Diogo Martins

Dar Coisas aos Nomes | Robert Redford, o poeta [parte 1]

Dar Coisas aos Nomes | Robert Redford, o poeta [parte 1]

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Alguém que use do idealismo mais do que a sua melodiosa fachada, esse som de cristal que a palavra, de súbito, parece fazer cintilar aos ouvidos, será à partida perigoso. Um animal perigoso, desses que nos pregam rasteiras, que ora são predador ora são presa, consoante os matizes da natureza, os ditames da sobrevivência, o perverso negrume do humor – ou, tão-só, a humildade da inteligência, essa sobriedade que exige dos anos de vida muito mais que os inevitáveis aniversários, um c.v. invejável, atolado de prémios e menções honrosas. A humildade da inteligência – “essa mistura”, assinala o poeta Juan Luis Panero, “já em vias de extinção, de cortesia, inteligência, cultura e humor” – é aquela que circunda os sábios, como o ar da sua presença: olham penetrantemente o que se passa e só falam quando é imperioso dizer alguma coisa. O silêncio serve, quase sempre, como a mais incisiva resposta. E, nessa atitude, imita o sábio a presença no mundo dos objetos e dos animais, imita-lhes o enigma que luz a partir de dentro: silenciosos, olham-nos desde sempre, conhecem a humanidade desde as suas raízes, “os crimes, os prazeres, as alegrias e as violências”, segundo Gaëtan Picon. Cada objeto, conclui este autor, “é uma testemunha sempre pronta a despertar”.

Exige-se, portanto, coragem e um claro sentido de discernimento de cada vez que se ousar falar de idealismo sem o ranço cínico de quem, demasiado autodeslumbrado, não sente o cheiro a podre mesmo naquilo que diz estar vivo e recomendável. De modo análogo, outros cintilantes vocábulos como “humanismo”, “civilização” ou até, noutro espectro (e não tão distante quanto isso), “literatura” ou “poesia”, arrastam atrás de si, todos os dias (e daí a cada vez mais tenebrosa e indesculpável falsa consciência de quem as usa), ideologias perversas, silenciamentos calculados, a cínica “naturalidade” das coisas (uma religião, uma família, a imagem do homem e da mulher, a defesa da pátria) – e um amontoado de corpos, de genocídios e demais atrocidades. (Não é por acaso que, no livro Mobilização Infinita, 2002, de cada vez que Peter Sloterdijk menciona a expressão “processo civilizador”, o filósofo acaba de seguida por se desculpar a quem o lê: “esta expressão horrorosa”, brinca seriamente o autor, “queima as mucosas da boca ao ponto de as esburacar”, p. 26; “agora, este termo já corroeu as faces de lado a lado; como nos leprosos, os dentes e as maxilas estão fantasmagoricamente a descoberto; vai ser preciso retirar tal expressão da circulação”, p. 107).

A ser um idealismo (e talvez seja o sufixo -ismo a razão do complexo ou desconforto, ou a ponta do véu pela qual se desmancha o figurino), que não seja bacoco, mera ganga retórica, dessa que adorna qualquer discurso barato, pontilhado pelas citações da praxe e da poesia-zinha dos bons sentimentos (“nada envelhece tão depressa como os demasiado famosos ‘grandes problemas’ de uma época”, escreveu André Pieyre de Mandiargues). Um idealismo que não conspurque a Mensagem pessoana, abusando dela como letreiro para tudo, das capelas mortuárias ao mais mesquinho e risível endeusamento pessoal, com facebook à mistura e a mesmimice de que já se sabe a cor e o feitio (ou o perfil e a capa). Um idealismo que não tenha necessariamente que passar por subir para cima da mesa na sala de aula e, como o professor Keating (Robin Williams, no Clube dos Poetas Mortos), ensinar os miúdos a ler Horácio e Whitman com paixão. Mas, a ter que ser, assim de forma tão histriónica, por vezes, tão tonta ou idiota, então que seja: há meios que valem pela grandeza dos fins. Grandeza que, embora discreta, não é nada menos que apoteótica e profunda. Porque, afinal (e eu demorei alguns anos a chegar lá), não é só a paixão pelos clássicos que Keating desejava incutir naquele grupo de rapazes. A poesia, aí, cumpria tão só a função de meio – aproximativo, esplendoroso, libertador – para ele chegar ao seu último fim: a paixão pela vida. Não consigo, assim de repente, entender o sentido do idealismo, de qualquer idealismo, que não seja sinónimo dessa paixão de existir.

E vem isto a propósito de quê? De Robert Redfort e de Clint Eastwood. Da paixão de existir destes dois. Dois filmes, dois homens, dois mitos do cinema. Duas vidas, duas histórias – inteiras, absolutas, filmadas num momento que, independentemente do que esse momento assinala, não consegue escapar à sua consagração de existir como tal. Isto porque, ao mais simples movimento de mãos destes atores, diante o mais ingénuo esgar ou piada seca, parecemos condescender com algum tipo de hierofania, como se nem já neste tempo estivéssemos, mas num outro, quando os deuses eram mais tangíveis, tanto eles como a nossa crença. Falo de Clint Eastwood, em The Mule (O Correio da Droga), e de Robert Redford, em The Old Man and The Gun (O Cavalheiro com Arma, realizado por David Lowery e baseado numa história verídica). Do primeiro sairá muito em breve um artigo (e aproveito para avisar que o filme passará no CineClube de Joane, na Casa das Artes de Famalicão, dia 4 de abril). Neste texto, escrevo sobre o segundo, que Redford, aos 82 anos, decidira ser a sua despedida como ator.

O poeta espanhol Juan Luis Panero escrevera que, nos seus últimos anos, só lhe restava um derradeiro “trabalho esgotante” – e esse labor era “envelhecer” (p. 14). Se acaso é mesmo assim – “Ingrata a velhice, aborrecidos os seus símbolos / – sem valor literário – demasiado previstos” (p. 161) –, se acaso a sorte, amiúde, lá vai lançando umas migalhas, pequenas esmolas ou tréguas com que se vai adiando a morte definitiva – “Apenas resta – todos os dias mais estranha – a surpresa / de um inesperado momento redivivo, / como há instantes, ao ver a televisão” –, eis Forrest Tucker (Redford), cavalheiro com arma (presumivelmente carregada) lembrar-nos de que não, que afinal não é bem assim – que não é sempre, nem tem que ser, assim –, essa lamúria agendada, a cadeira de baloiço com o gato ao colo e a medicação no bolso, a vegetar diante os programas da tarde com o bónus das lobotomias e dos prémios em cartão. (Visão enquistada, e portanto cega, da camoniana “austera, apagada e vil tristeza”, falando da pátria devorada pelos seus próprios excessos ensimesmados, até só dela restar, num vagar irónico e lesto, não o ideal, mas a sua desiludida ressaca: “a apagada e vil cerveja que nos junta”, segundo o poeta Manuel de Freitas.)

Eis, pois, Robert Redford e a sua arma: o cinema, a vida no cinema e o cinema da vida – pois o que dizer daquela montagem analéptica recontando anteriores episódios de roubos, um dos quais recupera um Redford mais novo, num outro filme seu? E o que dizer do momento em que o ator se senta com Sissy Spacek, outra veterana, numa sala de cinema, os dois figurando como o reflexo projetivo da nossa condição de espectadores, reflexo igualmente do fascínio pelo cinema enquanto arte das imagens em movimento e, sobretudo, arte popular, do prazer partilhado com outras pessoas?

A intensidade da vida é, também, a intensidade do cinema, quando este se quer íntegro, arrojado, com unhas e dentes e esplendorosamente jovem até ao fim, saboreando até a casca amarga dos frutos. Essa é a sua fome, o seu ideal de vida, ou a vida enquanto puro ideal: assaltar bancos com elegância, planear o próximo golpe, sentir a adrenalina – do próprio golpe, de escapar às autoridades, de desconhecer o que o amanhã lhe promete.

E porquê? Porque sim. Porque assim: “Brother, I’m not talking about making a living. I’m just talking about… living.” (Leia-se isto e imagine-se Redford num carro a todo o gás, a sacar piões, fitando a patrulha de polícia, galgando a estrada e trilhando um terreno baldio. Não se trata de vangloriar a vida à margem da lei, aquela contra a qual o poder jurídico impõe a sua razão de ser. Nada que ver com o deslumbramento de um anti-herói face à ínsita condição “marginal”, com o laivo romântico que isso agrega e, em simultâneo, o capricho aburguesado da sua definição, como assinala Juan Luis Panero. Porque é a própria emancipação da margem – essa que incita os polícias a tirarem o chapéu ao vilão, fazendo-lhe uma vénia, reconhecendo a honra que é poderem acender-lhe o cigarro e ouvirem-lhe as histórias. Mal corre se é só nos filmes que vemos um homem bom a ser genuinamente aplaudido mesmo quando infringe a lei. Mas talvez seja esse o estado de graça aberto pela bondade natural deste tipo – bondade, inteligência, cortesia, charme –, o estado de graça que, para desvirtuar uma conhecida expressão da filosofia política, funciona aqui enquanto “estado de exceção”.)

“I’m just talking about… living.” Haverá revolução maior que essa: a de existir com plena consciência do que isso vale, do que isso significa, dessa “faca nos dentes e de chicote em punho”? O poeta António José Forte dissera-o de maneira vigorosa: “Já não há tempo para confusões – a Revolução é um momento, o revolucionário todos os momentos” (Uma Faca nos Dentes, 2003, p. 57).

Haverá poesia maior do que essa, na verdade? Ou outro sentido para a poesia que não seja exatamente esse, de Camões a Whitman, de Rimbaud a Patti Smith, de Clarice Lispector a Henry Miller? “Todos os autênticos poetas foram malditos”, escreveu Panero; “os autênticos rebeldes, os homens para os quais a sua verdade última, a sua última sinceridade, está além de qualquer dogma, não costumam encontrar um refúgio cómodo, andam de uma prisão para outra” (p. 13). E importa aqui entender essa autencidade fora do âmbito literal do que se escreve, ou de quem escreve, mas antes como a personagem de Redford no filme: “I’m just talking about… living.” Porque, voltando a Forte, “Não estar morto não quer forçosamente dizer que se esteja vivo, como não escrever não equivale sempre a ser analfabeto. Há mortos nas sepulturas muito mais presentes na vida do que se julga e gente que nunca escreveu uma linha que fez mais pela palavra que toda uma geração de escritores” (p. 57).

Se concluo desta maneira, é tão só porque o impulso para escrever sobre The Old Man and the Gun surgiu com a leitura do seguinte excurso de Benjamin Péret (1889-1959), outro rebelde autêntico, “a personalidade mais festiva do surrealismo francês”, segundo a descrição de Júlio Henriques: “foi do princípio ao fim um homem inteiro, respondendo sempre à arrogância da sociedade e às suas normas redutoras […]” (in Contra os Poetas, 1989, p. 13). E pronto, aí está. Quem quiser, que una os pontos – e sorria. Como Forrest, aliás.

“O Romantismo estava destinado a deparar de novo com o maravilhoso e a dotar a poesia de uma significação revolucionária que ainda hoje mantém e lhe permite viver uma existência de proscrita, mas apesar de tudo viver. Porque o poeta – não me refiro aos engraçadinhos de toda a laia que fazem versos – já não pode ser como tal reconhecido se se não opuser, por via dum inconformismo total, ao mundo em que vive. Há-de erguer-se contra todos, inclusivamente contra os revolucionários que se situam tão-só no terreno da política, isolando-a assim arbitrariamente do conjunto do movimento cultural, e por isso preconizam a submissão da cultura à realização da revolução social. Não há nenhum poeta ou artista consciente do seu lugar na sociedade que não considere esta revolução indispensável e urgente como a chave do futuro. […] O poeta actual não tem outro remédio senão ser revolucionário ou não ser poeta, porque tem constantemente de se lançar no desconhecido; o passo que deu na véspera de modo nenhum o dispensa do passo que há-de dar no dia seguinte, visto que tudo deve recomeçar todos os dias e aquilo que ele obteve durante o sono se desfez em poeira ao despertar. Não há, no seu caso, investimento nenhum de pai de família mas, isso sim, o risco e a aventura indefinidamente renovados. É a este preço, e só a este preço, que pode pretender afirmar-se como poeta e tomar um lugar legítimo na ponta mais avançada do movimento cultural, onde não há louvores nem louros a receber, mas sim golpes a desferir, e com todas as forças, a fim de se dar cabo das barreiras incessantemente renascentes do hábito e da rotina.

Não pode ser, nos nossos dias, senão um amaldiçoado. Esta maldição com que o fustiga a sociedade presente indica a sua posição revolucionária; ele há-de porém sair da sua reserva obrigatória, a fim de se ver colocado à testa da sociedade, quando, transformada em seus alicerces, esta tiver reconhecido a comum origem humana da poesia e da ciência, criando o poeta, com a colaboração activa e passiva de todos, os mitos exaltantes e maravilhosos que hão-de lançar o mundo inteiro ao assalto do desconhecido.” (pp. 59-61)

 

Referências:

Trailer do filme The Old Man and The Gun (2018): https://www.youtube.com/watch?v=d7rlUe-Thvk

Juan Luis Panero, Poemas, tradução e prefácio de Joaquim Manuel Magalhães, Lisboa, Relógio D’Água, 2003.

Peter Sloterdijk, A Mobilização Infinita. Para uma crítica da cinética política, trad. Paulo Osório de Castro, Lisboa, Relógio D’Água, 2002.

António José Forte, Uma Faca nos Dentes, prefácio de Herberto Helder, Lisboa, Parceria A. M. Pereira, 2003.

Benjamin Péret & Witold Gombrowicz, Contra os Poetas, trad. Júlio Henriques, Lisboa, Antígona, 1989.

 

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Categorias: Crónica, Cultura

Acerca do(a) Autor(a) do artigo

Diogo Martins

Diogo Martins nasceu em 1986 e é natural de Nine, do concelho de Vila Nova de Famalicão. Doutorado em Teoria da Literatura pela Universidade do Minho, iniciou em 2017 um projeto de pós-doutoramento intitulado "Ousar corromper: (o)caso retratístico em Rui Nunes". Interessa-se por poesia, literatura, cinema e fotografia, e mais ainda pelas relações entre estas e outras artes.

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