António Manuel Reis

Aliança | Falsa partida

Aliança | Falsa partida

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Na política, a visão estratégica, a antecipação, a previsão, a paciência, o olhar mais a frente, são requisitos fundamentais para o sucesso.

As eleições europeias eram a prova de fogo, para os novos partidos. Umas eleições com voto descomprometido, voto de protesto, onde estes partidos poderiam capitalizar votos, adstritos ao descontentamento com a acção governativa, com o descontentamento de muitos militantes do PSD e CDS, com a forte abstenção entre outros.

Todos eles foram incapazes de se apresentarem como alternativa ao que quer que seja.

Nenhum deles cumpriu, os mínimos olímpicos. Ficaram muito aquém das expectativas.

Os partidos tradicionais continuam a dominar a cena política nacional. Relativamente ao partido – Aliança – que recentemente integrei, posso afirmar peremptoriamente que teve um resultado muito abaixo do que se poderia esperar, mormente os indicadores após o Congresso, tivessem começado a indicar este desfecho.

A Aliança é um partido novo. No princípio, como é natural, suscitou curiosidade, interesse e pensou-se que era uma lufada de ar fresco no panorama político nacional. A escolha acertada de Paulo Sande, a mais-valia da Aliança. O passar para a opinião pública o que se pensava que a população queria ouvir, a ideia das caras novas, gente que nunca esteve na política, de fazer diferente, tudo novo. Porém existiam custos nessa abordagem: a inexperiência, o desconhecimento do terreno, de como fazer política, de como implantar o partido junto às bases, mas sobretudo a ânsia de protagonismo e a desconfiança.

Apresentar-se a votos em eleições, com 6 meses de vida, não é tarefa compaginável com “amadorismo“ de principiantes. A isto, juntaram-se erros de casting – em muitos locais do País, as escolhas para as lideranças distritais e representantes locais foram um equívoco – que contribuíram de forma decisiva para o resultado final.

Um dos erros maiores foi a não convocação de eleições internas para legitimação das estruturas locais e distritais, logo após o Congresso fundador. As estruturas locais são aquelas que mais perto estão da população votante, aquelas que mais depressa são reconhecidas pelos cidadãos das suas áreas geográficas, aquelas que dão a cara e conseguem mobilizar, as suas gentes. São aquelas que conseguem transmitir ao topo da pirâmide, os anseios, as angústias, as necessidades da população e, em sentido inverso, conseguem passar a
mensagem de esperança, projectos e ideias vindas de cima. Nesta fase inicial, a experiência, o conhecimento do terreno (distrito, concelhos, freguesias, votantes, cores partidárias no poder, etc..), a forma certa de abordagem no contacto com a população, sobretudo a assertividade e convicção, na passagem da mensagem, são pontos decisivos na captação do voto.

Com o passar do tempo, a percepção da existência de influências e amiguismos, o sentimento de mais do mesmo, aliado aos erros naturais de crescimento, reflectiram-se nos estudos de opinião que vinham atempadamente a denunciar a necessidade da reformulação da trajectória, mas nada foi efectuado.

A Aliança teve 1,86% de votação, equivalente a 61 753 votantes no universo de 3,
084. 508 votantes em urna, sem contabilizar brancos e nulos, o que arredondando para cima perfaz que em cada 100 pessoas, somente 2 votaram Aliança.

Dentro deste resultado negativo, de Coimbra para sul os distritos maioritariamente andaram na média do resultado final, menos 0,2 mais 0,2, não contando com Beja como era natural.

A norte do Porto, os resultados foram extremamente menos conseguidos. De realçar que 3 Distritos, Lisboa com 22 000 votantes, Porto com 8 000 votantes, Setúbal com 4267 votantes, totalizaram mais de metade dos votos da Aliança.

Ao invés, Beja com 0,97%, Braga e Bragança, com 1,14% tiveram os piores
resultados nacionais. 1 em cada 100 pessoas, votou Aliança.

Relativamente ao Distrito de Braga, apraz somente dizer que é o terceiro distrito mais importante a nível de votantes, e neste caso, sociologicamente mais conotado, com a área centro direita, do espectro político português sendo portanto muito favorável à penetração da Aliança. Infelizmente, nestas eleições, o Distrito de Braga teve o 2º pior resultado do País com 1,14 % equivalente a 3352 votantes na Aliança no universo de 269 128 votos em urna, excluídos os brancos e nulos. Um resultado desastroso que tem rostos e responsáveis.

Este resultado eleitoral da Aliança é uma falsa partida, há que o assumir com toda a frontalidade.

Para quem nunca esteve na política, gente nova nestas andanças, tudo que seja acima de zero é bom, principalmente pela dedicação, esforço e disponibilidade que puseram no projecto Aliança, na pré e campanha eleitoral. Porém muitas vezes a boa vontade não chega, é preciso o saber fazer.

A verdade é que, como para tudo, a primeira impressão é a que fica e em política o que parece é e a percepção muitas vezes ultrapassa a realidade.

Portanto humildade e reconhecimento da realidade dos factos é muito importante neste momento.

É um erro de palmatória entrar na retórica do “fizemos tudo bem, somos um partido novo, portanto nada de novo”. Procurar desculpas em qualquer coisa só contribuirá para continuar a fazer mal e a cometerem-se os mesmos erros.

Não vale a pena justificar o resultado da Aliança com os 6 meses de existência do partido. Se analisarmos por esse prisma, o Chega (Basta) tem 2 meses de vida e 49 000 votantes, se tivesse 6 meses estaria nos 150 000. Não creio.

Era na abstenção que a Aliança poderia ter capitalizado votos; não conseguiu. Sendo um partido novo, mais rapidamente a motivação para votar seria maior. Prova disso foram as 140 000 pessoas que se deslocaram as mesas de voto e votaram em branco.

Sobre a atenção dos média, só há a dizer que, sem contar com os partidos com representação parlamentar, todos os partidos tiveram a mesma atenção.

E a última justificação, destes dias, a mais caricata e despudorada que é a tentativa de comparação das votações do PAN e do BE aquando do seu aparecimento, 2014 e 1999.

Em primeiro lugar, cronologicamente eram outros tempos, incomparáveis. O PAN quando concorreu a eleições em todos os círculos eleitorais, em 2015, obteve 75 000 votos. O BE quando concorreu às Europeias de 1999, obteve cerca de 62 000 votos.

Porém existe aqui um dado muito valioso, quem eram Paulo Borges/André Silva, ou mesmo Francisco Louçã? Algum foi secretário de Estado, Presidente da Câmara de Lisboa, 1 ministro de Portugal, comentador televisivo à altura dos factos, algum tinha a visibilidade, curriculum e reconhecimento público que tem o PSL? Sabem a resposta. Assim sendo, comparar o incomparável, nunca dá bom resultado.

O pior cego é aquele que não quer ver. A pior coisa que a Aliança pode fazer é ser Avestruz fechar se, ficarem calados a ver se o Verão faz esquecer, os resultados em determinados Distritos. Se na realidade é um Partido diferente, tem que o demonstrar, falando verdade,
com transparência, sem subterfúgios. Para transformar derrotas em pequenas vitórias já temos a CDU e mesmos esses já estão a modificar essa cassete.

É importante, aprender com os erros, rectificar a trajectória, mudar o que tem que ser mudado e olhar para a frente, as Legislativas, estão à porta, não há margem de manobra, errar novamente é certidão de óbito, pela certa.

As sondagens são arrasadoras; é preciso olhar para elas com olhos de ver. Manter tudo como está, indubitavelmente, irá dar o mesmo resultado.

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Categorias: Política

Acerca do(a) Autor(a) do artigo

António Manuel Reis

António Manuel Reis, nasceu em Barcelos a 07-10-1963. Concluiu em 1985, o curso na área de tinturaria têxtil UM/Mazagão. Formação em colorimetria, recursos humanos, automatização, sistemas de qualidade ISSO, planeamento, processos, produção. Industrial Têxtil de 1996 a 2009. Dirigente desportivo 1998 a 2004.Gestor empresarial de 2010 a 2013. Concluiu curso de formação de formadores em 2014. Trabalhador independente Real Estate Consultan 2018. Em curso, Licenciatura Ciências Sociais e Ciência Politica. Militante da JSD desde 1978/ Militante PSD desde 1981, delegado e Observador a Congressos, Delegado CPD, TSD, Membro da CPS, candidato a Presidente de Junta da UF Barcelos, deputado a UF. Candidato á Presidência da CPS. Membro independente da UF Barcelos. Partido Aliança em 2018.

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