António Galopim de Carvalho

Mídia | Divulgação e comunicação em ciência

Mídia | Divulgação e comunicação em ciência

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O saber científico, cujo desenvolvimento nas últimas décadas registou progressos consideráveis, afirma-se, cada vez mais, não só como veículo indispensável à preparação escolar e profissional, mas também como parte importante da formação global do cidadão. Nesta óptica, a divulgação científica interessa-lhe como elemento potenciador da sua capacidade de intervenção cívica consciente, por exemplo, nas políticas de desenvolvimento e de ambiente. A pouca atenção ainda dada à divulgação da ciência, por muitas sociedades do presente, tem razões culturais, sociais e políticas bem conhecidas. É paradigmático o pensamento que diz “o poder do feiticeiro assenta na ignorância dos seus conviventes tribais”. A condição feminina, em certas sociedades, com interdição de acesso ao ensino e, portanto, ao conhecimento, visa a submissão das mulheres aos ditames dessas sociedades.

Divulgar seja num livro, num artigo de jornal ou de revista, num blogue ou numa página do Facebook é, à semelhança do professor, escrever ou falar numa linguagem correcta e clara, acessível ao cidadão comum, sem perda de rigor científico e, sempre que possível, agradável de ler ou ouvir.

Em cumprimento de um dever cívico de todo aquele que teve o privilégio de estudar a nível superior e atingiu patamares elevados de conhecimento, divulgar é dirigir-se ao cidadão, em geral, facultando-lhe adquirir conhecimentos que não tiveram oportunidade de adquirir, aprofundar os que possui e relembrar os que o tempo apagou ou distorceu.

Em cumprimento deste dever cívico, o divulgador científico procura, ainda, aproximar-se dos professores das escolas, proporcionando-lhes informação científica actualizada, em estreita ligação a uma componente cultural indispensável a quem tem a nobre missão de ministrar conhecimentos e, ao mesmo tempo, formar cidadãos.

Via de regra, o divulgador é um generalista. Dizendo de uma maneira divertida, o generalista é alguém que sabe pouco acerca de muita coisa, ao contrário do especialista, que sabe quase tudo acerca de quase nada.

O divulgador pode ser um cientista especializado, nesta ou naquela parcela do conhecimento, dotado de vocação generalista. Sabe comunicar com os seus pares e fá-lo numa linguagem própria, pouco ou nada acessível ao cidadão comum. Mas sabe mudar o discurso quando se dirige ao vulgo (no sentido de povo), ou seja, quando divulga.

Comunicação em ciência é uma acção mais abrangente do que divulgação. É algo de essencial. Ciência não é comunicação, mas não existe sem ela. À semelhança dos mais rudimentares saberes dos nossos primitivos antepassados, também a ciência é inseparável da comunicação. Entendida como um conjunto de conhecimentos acerca de parcelas maiores ou menores do todo universal, obtidos através da observação, da experimentação e/ou da elaboração mental, a ciência é um edifício do colectivo, cujos alicerces se perdem nos confins do tempo da humanidade. Edificada pedra sobre pedra, o seu fio condutor sempre foi e será a comunicação. Sem comunicação, o conhecimento científico não avança. Morre com quem o cria. Comunicar ou comungar, do latim, communicare, significa partilhar com outrem. Comunica-se através da linguagem escrita, falada ou gestual. Comunicam entre si, e até connosco, muitos dos animais que conhecemos. A comunicação entre os humanos utiliza sobretudo a voz e a escrita, muitas vezes apoiadas pela expressão fisionómica e corporal, como acontece, por exemplo, com o professor na sala de aula. Comunicam entre pares, ao mais alto patamar de erudição, os sábios nas academias e os investigadores nos congressos e outras reuniões científicas. Comunicam entre si professores e alunos. Comunicam, através dos livros ou dos media, e aos mais diversos níveis, os poucos divulgadores que se dispõem a fazê-lo.

Quase tudo o que nos rodeia e de que constantemente nos servimos, ou com o qual nos articulamos diariamente, resultou das conquistas da ciência e da tecnologia. Os alimentos, os medicamentos, os transportes e comunicações, os equipamentos mais variados da indústria, da saúde, da cultura ou do lazer, radicam, em grande parte, nestas conquistas do génio humano. O conhecimento científico e as tecnologias com ele relacionadas são alguns dos pilares sobre os quais assentam as sociedades humanas, o progresso social e o bem-estar da humanidade.

O paralelismo entre a produção científica e o avanço das técnicas de comunicação é, sobretudo nos dias que correm, uma evidência espectacular. Do texto manuscrito enviado por mar e à vela, ou por terra, na bolsa de um estafeta a cavalo, ao correio expresso, ou dos já antiquados telex e fax, ao actualíssimo e-mail e à inesgotável Internet, a generalização e o aperfeiçoamento constante e progressivo dos meios de comunicação de pessoas e ideias, fez crescer exponencialmente o hoje imenso e inabarcável edifício da ciência.

O instantâneo da comunicação, que caracteriza os nossos dias, é também um factor a ter em conta no acautelar dos muitos dos riscos que o avanço da ciência também acarreta. Lembremo-nos da pólvora, da dinamite, do armamento nuclear, das guerras química e biológica, e não esqueçamos a clonagem, os transgénicos, a nanotecnologia, a robótica e tudo o mais que já está aí e, ainda, o que se adivinha.

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Categorias: Ciência, Crónica

Acerca do(a) Autor(a) do artigo

António Galopim de Carvalho

Professor de Geologia na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Investigador na Universidade de Lisboa.

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