Daniel Faria

Biografia | Hipátia, a última grande filósofa da Antiguidade Clássica

Biografia | Hipátia, a última grande filósofa da Antiguidade Clássica

 

 

 

8 de março de 415. Alexandria, Egito, então província do Império Romano do Oriente. Uma multidão de fanáticos atacou e matou de forma bárbara uma mulher. O seu nome era Hipátia, filósofa, matemática e astrónoma, uma das mulheres mais fascinantes da Antiguidade Clássica e da História da Humanidade.

 

Alexandria na época de Hipátia

Hipátia nasceu em 355 em Alexandria, uma das maiores metrópoles do mundo de então, com um milhão de habitantes. Fundada em 331 A:C. por Alexandre Magno, prestigiada pela Biblioteca, pelo Museu (um grande centro filosófico e científico) e pelos seus templos. Mas também era um centro da maior importância para o judaísmo e o cristianismo. Em Alexandria, localizava-se a maior comunidade judaica fora da terra bíblica de Israel, na qual foi feita a tradução das Escrituras Hebraicas (o Antigo Testamento) da língua original para o grego, então a língua internacional por excelência. Por seu turno, Alexandria acolhia também uma comunidade cristã forte e vigorosa, merecendo destaque a célebre Escola Catequética de Alexandria, porventura o principal centro de pensamento teológico do cristianismo dos primeiros séculos.

Na sua qualidade de capital do Egito, uma das principais possessões romanas, era governada por um prefeito nomeado diretamente pelo Imperador.

Em 395, com a morte do imperador Teodósio, o Império Romano foi definitivamente dividido em dois: o Império Romano do Ocidente, com capital em Roma, e o Império Romano do Oriente, com capital em Constantinopla.

A vida e obra de Hipátia

Hipiatia foi criada num ambiente marcado pela filosofia e pelas ideias. O seu pai, Théon, bibliotecário da Biblioteca de Alexandria, era um estudioso do Museu, conhecido pelos filósofos e cientistas ilustres, nomeadamente os seguintes: Euclides (360-295 A.C.) , Eratóstenes de Cirene (276-194 A.C.), Arquimedes de Siracusa (287-212A.C..), Apolónio de Perga (262-194 A.C.), Aristarco de Samos (310-230 A.C.), Hipsicles (190-120 A.C.), Héron de Alexandria (10-80), Nicómano (60-120), Menelau de Alexandria (70-130), e Ptolomeu de Alexandria (90-168).

Teve uma formação multidisciplinar, englobando filosofia, matemática, astronomia, religião, poesia, artes, oratória e retórica.

Valorizando o ideal helenístico de uma mente sã num corpo são, submetia-se quotidianamente a uma rigorosa disciplina física.

Na sua juventude, esteve em Atenas, de modo a aprofundar a sua formação na Academia, fundada por Platão. Destacou-se pela dedicação para unificar a matemática de Diofanto com o neoplantonismo de Amonio Sacas e Plotino, mediante a aplicação do raciocínio matemático ao conceito neoplatónico do Uno, que se refere ao Divino, dado que a sua principal característica é a indivisibilidade.

Hipátia detinha uma grande autoridade ética. As generalidades das fontes históricas descrevem-na como um modelo de coragem ética, retidão, veracidade, dedicação cívica e elevação intelectual. A virtude mais venerada nela pelos contemporâneos era a sua sophrosyne, um estado de espírito caraterizado peto autoconhecimento, que enquadrava tanto a sua conduta social como as suas qualidades interiores. Manifestava-se através na moderação do modo da vida, na modéstia, e na dignidade da atitude que mantinha tanto perante os seus alunos como perante os que tinham posições de poder.

Hipátia valorizava o amor pela sabedoria na sua diversidade e a liberdade de espírito. Daí ter na sua escola alunos pagãos, cristãos e judeus. Entre os seus alunos cristãos, merecem ênfase

Sinésio, bispo de Plotemais, cidade situada na Cirenaica (atual Líbia) e Orestes, prefeito de Alexandria.

Sinésio estabeleceu uma correspondência frequente com Hipátia, à qual se dirigia como “minha mae, minha irmã e benfeitora minha”. Através destas cartas, sabemos que Hipátia desenvolveu alguns instrumentos usados na Física e na Astronomia, entre os quais o hidrómetro. Sabemos também que desenvolveu estudos sobre a Álgebra de Diofanto (“Sobre o Cânon Astronómico de Diofanto”), tendo escrito um tratado sobre o assunto, além de comentários sobre os matemáticos clássicos, incluindo Ptolomeu. Em parceria com o pai, escreveu um tratado sobre Euclides. Ficou famosa por ser uma grande solucionadora de problemas matemáticos e filosóficos.

Focada no processo de aprofundamento e transmissão da sabedoria, quando lhe perguntavam a razão por que não casara, respondia que já era casada com a Verdade.

O caminho para a tragédia

Hipátia viveu numa época marcada por transformações profundas, que marcaram decisivamente o percurso histórico da Humanidade.

O reinado de Teodósio (379-395), o último imperador a governar um Império Romano unido, marcou o auge da transformação do cristianismo, que se tornou na religião oficial do Império, de uma forma cada vez mais exclusivista.

Em 24 de novembro de 380, Teodósio promulgou o Edito de Tessalónica, que consagrou o cristianismo definido pelo Concílio de Niceia como a única religião oficial. Com este diploma, a liberdade religiosa prometida por Constantino através do Edito de Milão de 313 foi posta de parte. Não foram somente as diversas formas de paganismo que foram ilegalizadas. As próprias correntes do cristianismo que não se identificavam com a ortodoxia definida em Niceia, como o gnosticismo e o arianismo, foram marginalizadas. Embora continuasse a ser tolerado, o estatuto jurídico do judaísmo foi desvalorizado.

Estava dado o mote para promover a intolerância, a autocracia e a perseguição das ideias consideradas adversas pelos poderes instituídos.

Em 391, o templo de Serápis e a sua famosa biblioteca foram destruídos por uma multidão instigada pelo patriarca Teófilo.

Com a ascensão de Cirilo ao cargo de patriarca de Alexandria, em 412, a violência contra os pagãos, os judeus e os cristãos considerados heréticos ou dissidentes tornou-se cada vez mais frequente.

A comunidade judaica, constituída por 40.000 pessoas, foi expulsa, após um conjunto de incidentes violentos. Os cristãos que não concordavam com as ideias e as práticas de Cirilo também foram perseguidos, dentro e fora de Alexandria.

O prefeito imperial, Orestes, antigo de Hipátia, tentou restabelecer a ordem pública e enfrentou diretamente o cada vez mais poderoso patriarca. Frequentemente, procurava o conselho de Hipátia, nos assuntos governamentais, o que provocou a fúria de Cirilo contra a filósofa.

Em março de 415, uma multidão de monges apoiantes de Cirllo, conhecidos como parabolanos, atacaram Hipátia á porta de sua casa. Arrastaram-na para o interior de uma igreja, despiram-na e torturavam-na até à morte com conchas e pedaços de telha. Por fim, queimaram os seus restos mortais.

O legado

A vida filosófica de Alexandria não se apagou completamente com a morte de Hipátia. Filósofos e cientistas continuaram os seus estudos na Antiguidade tardia. Muitas mulheres dessa época dedicaram-se à filosofia, e, entre elas, Sosípatra foi uma filósofa influente da Antiguidade tardia, que ensinou filosofia em Pérgamo, na atual Turquia. No século V, muitas outras pagãs e cristãs sábias viviam em Alexandria, entre as quais: a filósofa Asclepigénia, filha de Plutarco; Edésia, filósofa e mãe de filósofos; Santa Teodora, Eugénia e Santa Maria Egipcíaca.

Mas a morte de Hipátia foi um marco fortemente negativo da História da Humanidade. Marcou o triunfo da intolerância contra a diversidade, da autocracia contra a liberdade, das trevas contra a luz.

Na sua obra magistral “Cosmos”, Carl Sagan analisa desta forma lúcida a morte de Hipátia e as suas trágicas consequências:

“Há cerca de 2.000 anos, emergiu uma civilização cientifica esplêndida, na nossa História, e a sua base era Alexandria. Apesar das grandes oportunidades de florescer, ela decaiu. A sua última cientista foi uma mulher, considerada pagã. O seu nome era Hipátia. Com uma sociedade conservadora a respeito do trabalho da mulher e do seu papel, com o aumento progressivo do poder da Igreja, formadora de opiniões e conservadora quanto às ciências e devido a Alexandria estar sob o domínio romano, após o assassinato de Hipátia, em 415, essa biblioteca foi destruída. Milhares de preciosos documentos dessa biblioteca foram em grande parte queimados e com ela todo o progresso científico e filosófico da época”.

Um contemporâneo de Hipátia, o filósofo Temístio de Pflagónia, tinha feito o seguinte pedido ao imperador Teodósio: “Mesmo sendo um só o verdadeiro e grande juiz, o seu caminho até ele não é único. Seria tentado a dizer que seja o próprio Deus a não aceitar que entre os homens haja uma harmonia total”. O próprio Jesus referiu-se à diversidade de vias para alcançar o Divino quando disse: “Na casa do meu Pai, há muitas moradas”.

Infelizmente, Cirilo, que se considerava a si próprio como paladino do cristianismo, pareceu esquecer-se igualmente de outras palavras sábias de Jesus:

“Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade situada sobre um monte; nem se acende a candeia para a colocar debaixo do alqueire, mas sim em cima do candelabro, e assim alumia a todos os que estão em casa. Assim brilhe a vossa luz diante dos homens, de modo que, vendo as vossas boas obras, glorifiquem o vosso Pai, que está no Céu”.

 

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Categorias: Cultura

Acerca do(a) Autor(a) do artigo

Daniel Faria

Nasceu em 1975, em Vila Nova de Famalicão. Licenciado em Sociologia das Organizações pela Universidade do Minho e pós-graduado em Sociologia da Cultura e dos Estilos de Vida pela mesma Instituição. É diplomado pelo Curso Teológico-Pastoral da Universidade Católica Portuguesa. Em 1998 e 1999, trabalhou no Centro Regional da Segurança Social do Norte. Desde 2000, é Técnico Superior no Município de Vila Nova de Famalicão. Valoriza as ciências sociais e humanas e a espiritualidade como meios de aprofundar o (auto)conhecimento, em sintonia com a Natureza e o Universo. Dedica-se a causas de voluntariado. É autor do blogue pracadasideias.blogspot.com e da página Espiritualidade e Liberdade.

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