Diogo Martins

Dar Coisas aos Nomes | Feliz quem um bom dia sai humilde

Dar Coisas aos Nomes | Feliz quem um bom dia sai humilde

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Do mais recente filme de Leonor Teles (n. 1992), Terra Franca, poderia dizer-se o que mostram os créditos finais: um álbum de fotografias (anterior ao boom digital), no qual o passado, parecendo parco, não se torna decorativo, porque capta o essencial de uma vida, daquela vida, da família Lobo. Uma fotografia do batizado, um par delas num dia de praia, depois o casamento, depois os aniversários. Recordar, aqui, sobrevive ao entulho extenuado das imagens em excesso, sem substância, nem agon: a memória não cansa, não está ainda alienada dos corpos, mas agarrada ao sangue, ao tempo de que se precisa para, efetivamente, pegar num álbum e folheá-lo, deixar-se comover até, sabendo que a história, com agá grande ou minúsculo, ainda não chegara ao fim.

Esta Terra Franca está cheia de boa gente, de gente simples. E não me ocorre, assim de repente, modos mais sofisticados de afirmar essa bondade ou essa simplicidade sem correr o risco de estar a ser condescendente ou paternalista, como quem despeja um boião de açúcar rousseauniano sobre a paisagem humana deste filme. Não há subterfúgios aqui, nem ambiguidades, nem truques. O único artifício acontece enquanto tal: é noite de festa, há fogo lançado ao ar, há música e luzes. O resto, na verdade, é tudo o que há: um homem, Albertino Lobo, que é pescador numa antiga comunidade piscatória à beira Tejo, a sua esposa, as duas filhas, a mais velha a caminho do altar. E o filme, não girando propriamente à volta do casamento, vai acumulando uma peculiar tensão fria, ora mais ora menos consciente, até a essa derradeira celebração: a tensão para quem a vida necessariamente acontece, sem nunca parar, nem mesmo quando é a nossa filha a casar daí a meia dúzia de meses, percorrendo o arco das estações.

A vida é dada a ver, plena e plana. Sem cerimónias, nem peneiras, como uma homenagem que a realizadora decide fazer a Vila Franca de Xira, a sua terra natal, e às pessoas com quem os afetos nascem naturalmente: “Não sei se é tanto descobrir ou explorar as minhas origens”, explica Leonor Teles em entrevista ao Observador; “é mais: está aqui este sítio, é daqui que eu venho, vejam lá também. Mas o que eu vejo mais no meu cinema agora tem que ver com as pessoas e a relação que eu estabeleço com elas. Neste caso com a família do Albertino, com o Albertino, tem mais a ver com isso, com as pessoas que filmo e como através da partilha e do que vivemos, […] a partir da relação das pessoas filmadas, os filmes também nascem”.

O filme que é Terra Franca, com os ares de documental a fazerem luzir a ficção a partir de dentro (de dentro das pessoas, sobretudo, que se comportam como atores da própria vida, alheados da presença da câmara), prova também que Leonor Teles pensa com sobriedade, que leva a sério o que faz. Depois de ter vencido o prestigiado Urso de Ouro no Festival de Berlim, em 2016, com a curta-metragem Balada de um Batráquio, a realizadora soube esperar pelo próximo desafio, soube não fazer por fazer. Daí que Terra Franca seja, por isso, também um filme do tempo, o tempo de que se precisa para que o à-vontade e a confiança com a família Lobo se sintam plenamente em casa, não como hóspedes de passagem, ao jeito de turistas que observam o espaço com a visão de peixes de aquário, mas antes como vizinhos, desses que de tanto nos frequentarem a casa já sabem de cor a gaveta dos panos e o esconderijo da chave.

“Nós filmámos durante dois anos, fomos filmando. Muitas vezes íamos lá e não filmávamos sequer, estávamos só com eles. O filme é o resultado de uma partilha do tempo que estive lá com aquelas pessoas. E isso também ajuda, o tempo ajuda, ajuda as pessoas a confiarem em nós, a merecermos a confiança das pessoas. E eu sabia aqui que o tempo iria ser o meu principal aliado. E foi onde decidi investir, foi no tempo, tinha de ter tempo e disponibilidade para ir e estar com eles. E depois também aconteceu uma coisa, que eu queria desde o início: que eles próprios começassem a participar no filme. Eles sugeriam coisas. Começámos a perceber o que era importante para eles que fizesse parte do filme.” (in Observador)

O peso do filme, da sua consistência narrativa – mas igualmente a sua leveza –, está em Albertino Lobo. No seu rosto, no bigode, no molhar o pão na sopa e noutros gestos que consagram o impiedoso gesso da rotina num milagre libertador em si mesmo. Numa promessa plena de vida que, por si só, justifica a vida que se leva (e o que se leva dela). Pai, marido, pescador. O homem na sua integridade, quando essa integridade é suficientemente luminosa para nos agarrar ao filme e, sem efeitos especiais, nem piruetas ou empoladas retóricas, pôr em cena um super-herói que não busca qualquer sentido para a vida, porque viver é, desde logo, dar ao sentido uma oportunidade de acontecer, de valer por si próprio. Como? Assim. Acordando de madrugada, cosendo as redes de pesca, fumando o cigarro, pegando com a filha, dizendo caralhadas ao almoço: é a vida, não como crime & castigo, não como fatalidade pós-moderna ao reboque de um encolher de ombros e um bocejo, mas a Vida. Plena e plana, cheia e chão. E tudo isto, de repente, adquire uma maior força de verdade quando lido este poema, hoje mesmo descoberto, na antologia Sem Epitáfio, de Claudio Rodríguez:

ALTA JORNA

Feliz quem um bom dia sai humilde

e segue pelas ruas, como em tantos

dias da sua vida, e não o espera

e, súbito, o que é isto?, olha para cima

e vê, encosta o ouvido ao mundo e ouve,

caramba, e sente içar-se entre os seus passos

o amor da terra, e continua, e abre

a sua oficina real, e nas suas mãos

luz limpo o seu ofício, e no-lo entrega

com o coração porque ama, vai ao trabalho

a tremer como um rapaz que comunga,

mas sem caber na própria pele, e quando

se apercebe finalmente do simples

que foi tudo, e já com a jorna ganha,

volta para casa alegre e sente alguém

a segurar-lhe a aldrava, e tem razão.

 

Terra Franca é exibido esta quinta-feira, 28 de fevereiro, às 21:45, no pequeno auditório da Casa das Artes, em Famalicão, pelo Cineclube de Joane.

 

Referências:

Trailer de Terra Franca, de Leonor Teles: https://www.youtube.com/watch?v=FhjkIXJQ5zM.

“‘É daqui que eu venho’: esta é a ‘Terra Franca’ de Leonor Teles”, entrevista concedida a André Almeida Santos, in Observador, 19-10-2018, disponível em https://observador.pt/2018/10/19/e-daqui-que-eu-venho-esta-e-a-terra-franca-de-leonor-teles/.

Poema “Alta jorna”, de Claudio Rodríguez, in Sem Epitáfio, trad. Miguel Filipe Mochila, Língua Morta, 2018, p. 89.

 

Imagens: fotogramas do filme Terra Franca.

 

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Categorias: Crónica, Cultura

Acerca do(a) Autor(a) do artigo

Diogo Martins

Diogo Martins nasceu em 1986 e é natural de Nine, do concelho de Vila Nova de Famalicão. Doutorado em Teoria da Literatura pela Universidade do Minho, iniciou em 2017 um projeto de pós-doutoramento intitulado "Ousar corromper: (o)caso retratístico em Rui Nunes". Interessa-se por poesia, literatura, cinema e fotografia, e mais ainda pelas relações entre estas e outras artes.

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