente em nós, que agirá sobre o mundo. Saímos da doença. Somos maravilhosos.”

E isto acontece à criança, dentro dela, antes de aprender a ler Sophia. Depois cresce, adere à linguagem, paga o seu dízimo. Mas reencontra nestes e noutros versos essa possibilidade de fuga ao real para nele mergulhar mais vivamente e, como Sophia diante o mar, os corais, as flores marinhas, poder também repetir estes gestos iniciáticos, em espírito de absoluta comunhão, nomeando o real sem pretender possuí-lo, gratos pela alegria de ver e existir: “Esta manhã é igual ao princípio do mundo e aqui eu venho ver o que jamais se viu. / O meu olhar tornou-se liso como um vidro. Sirvo para que as coisas se vejam. / […] Tudo está vestido de solenidade e de nudez. Ali eu quereria chorar de gratidão com a cara encostada contra as pedras” (“As Grutas”, in Livro Sexto).

 

 Referências:

Primeiro Livro de Poesia, 4.ª ed., seleção de Sophia de Mello Breyner Andresen e ilustrações de Júlio Resende, Caminho, 1996.

Sophia de Mello Breyner Andresen, Mar, 2.ª ed., Caminho, 2001.

_____, O Nome das Coisas, 4.ª ed., Caminho, 2006.

_____, Ilhas, 6.ª ed., Caminho, 2011.

_____, Musa, O Búzio de Cós e Outros Poemas, prefácio de Carlos Mendes de Sousa, Assírio & Alvim, 2016.

_____, Poesia, prefácio de Pedro Eiras, Assírio e Alvim, 2017.

José Gil, Caos e Ritmo, Relógio D’Água, 2018.

Herberto Helder, in minúsculas, Porto Editora, 2018.

António José Forte, Uma Faca nos Dentes, prefácio de Herberto Helder, Parceria A. M. Pereira, 2003.

Diogo Vaz Pinto, “Que Sophia não morra às mãos da unanimidade”, Sol, 19 de maio de 2019, disponível em https://sol.sapo.pt/artigo/658791/que-sophia-nao-morra-as-maos-da-unanimidade.

 

Imagens: A primeira, de Diogo Martins; a segunda, Sophia fotografada por Eduardo Gageiro.

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