João Palhares

Lucky Star | Um verão de amor (1951) de Ingmar Bergman

Lucky Star | Um verão de amor (1951) de Ingmar Bergman

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Um Verão de Amor de Ingmar Bergman (o belo título original é Sommarlek) é um dos filmes mais amados por João Bénard da Costa. “O mais belo dos filmes” tem direito a lugar de relevo no segundo volume de “Os Filmes da Minha Vida”.

A expressão “O mais belo dos filmes” é explicada por Jean-Luc Godard num dos seus textos fundamentais para os Cahiers du Cinéma, “Bergmanorama”, em que escreveu que “há cinco ou seis filmes na história do cinema que se apetece criticar dizendo apenas, ‘é o mais belo dos filmes.’ Porque não há elogio mais belo. Na verdade, porque é que se há-de dizer mais sobre TabuViagem em Itália ou Le Carrosse d’or? Como a estrela do mar que se abre e se fecha, eles sabem revelar ou esconder o segredo de um mundo de que são o único receptáculo e também o fascinante reflexo. A verdade é a verdade deles. Eles carregam-na profundamente em si mesmos, e no entanto o ecrã rasga-se a cada plano para a semear aos quatro ventos. Dizer deles, ‘é o mais belo dos filmes’, é dizer tudo. Porquê? Porque é assim. E só o cinema se pode permitir esta espécie de raciocínio infantil sem falsas vergonhas. Porquê? Porque é o cinema. E porque o cinema é suficiente só por si. Para gabar os méritos de Welles, Ophüls, Dreyer, Hawks, Cukor, e até Vadim, só se precisa de dizer, ‘é cinema.’ E quando o nome de grandes artistas dos séculos passados vem por comparação sob a nossa pena, não queremos dizer mais nada. Por outro lado, imagina-se um crítico a louvar o último romance de Faulkner dizendo: é literatura; ou o último Stravinsky ou Paul Klee dizendo: é música, é pintura? E ainda menos com Shakespeare, Mozart or Rafael. Nunca ocorreria a um editor, mesmo Bernard Grasset, lançar um poeta com o slogan: isto é poesia! Mesmo Jean Vilar, quando trouxesse de volta Le Cid, não sonharia em anunciá-lo em posters como: isto é teatro! Enquanto que ‘isto é cinema!’ é mais do que uma palavra-passe, é o grito de guerra tanto do promotor de filmes como do cinéfilo. Em suma, não é certamente o menor dos privilégios do cinema atribuir a sua própria existência como a sua justificação, e retirar ao mesmo tempo a sua estética da ética. Cinco ou seis filmes, disse eu, + 1, porque Um Verão de Amor é o mais belo dos filmes.”

Já Ingmar Bergman explicou a génese do filme na sua segunda auto-biografia, Bilder, dizendo que “Um Verão de Amor tem uma longa história. Vejo agora que a sua origem se encontra numa aventura amorosa bem comovente que tive num Verão quando a minha família residia na ilha de Ornö. Tinha dezasseis anos e, como sempre, estava encalhado com estudos acrescidos durante as minhas férias de Verão e só podia participar ocasionalmente em actividades com gente da minha idade. Além disso, não me vestia como eles; era magro, tinha acne, e gaguejava sempre que quebrava o meu silêncio e olhava para cima ao ler Nietzsche.

“Era uma vida fantástica de indolência e auto-indulgência numa paisagem prístina e sensual. Mas como disse, estava bastante sozinho. Na extremidade desta suposta Ilha do Paraíso, na direcção da baía, vivia uma rapariga que também estava sozinha. Cresceu um amor tímido entre nós, como acontece muitas vezes quando dois jovens solitários se procuram um ao outro. Ela vivia com os pais numa casa grande e estranhamente inacabada. A mãe dela era de uma beleza um pouco desvanecida, mas fora do comum. O pai dela tinha tido um acidente vascular cerebral e sentava-se imóvel na grande sala de música ou no terraço virado para o mar. Vinham senhoras e senhores importantes em visitas para ver e admirar o exótico jardim de rosas. Na verdade, foi um bocado como entrar directamente num dos contos de Tchehov.

“O nosso amor morreu quando chegou o Outono, mas serviu como base para o conto que escrevi no Verão depois dos meus exames. Quando fui para a Svensk Filmindustri para trabalhar como escravo de argumentos, recuperei-o e poli-o para guião cinematográfico. Estava emaranhado em si mesmo e cheio de flash-backs, dos quais não conseguia sair. Escrevi várias versões, mas nada batia certo. Depois, Herbert Grevenius veio em meu socorro. Cortou os episódios supérfluos todos e conseguiu arrancar a história original. Graças aos esforços dele, consegui que o argumento fosse finalmente aprovado para produção.”

No Dictionnaire, Jacques Lourcelles escreve que Um Verão de Amor é “um dos filmes mais maduros e mais bem conseguidos de Bergman. (Eles pertencem na sua maioria à primeira parte da sua obra, antes de O Sétimo Selo.) Uma temática bem pouco original é ilustrada com uma grande coerência formal, obtida a partir de elementos dramática e filosoficamente díspares. A lembrança da claridade do primeiro amor é invadida por signos maléficos e fúnebres que teriam todas as chances de engolir a sua heroína na altura da sua lamentação, se a sua força instintiva (extraída da sua feminidade) e também a sua capacidade de esquecimento não a tivessem protegido. Mas o esquecimento tem um tempo apenas. Nos dias de hoje, no silêncio íntimo da sua meditação (provocada pela leitura do diário do seu primeiro amante), para ela já não se trata de esquecer, de apagar o passado, mas em vez disso de o fazer voltar à superfície para o exorcizar. Com a descoberta pessimista de um mundo sem Deus (que escandalizou até à blasfémia a adolescente que ela era) sucede-se, depois de uma passagem pelo vazio e de uma certa morosidade, um optimismo confuso em que a ausência de Deus é compensada por um consentimento com o amor temporal na sua precariedade e nas suas imperfeições. O uso dos interiores (os bastidores ruidosos do teatro, o camarim silencioso onde a dançarina limpa a maquilhagem) e dos exteriores (o resplendor paradisíaco da água: espelho da fugacidade da felicidade e lugar trágico da aparição da angústia) traduz os estados de alma sucessivos e transitórios da heroína com uma sóbria maestria. Interpretação notável de Maj-Britt Nilsson, sintetizando com uma unidade perfeita os dois momentos e os dois estados da sua personagem até esta se transformar numa terceira personagem, mais desencantada, mas também mais experiente no que se poderia chamar «o árduo ofício de viver».

Um Verão de Amor de Ingmar Bergman (o belo título original é Sommarlek) é um dos filmes mais amados por João Bénard da Costa a que o Lucky Star – Cineclube de Braga se tem dedicado e continuará a dedicar até ao final de Junho no Ciclo que o homenageia. “O mais belo dos filmes,” com direito a lugar de relevo no segundo volume de “Os Filmes da Minha Vida”, que foi a última sessão do Lucky Star na Casa do Professor, é muito especial.

Um Verão de Amor (1951) de Ingmar Bergman – trailer 

“BIBLIO: argumento e diálogos in Bergman: «Oeuvres». Robert Laffont, 1962.”

Obs: Este artigo foi originalmente publicado na página do Lucky Star – Cineclube de Braga sob o título 124ª sessão: dia 21 de Março (Quinta-Feira), às 21h30 tendo sofrido ligeiras adequações na presente edição.

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Categorias: Cultura

Acerca do(a) Autor(a) do artigo

João Palhares

Natural do Porto, João Palhares editou os dois únicos números da revista portuguesa Cinergia, colaborando ainda com revistas estrangeiras como a italiana “La Furia Umana” ou a “Foco – Revista de Cinema”, do Brasil. Em 2015, fundou o Lucky Star com José Oliveira, cineclube em que também programa e para o qual escreve folhas de sala, colaborando ainda com traduções. Foi colaborador do site “À Pala de Walsh” entre 2012 e 2015.

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