Manuel Augusto Martins Araújo

Poesia | Dão-me licença que fale de Abril?

Poesia | Dão-me licença que fale de Abril?

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Desde cedo,

Pequenino,

Na escola tive lição,

Trabalho, ordem,

Respeitinho

É a base da educação.

 

Letras soltas,

Palavra, frase,

Redacção,

Cópia, ditado,

Algarismo,

Operação,

De somar, subtrair,

Também de multiplicação,

Mas poucas de dividir,

De divisor muito grande,

Porque eram as mais difíceis,

Nunca davam tal e qual.

 

Depois chegavam as provas,

A dos nove,

Fora nada,

Para não falar de uma outra,

Que tinha forma

De cruz,

A dita prova real.

 

Eram montanhas

E rios,

Reis, batalhas, dinastias,

Sentimento

E muita dor,

Descoberta, navegador,

Viagem e marinheiro,

Estação, apeadeiro.

Eram viagens pelo mundo,

No banco de uma carteira,

Com rotas de azul-azul,

Tiradas de um tinteiro.

 

Mas havia silêncio e medo,

Muita prosa,

Histórias tristes,

Poema e poesia,

Coisa que não existia.

Sinal de mau presságio,

Tristeza de campanário.

Mulheres novas,

Xailes negros,

Lenço branco,

De saudade,

De um adeus!

 

Um lavrador,

Com arado

E um campo.

Terra rasgada na mente,

Com suor feito de lágrimas,

Um degredo,

Sempre à espera da semente.

 

E no mar alto raivoso,

Num dia de tempestade,

Um pescador

Solitário,

Perdido na noite escura,

À espera da bonança,

À procura

De uma estrela,

Chamada da Boa Esperança.

 

Não havia histórias lindas,

Com alegria,

E ilusão,

Nem sorrisos de criança,

Em bolinhas de sabão.

Havia silêncio e medo,

Feito rumo,

Feito destino,

Fado.

Tudo a favor da nação.

 

Havia em tudo mistério,

Artes mágicas

De um truque.

Música de chula, vira

E malhão,

Fandango e corridinho,

Mornas, tambores

E batuque.

E longe um homem que morre

De tiro no coração.

Porque inventaram uma guerra,

Ilusão de um grande império!

 

E nas ruas da cidade,

Estreitas,

Tudo com sentido único,

Era tudo proíbido,

Tudo era repressão.

E os homens para falar,

Só com gestos e olhares

E murmúrios.

E para uma reunião,

Com texto,

Ideia, poema, canção,

Tão simples,

Tão pequenina,

Havia logo pretexto,

Para ser preso,

Na escuridão,

Mesmo ao dobrar da esquina.

E havia silêncio e medo,

E coragem para resistir.

 

E o operário na fábrica,

Trabalhava noite e dia,

Mastigava dor e raiva,

Matava a sede com lágrimas,

Desafiava o destino.

E pensava, trabalhava,

Pensava,

Pensava no seu menino.

Fazia panos de chita,

De cotim e ganga azul,

Ganga de fato macaco.

Fazia peças para máquinas,

Para barcos e navios,

Objectos de madeira,

De barro, vidro,

E cortiça.

Fazia tudo de tudo,

Imposto de qualquer maneira,

Menos brinquedos…

Porque diziam que havia

De tudo.

Havia silêncio e medo.

 

E para iludir o menino,

Pensando em satisfação,

Dada a falta de brinquedos

E falta de imaginação,

Inventaram uma pombinha,

Com patas em forma de roda,

Com asinhas de madeira,

E presinha por um pau.

Sonho preso, desilusão!

 

É claro que o menino

Louro,

Babeiro de pato azul,

Fez o seu próprio brinquedo.

Deu asas ao pensamento,

E projectou-se no tempo.

Jogou no chão a bugalhinha,

Fez cálculos ao pedreirinho,

Mediu forças com a fisga,

Fez viagens de ventoinha,

De amoras pintadinha.

Corria mais do que o vento,

Com sorriso e assobio,

E de mãozinha fechada,

Com um gesto que lhe ensinaram,

Olhava para o céu azul,

Libertava um papagaio,

Cheio de cores arco-íris.

Fechava os olhos,

E ria-se.

Embalava-se no sonho,

Acreditava no tempo.

 

Até que numa madrugada,

De um livro feito ao contrário,

Com um erre de raiva,

Revolta,

Rota, rua,

Recordação,

Ditou-se Revolução,

Acabou a ditadura.

E da boca de um canhão,

Não saiu fogo,

Nem metralha,

Apenas rádio e cantiga,

Poema feito granada.

 

Mas para que houvessem mais livros,

Para que nascessem palavras,

Com ele de luz e laço,

Elo, luta,

Livre e lua,

E Laurinda…

Eva do paraíso,

Lábios de maçã vermelha,

E Maria da Igualdade,

Escreveu-se coisa linda,

A palavra Liberdade!

 

E o povo saiu das casas,

Por carreiro, caminho,

Rua, estrada.

Encheu terreiros, largos

E praças.

Foi ribeiro, rio e mar.

Fez-se uma festa da vida,

Foi um dia para amar.

Beijos, abraços, sorrisos,

Loucura feita alegria.

No ar havia perfumes,

De pétalas de rosa e cravo,

Aromas de todo o gosto.

E cerrou-se o punho

Viril,

Não era noite

De Agosto,

Era numa manhã

De Abril.

E uma pomba e uma gaivota,

E também uma andorinha,

Bailaram no céu azul,

Anúncio e despedida.

Aquela manhã de Abril,

Era esperada, era partida…

Única da nossa vida.

**

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Categorias: Cultura, Destaque

Acerca do(a) Autor(a) do artigo

Manuel Augusto Martins Araújo

Manuel Augusto Martins de Araújo, 58 anos, casado, natural de V.N.de Famalicão, residente em Arnoso Santa Eulália. Licenciado em Geografia pela Universidade do Porto. De 1981 a 2013 foi professor de Geografia, no Externato Infante D.Henrique /Alfacoop-Cooperativa de Ensino, CRL, onde, a par da atividade docente, desempenhou funções de natureza pedagógicas e administrativas. Membro da direção da Escola Profissional CIOR. De 1991 a 2001 integrou o Gabinete de Apoio ao Presidente da Câmara Municipal de V. N. de Famalicão, D. Agostinho Fernandes. Desempenhou funções autárquicas como Presidente da Assembleia de Freguesia de Nine e de Arnoso Santa Eulália. Membro fundador da Engenho - Associação de Desenvolvimento Local do Vale do Este; Presidente da Direção desta instituição, desde 2010. Membro do Conselho Fiscal da Associação Dar-as-Mãos e do Conselho Fiscal da União Distrital das IPSS de Braga. Membro do Conselho Municipal de Educação de V. N. de Famalicão.

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