‘Os grilos, ah os grilos, esses são sempre / amigos em quem se pode confiar: cantam à noite e de dia / ninguém sabe o que fazem ou pensam’

Tenho um problema com girassóis

Tenho um problema com girassóis

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Tenho um problema com girassóis;

nunca sei para que lado estão voltados.

Os grilos, ah os grilos, esses são sempre

amigos em quem se pode confiar: cantam à noite e de dia

ninguém sabe o que fazem ou pensam. Na estrada

que ladeava o rio sem água, repleto de peixes imaginários,

minhocas azúis como recatados capitalistas ocos, passeavas de

triciclo enquanto lias as galáxias invisíveis e esfregavas as nádegas no selim protuberante.

No entanto só os dias de verão traziam aquilo que todos ambicionavam. A vida sem paradoxos.

Era sempre um gratificante domingo, desses sem existência

no calendário das perplexidades, quando saías com a família para um piquenique

na floresta. O caminho corria entre campos de girassóis amorfos

e as aranhas que acompanhavam os movimentos

das flores confundiam-se com pernas de rã roxas, com

cogumelos intumescidos pela tesão do sexo crepuscular, molhado,

envolto em penugens sedosas e hipnotizantes. Quando chegavam à clareira das árvores

retorcidas do pliocénico, descarregavam o conduto e, sobre uma colcha

de rendas de bilros da avó, divertiam-se com gozo da cena de tonalidades

escarlates e com a ausência dos grilos.

– Como se chama a avó da tia? Perguntou um gnomo que por ali passava distraído.

Ninguém lhe respondeu. Eu, seguramente, porque tenho um problema com

girassóis. Dito isto arrumámos a tralha e regressámos a casa. Todo o caminho

Foi percorrido por dentro de um amarelo sinistro que me agoniava as faces.

Como era mesmo que se chamava a avó da tia?

Todavia, cagando, como disse o poeta das mil tardes de sábado.

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Prodigalidade, mera distração, pura bondade

Obs: poema publicado originalmente no livro ‘Tecidos’, de Vítor Gil Cardeira.

Imagens: DR

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‘Fernando Pessoa em Vila Nova de Famalicão’ esteve na Casa das Artes

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Categorias: Cultura, Literatura, Poesia

About Author

Vítor Cardeira

Vítor Cardeira nasceu em Conceição de Tavira, em 1958. Escritor, antropólogo, professor e editor. Escritor algarvio conotado com a corrente literária barroco-surrealista. Sócio fundador da editora “4 águas” e proprietário da editora “edições Cativa”. Livros publicados: Transeuntes (contos); Partículas (poesia); passagem através do fogo (estórias do quotidiano); A Leste de Tavira (monografia etno-histórica); Uma mulher Disponível (conto); Exilados (conto); Espuma Evanescente (antologia breve); Poema Falido (folha volante); Cicatrizes (contos e alegorias); Danças(?) (poesia); Escaras (poesia).

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