João Palhares

Lucky Star | A Senhora Oyu (1951) de Kenzi Mizoguchi

Lucky Star | A Senhora Oyu (1951) de Kenzi Mizoguchi

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O quarto filme de Kenji Mizoguchi exibido pelo Lucky Star foi um filme de João Bénard da Costa na medida em que Mizoguchi é um dos cineastas de João Bénard da Costa. A Senhora Oyu é um “filme que faz tanta pena”, “filme entre o tarde e o cedo”.

Em texto para a Retrospectiva Mizoguchi na Bienal de Veneza de 1980, Jean Douchet escreveu que “a obra de Mizoguchi pertence à corrente naturalista. Através dos seus meandros e das suas investigações em direcções diferentes, procura apenas um objectivo: alcançar a perfeição da representação do real. Para isso, Mizoguchi não filma a acção, mas a ideia da acção. Ao rever a integralidade do que resta desta obra, constatamos que no seu desenvolvimento:

“a) a concepção do enquadramento não muda. Vai-se suavizar, claro, aperfeiçoar-se-á, às vezes vai-se complicar, mas a linha do desenho encontra a sua precisão e a sua força a partir dos primeiros filmes. Não há diferenças capitais na construção do plano entre Furusato no uta (1925) e Rua da Vergonha (1956);

“b) a pintura das personagens, por outro lado, evolui de forma sensível. A paleta do pintor fica cada vez mais fina, subtil e delicada durante o desenvolvimento da obra. No início manifesta-se a predilecção do cineasta pelas situações fortes, às vezes mesmo próxima do excesso melodramático que vai conservar até ao fim da sua vida. Mas as personagens são sacrificadas em relação às situações. Servem-lhe apenas de apoio. Percebe-se muito rápido (desde Fujiwara Yoshie no furusato em 1930) que isso aborrece Mizoguchi. Quer dar uma vida própria e independente às suas personagens, captar apenas as suas mais pequenas reacções. É preciso que a situação se eclipse em prol da verdade do ser humano, que a sua força engrandeça a sua fraqueza, que se esqueça o desenho pela única ressonância afectiva dos sucessivos toques pictóricos.”

Nas fabulosas Souvenirs de Kenji Mizoguchi, o argumentista do filme, Yoshikata Yoda, conta a criação d’ A Senhora Oyu, confessando que “(…) tinha discussões tempestuosas com Mizo-san sobre as relações entre o cinema e a literatura. Geralmente, um filme trai o romance. Era o caso do Retrato da Senhora Yuki. Traduzir a pureza e a sinceridade de uma mulher cujo amor e desejo são partilhados entre dois homens é uma coisa difícil no cinema. Apesar disso, nós continuávamos obstinados com A Senhora Oyu (1951). No romance original, Ashikari de Junichiro Tanizaki, o autor não se apega à descrição concreta da heroína O-Yu-sama, senão para dizer que ela tem um rosto de pequena boneca que evoca o de uma deusa e pequenos pés gentis. Ora, para o filme, era preciso que a actriz Tanaka Kinuyo incarnasse de forma muito «física» esta personagem aliás intencionalmente velada de mistério. No romance, O-Yu-sama é uma mulher de uma ingenuidade doce, gentil e indiferente. Mas esta indiferença esconde um espírito subtil e muito desperto. Precisava de construir o drama em torno de Shinnosuke (o amante), Oshizu (a criada de quarto) e a própria O-Yu-sama. Tarefa difícil, fazer com que o público aceitasse este triângulo.

“No romance, a história é contada sob o ponto de vista de um velho homem que o autor finge ter conhecido. As memórias dele mantiveram o espanto do olhar de criança que era na altura. Na verdade, a construção tem três movimentos, três regressos ao passado. Era preciso conservar o carácter onírico da lembrança no filme. Portanto insisti sobre esse aspecto narrativo para que esta busca pelo tempo que foge reforçasse o mistério. Mas esses flashbacks sobrepostos foram recusados de forma impiedosa por M. Kawaguchi, o director do estúdio de Quioto da Daiei. Arriscávamos um falhanço comercial. Mas arrependo-me muito.

“Havia outra dificuldade: No romance, O-Yu-sama era demasiado estática e plácida – mas não podíamos demolir facilmente essa tendência romanesca. Mizoguchi estava aborrecido. Para mais, Kinuyo Tanaka coincidiu mal com a ideia que se podia fazer de O-Yu-sama. Ela tinha carácter. A interpretação dela deformou a imagem da heroína e fez com que não a distinguíssemos mais de Oshizu, a sua criada de quarto. Não eram mais do que duas amantes de Shinnosuke.”

Para o Libération, em 1983, Serge Daney escreveu que “em 1951, entre Retrato da Senhora Yuki e A Senhora de Musashino (ambos interpretados por Tanaka), Mizoguchi trabalhava nos seus mais belos retratos de mulheres. Amores contrariados ou impossíveis, bovarysmos das mulheres, baixeza dos homens. Está sempre do lado das mulheres, nunca do dos homens. A este respeito, A Senhora Oyu é um filme que resume os outros, como um teorema que inclui todas as «hipóteses» mas continua excepcionalmente misterioso em si mesmo. Há um homem, o gentil e desarmado Shinnosuke (Hori Yuji). Há a Senhora Oyu primeiro como viúva (um bocado) frívola e depois renunciante. Mas a história não são eles. Nem é por eles que ela se mantém. É a terceira personagem, Shizu (Otawa Nobuko) que conta. É o intermediário que está no centro. Shizu ama Shinnosuke (pelo menos é o que ela diz) mas vendo este apaixonado por Oyu, propõe-lhe este incrível contrato: o casamento deles permanecerá branco e vão viver os três juntos, desde que ele «faça a irmã dela feliz». Porque Shizu tem apenas um desejo: ficar com eles, entre eles, ser a sua «irmã mais nova». A primeira parte do filme, é esta estranha vida a três, de que se começa rápido a falar mas em que a frustração sexual está no nível máximo, apesar de um bom humor aparente.

“A segunda parte começa com a morte da criança de Oyu. De volta ao princípio de realidade, ela aceita casar-se com um velho fabricante de saqué e desaparecer da vida do jovem casal, que está a morrer. Muda tudo muito rápido: Shizu dá uma criança a Shinnosuke e depois morre. Uma noite, Oyu, negligenciada pelo seu novo marido, dá um concerto ao ar livre, fazendo-se ouvir os gritos de um recém-nascido nos juncos. É Shinnosuke que acaba de abandonar o seu filho com uma carta para Oyu. Esta criança de substituição é o único vestígio de união entre as três personagens separadas para sempre. É um pequeno símbolo que se lamenta.

“Esta história não foi inventada por Mizoguchi. De resto, ele nunca inventou, exigindo aos seus argumentistas (sobretudo de Yoda, Yoshikata, o seu bode expiatório favorito) que adaptassem romances clássicos e modernos. Desta vez, Yoda atacou «Um corte de juncos», uma das duas novelas de Tanizaki, reunidas mais tarde sob o título de «Dois amores cruéis». Em Tanizaki, a personagem do homem estava mais no centro da história. Na adaptação de Yoda-Mizoguchi, o centro está vazio ou antes ocupado por uma personagem, Shizù, que aceitou extrair todo o seu prazer do simples facto de estar entre. Faz todo o sentido. Mizoguchi sempre procurou compreender o que ligava os humanos entre si. O dinheiro, o desejo, a filiação. Tentou o impossível: filmar essas ligações enquanto tais, como vestígios de união.”

 

A Senhora Oyu foi exibido pelo Lucky Star – Cineclube de Braga, na Casa do Professor, no passado dia 14 de março, integrando o Ciclo João Bénard da Costa.

Este artigo foi originalmente publicado na página do Lucky Star – Cineclube de Braga tendo sofrido ligeiras adequações para a presente edição.

 

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Categorias: Cultura

Acerca do(a) Autor(a) do artigo

João Palhares

Natural do Porto, João Palhares editou os dois únicos números da revista portuguesa Cinergia, colaborando ainda com revistas estrangeiras como a italiana “La Furia Umana” ou a “Foco – Revista de Cinema”, do Brasil. Em 2015, fundou o Lucky Star com José Oliveira, cineclube em que também programa e para o qual escreve folhas de sala, colaborando ainda com traduções. Foi colaborador do site “À Pala de Walsh” entre 2012 e 2015.

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