Diogo Martins

Dar Coisas aos Nomes | Notre-Dame: todo o tempo é irredimível

Dar Coisas aos Nomes | Notre-Dame: todo o tempo é irredimível

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Diante o incêndio que deflagrou na Catedral de Notre-Dame na passada segunda-feira, há pelo menos uma ideia feliz a ter em conta e a preservar: a de que há locais, monumentos, nomes e símbolos que, disseminados pelo mundo, fazem parte de todos nós. Melhor ainda: esse património reafirma a existência, de facto, de um ‘nós’, de um corpo maior do que os nossos limites físicos e biológicos individuais. Um corpo que reage em conjunto (e não seria preciso a fatal histeria das redes sociais para provar essa sincronia) à voracidade implacável de um acontecimento imprevisto como este. Somos, pois, este corpo topológico de limites difusos, não circunscrevíveis à pele que nos serve de invólucro. Somos este corpo-espírito que se estende para lá das nossas estritas coordenadas, que prolonga imaginariamente – mas de um imaginário que nada tem de alado ou irreal, porque visceralmente real ou imanente – o espaço habitado pela nossa consciência. Por isso, se há algo como um ‘nós’, como um “espírito europeu” que seja sinónimo de uma “cidadania do Mundo”, então “o momento do colapso da espiral da catedral parisiense não pode deixar de ser sentido como o momento em que uma flecha atingiu o coração da Europa”, como escreveu Rui Tavares no jornal Público.

Se procurarmos efabular um mundo onde as pirâmides do Egito já não existam, ou o planeta sem a Torre Eiffel, a Estátua da Liberdade, a floresta Amazónica, as planícies geladas do Ártico, a acrópole helénica, o azul do oceano, sentimo-nos necessariamente amputados. Deixamos de pensar quem e o que somos da mesma maneira como o faríamos até aí, porque entre nós e esses pressupostos históricos, culturais, patrimoniais ou estritamente topográficos se estabeleceu um vínculo simultaneamente anterior e posterior à fragilidade do nosso tempo de vida. Um vínculo de sangue, tão antiquíssimo quanto a própria ideia que fazemos de nós como uma civilização, essa espécie animal que, na senda de Freud, encontrou na sublimação – os laços humanos, a religião, a arte, os totens e os tabus – um meio de se transcender. E mesmo que nunca tenhamos visitado a Catedral de Notre-Dame, mesmo que nunca tenhamos visto com os nossos próprios olhos as pirâmides de Gizé ou as cenas vivas nas grutas de Lascaux, há um passado intemporal, uma atemporalidade “aurática” que se liberta do fundo ancestral desses locais e monumentos, que nos marca profundamente: é com isso que imaginamos o mundo, ou seja, que o povoamos espiritualmente com imagens, com o sem-fundo dos mitos, das lendas, das ficções que servem de arco à nossa múltipla unidade.

Pertencer ao Velho Continente significa, em boa parte, que convivemos constantemente com o nosso passado, quer disso estejamos conscientes ou não. Daí o caráter emblemático destes versos de Quatro Quartetos (1943), de T. S. Eliot: “O tempo presente e o tempo passado / Estão ambos talvez presentes no tempo futuro / E o tempo futuro contido no tempo passado” (trad. Gualter Cunha). Daí, também, a visão apaixonada de um pensador como George Steiner face à tradição de nos servirmos dos nomes de filósofos, estadistas, poetas e cientistas para batizarmos ruas, praças e avenidas: “Até uma criança na Europa se dobra sob o peso do passado como tão frequentemente se dobra sob o peso das mochilas escolares demasiado cheias” (in A Ideia de Europa, Gradiva, 2007). O modo como este parágrafo prossegue confirma o deslumbramento deste filósofo diante aquilo que entende ser a cumplicidade umbilical entre o cidadão europeu e o chão que pisa: “Quantas vezes, avançando penosamente pela Rue Descartes, atravessando a Ponte Vecchio ou passando pela casa de Rembrandt em Amesterdão, não me senti avassalado, mesmo num sentido físico, pela questão: «De que serve? Que pode cada um de nós acrescentar à imensidade do passado europeu?» Quando Paul Celan entra no Sena para se suicidar, escolhe o local exacto celebrado por Apollinaire na sua grande balada, um ponto situado sob as janelas do quarto em que Tsvetayeva passara a sua última noite, antes de regressar à desolação e à morte na União Soviética. Um europeu culto é apanhado na teia de um in memoriam simultaneamente luminoso e sufocante.” (p. 35)

Por isso, o fogo em Notre-Dame mexe connosco. Como refere Diogo Vaz Pinto, “ver as partes da majestosa catedral a desfazerem-se terá sido uma imagem do fim de um mundo” (jornal i, 16 de abril). (Assim de repente, se lidos sob a impressão destas chamas em Paris, a continuação dos versos de T. S. Eliot acima citados reacende a consciência de uma condenação escatológica: “Se todo o tempo é eternamente presente / Todo o tempo é irredimível”…) Como salienta Vaz Pinto no mesmo artigo, a importância histórica da Catedral fala por si ao longo dos últimos oito séculos: “Foi ali, naquela catedral católico-romana, que a Terceira Cruzada foi anunciada por Heráclio, o arcebispo de Cesaréia, foi ali que Henrique VI foi coroado rei da França, e Napoleão, imperador. Foi nesta catedral que Joana d’Arc foi beatificada, e após a libertação de Paris, este foi o monumento para o qual se voltou Charles de Gaulle ao dirigir os seus homens, numa procissão pelos Campos Elísios. Há um sem fim de mitos menores e maiores que, como a pedra, estão entretecidos nesta construção situada na pequena ilha Île de la Cité em Paris, rodeada pelas águas do Sena.”

Por outro lado, a imagem de Notre-Dame em chamas atiça-nos outras imagens, mais profundas, que dão pregnância expressiva ao nosso inconsciente corporal. Talvez o exemplo mais óbvio seja o romance de Victor Hugo e as suas sucessivas adaptações ao cinema, com destaque para o filme da Disney de 1996 (que foi, aliás, o primeiro que assisti numa sala de cinema). Mas daí podemos partir, também, para o próprio imaginário gótico de que a Catedral era a realização suprema: a evocação demoníaca das gárgulas, a austeridade dos santos, o eterno conflito entre o Bem e o Mal, a luz e as trevas. Em suma, a verticalidade ascensional da pedra como metáfora para uma ideia de Deus, ou a pedra talhada que aspira à eterna leveza, essa que resistirá à fugacidade da fraca carne humana e ao desfile dos nossos mesquinhos acidentes e caprichos.

Um artista contemporâneo como Rui Chafes, por exemplo, ao trabalhar, desde 1987, materiais aparentemente tão anacrónicos, oficinais ou até mesmo feios como o ferro, aproxima as condições do seu labor daquelas que subjazem à construção de catedrais e igrejas, quer porque Chafes diz amar a “ideia de trabalhar com várias pessoas na oficina, essa divisão das tarefas, essa construção a várias mãos e a várias consciências”, quer porque, ao contrário da assepsia contemporânea de muitos museus, reféns da turistificação e da nivelação do mundo, as catedrais e as igrejas começaram por ser os locais por excelência do “questionamento do mundo” através da arte, ou da aliança entre arte e mistério (in O Silêncio De…, 2006, p. 95). Opondo-se à indigência da arte contemporânea, fechada num círculo onde só respeitáveis especialistas detêm a chave da decifração do que produzem os “maus alunos de Duchamp”, a arte gótica era didática, um espaço-tempo de todos, para a qual a cisão entre público e artista não fazia sequer sentido. E era, sobretudo, uma arte da contemplação, da demora e do silêncio – porque se confundia com os próprios espaços onde se exibia: espaços de oração e adoração.

Por outro lado, Chafes vai beber à monumentalidade e à sobriedade do Gótico a sua interrogação sobre o sagrado, sem o qual “o homem morre e a sua cultura desaparece”, restando-lhe apenas “esta sociedade desencantada, ignorante e materialista” (in Entre o Céu e a Terra, 2012). Por isso, continua o autor, “[o] homem dignifica aquilo a que chamamos vida quando tem consciência de participar numa dimensão superior que o transcende” (pp. 47-8). E essa dimensão superior é uma ideia de verdade, da qual a arte – da música à poesia, do cinema às grandes catedrais – seria sempre, se não o espelho, o seu enigma, a sua reverberação, a inquietude do espírito. Ou ainda: a arte como um talismã para quem ainda não perdeu a esperança de reabilitar o mundo com as suas forças mágicas. Ou para quem, simplesmente, ainda não perdeu a esperança na esperança. (E daí Luís Quintais ver nas obras de Chafes “uma singularidade elegíaca”, o que o torna “um contemporâneo de Novalis ou Hölderlin, mas também de Tilman Riemenschneider, Stefano Maderno ou Gian Lorenzo Bernini”.)

Outra reverberação que emana de um edifício como Notre-Dame, e que comunga com a arte de Rui Chafes, é o silêncio do seu anonimato. Não sabemos os nomes de todos os artesãos e artífices que, pedra ante pedra, século após século, foram edificando Notre-Dame com “bravura, nobreza e entrega” (Chafes). O caráter espiritual destes espaços advém dessa inscrição anónima no tempo, que reforça a sua propensão mítica: eles existem como se existissem desde sempre, mesmo que fontes históricas assinalem 1163 como o ano em que principiara a construção da catedral parisiense. É esse “desde sempre” intemporal que insuflava o trabalho de todos os que a erigiram: edificar o sagrado exigia o despojamento do ego e das suas veleidades, um compromisso absoluto com a beleza, a forma, a contenção e o rigor, em detrimento da fama, da vaidade ou da soberba (pecados mortais, aliás, se atendermos à mundividência cristã da Idade Média ocidental). A catedral não é a obra de arte que pretende celebrizar o nome deste ou daquele artista, mas é, como salienta Chafes, a obra à qual subjaz “a ideia de prescindir do ego” – “e, ao abdicar do ego, todas as portas estão abertas” (in O Silêncio De…, p. 95). (A propósito, este passo de Henry Miller em Viragem aos Oitenta, numa edição lançada há poucas semanas por Vasco Santos: “Embora finjamos estar a ensinar outros a ver, ouvir, saborear e sentir, o que na realidade fazemos é alimentar o ego. Somos incapazes de continuar anónimos como os homens que construíram as catedrais. Queremos ver os nossos nomes em letras de néon. E nunca recusamos dinheiro pelos nossos esforços. Mesmo quando já nada mais temos para dizer, continuamos a escrever, a pintar, a cantar, a dançar, sempre à procura dos holofotes”, 2019, p. 39.)

Arte, deus, sagrado, forma, ideia. Estes poderiam ser alguns dos conceitos a partir dos quais “a ideia da Europa”, segundo a expressão de George Steiner, se ilumina na realização material de Notre-Dame de Paris, enquanto símbolo de um humanismo secular, e que este súbito incêndio fez tremer no nosso imaginário, nessa síntese irredutível do nosso corpo e espírito. E talvez seja essa turbulência coletiva, esse estado de impotente perplexidade que, durante algumas horas, nos deixou vidrados diante as imagens do fogo, a prova que instituímos a nós mesmos do quão vital é haver estes nichos de sentido – nomes, artefactos, edifícios. Em suma: o quão vital continua a ser a ficção do sentido (e o sentido das nossas ficções) – este gesto tão precário de haver quem grave o próprio nome numa árvore, ou componha o mais secreto dos poemas, ou idealize uma sequência fílmica onde pouco mais aconteça do que um plástico a ser levado pelo vento. E, no entanto, todas estas absolutas nulidades constituem autênticos uivos de desespero – porque somos humanos mortais em luta contra a indiferença do Cosmos, cujos limites continuam esquivos e imponderáveis (e a cada prodígio da ciência – como a recente captação fotográfica de um buraco negro – o universo fica ainda mais misterioso, mais esquivo, mais imponderável). Gravar o nome, escrever um poema, imaginar: eis as nossas ilusões preciosas diante a certeza da morte e a incerteza de como o vazio universal se há de, ou não, lembrar de nós ou do que perdura do nosso nome quando já cá não estivermos, entretidos no recreio biográfico, a ficção de uma eternidade temporária. Daí que, por um momento ou dois, essa “intuição metafórica de que fomos realmente criados à imagem de Deus”, segundo Steiner, se agudize à séria de cada vez que a História parece morrer aos nossos olhos, ante nós e antes de nós. À angústia de Sá de Miranda – “Que farei quando tudo arde?” – só temos para dar desamparo e reticências.

 

Referências

Rui Tavares, “Uma flecha no coração da Europa”, in Público, 15 de abril de 2019, disponível em https://www.publico.pt/2019/04/15/culturaipsilon/opiniao/flecha-coracao-europa-1869413?fbclid=IwAR2FCFTjFe1kSvmmoo5o-BvokKoFSq9kqKRI8NcL8aaunjTUYyQYaf0erO8.

Diogo Vaz Pinto, “Notre-Dame. O incêndio que ressoou pelos séculos e fez tremer os mitos”, in jornal i, 16 de abril de 2019, disponível em https://ionline.sapo.pt/artigo/653747/notre-dame-o-inc-ndio-que-ressoou-pelos-seculos-e-fez-tremer-os-mitos?seccao=Mundo_i&fbclid=IwAR1ASXwwVk6jVCioQpvdmauqkmu4O7FlgsgqsbTzvxhA5XVkoRl5vok41t0.

George Steiner, A Ideia de Europa, 4.ª ed., trad. Maria de Fátima St. Aubyn, Lisboa, Gradiva, 2007.

T. S. Eliot, Quatro Quartetos, trad. e introdução de Gualter Cunha, Lisboa, Relógio D’Água, 2004.

Luís Quintais, “Uma singularidade elegíaca: Rui Chafes ou a mais escura paisagem”, 28 de junho de 2013, disponível em https://luisquintaisweb.wordpress.com/2013/06/28/uma-singularidade-elegiaca/.

Rui Chafes, Entre o Céu e a Terra, Lisboa, Documenta, 2012.

Rui Chafes, O Silêncio De…, Lisboa, Assírio & Alvim, 2006.

Henry Miller, Viragem aos Oitenta seguido de Viagem a Uma Terra Antiga, trad. Sofia Castro Rodrigues, V.S., 2019.

Imagens (por ordem sequencial):

A Catedral de Notre-Dame vista pelo pintor Henri Matisse (1869-1954).

Fotograma do filme O Corcunda de Notre-Dame (Gary Trousdale & Kirk Wise, 1996).

Escultura The forbidden Sea is calling you (2011), de Rui Chafes (fonte: https://www.youtube.com/watch?v=DFBTkFTL0NI).

Catedral de Notre-Dame, fotografada em 1860 (fonte: https://en.wikipedia.org/wiki/Notre-Dame_de_Paris).

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Categorias: Crónica, Cultura, Destaque

Acerca do(a) Autor(a) do artigo

Diogo Martins

Diogo Martins nasceu em 1986 e é natural de Nine, do concelho de Vila Nova de Famalicão. Doutorado em Teoria da Literatura pela Universidade do Minho, iniciou em 2017 um projeto de pós-doutoramento intitulado "Ousar corromper: (o)caso retratístico em Rui Nunes". Interessa-se por poesia, literatura, cinema e fotografia, e mais ainda pelas relações entre estas e outras artes.

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