Daniel Faria

Espiritualidade | O pai esquecido de Jesus

Espiritualidade | O pai esquecido de Jesus

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No calendário litúrgico cristão, o dia 19 de março é dedicado a José, companheiro e marido de Maria e pai de Jesus. Trata-se de uma oportunidade privilegiada para refletir sobre o papel espiritual de José.

Juntamente com Maria, José manifesta a plena humanidade de Jesus, que não contradiz a convicção de fé de que a existência, de Jesus se explica, em última instância, a partir de Deus, à semelhança de cada um de nós.

A este respeito, é importante referir que o próprio Joseph Ratzinger, o papa emérito Bento XVI, escreveu em 1969: “A filiação divina de Jesus não se baseia (…) no facto de Jesus não ter pai humano; a doutrina da divindade de Jesus não seria posta em causa se Jesus fosse o fruto de um casamento normal.”

Com efeito, uma grande parte dos cristãos primitivos partilhavam a convicção de que Jesus era o filho de Maria e José, considerando que isto não colocava minimamente a sua fé em Jesus como Messias anunciado pelos profetas do Antigo Testamento, glorificado e exaltado por Deus.

Nas últimas décadas, diversos investigadores tem revelado esta dimensão esquecida do cristianismo primitivo. Geza Vermes, um dos mais ilustres especialistas mundiais das Escrituras bíblicas (canónicas e apócrifas), escreveu um dia:

“Na versão definitiva das genealogias, tanto Mateus como Lucas insinuam, que apesar de tudo aparentar o contrário, José não era de facto o pai do filho de Maria. As palavras do texto tradicional de Mateus (4:16) tentam fugir ao problema: «Jacob gerou a José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, que se chama Cristo.» Todavia, vários testemunhos textuais, alguns manuscritos e a tradição em siríaco do Sinai, afirmam que José era o pai de Jesus: “José, a quem estava prometido a virgem Maria, gerou a Jesus, que é chamado o Cristo.” O «Diálogo entre Timóteo e Áquila», de origem grega, que apresenta uma discussão entre um judeu e um cristão, confirma de modo sucinto, que «José gerou a Jesus, que era chamado o Cristo».(…) A propósito, a ideia de José ser o o pai natural de Jesus era professada pela antiga comunidade judaico-cristã dos ebionitas.”

Os próprios evangelhos canónicos também fazem referências a Jesus como o filho de José ou o filho do carpinteiro (Mc.6:3; Mt.13:55; Lc.4:22; Jo. 6:42).

Segundo as Escrituras bíblicas, José é um “homem justo”. A sua justiça emana da sua retidão interior, do acolhimento do dom da fé, e da elevada adoração para com Deus e do profundo afeto que ele tinha pelos seres humanos que partilhavam a sua vida, nomeadamente Maria, a sua amada companheira, e os seus filhos.

Nos Evangelhos do Novo Testamento, não faltam referências aos irmãos de Jesus e até chega a enunciar-se o número dos mesmos. De acordo com os evangelistas Marcos, Mateus e Lucas, os irmãos chamavam-se Tiago, José, Simão e Judas e existiam pelo menos duas irmãs, cujos nomes não são mencionados. Segundo a tradição cristã primitiva, as irmãs chamavam-se Maria e Salomé.

A conduta de José é características dos grandes indivíduos, de que nos fala a Bíblia, escolhidos e chamados por Deus para missões importantes.

Embora se considerassem pequenos, fracos e indignos, aceitavam e realizavam a missão, confiando em Deus como Fundamento da Existência e do Universo.

José não procurou os seus interesses, mas colocou-se inteiramente ao serviço dos que amava. O seu amor pela esposa, Maria, visava servir a vocação a que ambos tinham sido chamados. Deste modo, o casal chegou a uma união amorosa admirável, donde brotava uma enorme felicidade, inclusive nas situações mais adversas. Era a perfeição do amor, na sua dimensão mais elevada.

O amor de José por Jesus e pelos demais filhos era singular. Para José, os filhos não eram uma espécie de propriedade a quem impunha uma autoridade e afeto tirânico, como, não raras vezes acontece. Considerava-os como seres que deveriam crescer, em graça e sabedora, com a cooperação essencial dos pais.

Os Evangelhos revelam Jesus como um ser cheio de cheio de amor, compaixão, bondade e sabedoria.

É mais do que provável que ele foi uma criança que vivenciou amor, compaixão, bondade e sabedoria na sua família.

Os seus progenitores, Maria e José, foram em grande parte os responsáveis pela forma amorosa e ternurenta como Jesus encarava a relação entre a pessoa humana e o grande Mistério do Universo, da Vida e do Amor, a quem ele designava carinhosamente de Abba, que significa simplesmente papá.

 

Imagem: Velásquez [Sagrada familia del pajarito (1650)]

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Categorias: Crónica, Cultura

Acerca do(a) Autor(a) do artigo

Daniel Faria

Nasceu em 1975, em Vila Nova de Famalicão. Licenciado em Sociologia das Organizações pela Universidade do Minho e pós-graduado em Sociologia da Cultura e dos Estilos de Vida pela mesma Instituição. É diplomado pelo Curso Teológico-Pastoral da Universidade Católica Portuguesa. Em 1998 e 1999, trabalhou no Centro Regional da Segurança Social do Norte. Desde 2000, é Técnico Superior no Município de Vila Nova de Famalicão. Valoriza as ciências sociais e humanas e a espiritualidade como meios de aprofundar o (auto)conhecimento, em sintonia com a Natureza e o Universo. Dedica-se a causas de voluntariado. É autor do blogue pracadasideias.blogspot.com e da página Espiritualidade e Liberdade.

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