Tiago Alves Costa

Poesia | É a noite doutor

Poesia | É a noite doutor

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É a noite doutor       é a noite que dói

sim, pode revistar a distância que vai do meu interior ao benefício da dúvida

pode revistar que já nada tenho a esconder,

já nem a carteira levo

nem o instinto, que sempre carreguei ao ombro

em dias sem tempo

nem o taful do meu outro eu

que fugiu,

assim que viu a radiografia a provar

que ele também era culpado

 

Se dói quando inspiro?

 

Dói quando isto está desabitado por dentro, doutor

quando o sonho se parece aqueles aeroportos a uma segunda à noite

onde chegamos e partimos mas nunca ficamos

para contemplar os aviões

 

tanto avião doutor       tanto avião

 

Ai      ai doutor, claro que dói!

Aí: mesmo ao lado de onde um dia alguém irá perguntar: de quem era?

logo acima de onde em pequeno

só a minha Mãe chegava

 

Por favor não insista doutor,

entenda de uma vez por todas

que uma coisa é a dor doer para dentro

e outra é doer para fora

entenda… que uma é o método científico

e outra é chegar aqui com um Isso Não Deve Ser Nada

e sair com um É Assim a Vida

 

Eu acalmo-me       eu acalmo-me doutor

mas não me pressione assim na noite dessa forma

como se estivesse à procura de um coração no caixote do lixo,

como se nos conhecêssemos desde pequeninos

 

como se eu já estivesse morto!

 

Eu estou morto, doutor? Ah?

 

Eu não estou morto

aqui quem manda ainda é o meu corpo      veja!   (mexeu na imagem)

foi ele quem hoje me arrastou até aqui

é ele quem continua a pagar as contas do sonambulismo precoce

é ele quem repõe a ordem,

quando eu quero ir para lá das órbitas da madrugada

 

Olhe que a cisma doutor

faz aumentar tudo ao que o corpo respeita

não venha agora dizer que é impressão minha

quando eu sei bem o que aí está escrito:

 

…………………………….ESTA VIDA E MAIS SEIS MESES

 

Mas eu aponto… aqui, na mão de todos os significados

não vá eu chegar a casa ainda vivo

e esquecer a razão do lado de fora da chuva

que está prevista para o final do ano

 

Ai doutor    dê-me ouvidos de uma vez

 

é a noite é a noite que dói

 

**

Obs: Este poema foi originalmente publicado no livro Mecanismo de Emergência.

***

Andrew Thomas Huang, artista e cineasta, graduou-se em Belas Artes. A sua curta metragem Solipsist, de que um frame ilustra o poema de Tiago Alves Costa, foi vencedora do festival Slamdance de 2012 na categoria de filmes experimentais. Trata-se de “uma experiência visual única e cheia de contrastes, com cores que fazem os olhos saltar por tamanha beleza vista. Uma obra deslumbrante, magnífica e surreal”, assim se refere ao filme Ralyne no blogue O Coração de Alexandria.

Imagem: Solipsismo (screenshot) de Andrew Thomas Huang

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Categorias: Cultura, Destaque

Acerca do(a) Autor(a) do artigo

Tiago Alves Costa

Tiago Alves Costa nasceu em 1980, Vila Nova de Famalicão. É escritor e editor. Estudou Publicidade e Pós-Graduou-se em Criatividade e Inovação pela Tompkins Cortland Community College (E.U.A). Autor dos livros W.c constrangido (2012) e Mecanismo de Emergência (2016). Alguns dos seus poemas foram antologizados e traduzidos para castelhano e inglês. É membro da Associação Galega da Língua (AGAL). E o primeiro português a fazer parte da Associação de Escritoras e Escritores em Língua Galega (AELG). Colabora activamente como escritor e editor na revista literária [sem] Equívocos e na plataforma digital de Arte e Pensamento Palavra Comum. Em 2017 recebeu a Menção Honrosa do Prémio Internacional Glória D´Santanna pelo seu livro Mecanismo de Emergência (Através Editora, selo da Associação Galega da Língua). Vive actualmente na cidade da Corunha.

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