Diogo Martins

Dar Coisas aos Nomes | Sombras de sombras de sombras

Dar Coisas aos Nomes | Sombras de sombras de sombras

 

 

 

(Texto lido na Biblioteca Municipal de Ródão, do concelho de Castelo Branco, a 25 de janeiro de 2019, no âmbito do projeto “Vidas e Memórias de uma Comunidade: Rebuscar o Tempo”, que tem como objeto de reflexão a identidade, a memória, o património imaterial e as suas possibilidades de mediação artística.)

 

 

Há um ano, na primeira apresentação do livro dizer adeus às coisas, refugiei-me numa formulação de Maria Filomena Molder para expressar, o mais abreviadamente possível, aquilo que para mim representava, por um lado, o trabalho fotográfico do Nuno Leão e, por outro, em sentido mais alargado, a experiência da fotografia tal como a vejo, a intuo e muitas vezes pratico. A experiência da fotografia, ou melhor, o fotográfico enquanto experiência, enquanto extensão de um pensamento sobre o mundo e com o mundo. Maria Filomena Molder disse o seguinte: “Onde eu estava a começar, estava a continuar. Nós só começamos depois de continuar.”

Um ano depois, esta noção do estar-a-meio-de continua a ser profundamente apelativa e igualmente fecunda: a ideia de que a conversa – qualquer conversa – em torno deste trabalho fotográfico do Nuno continua, portanto, a decorrer. Uma conversa que se faz a partir de descontinuidades, de sobressaltos, de acidentes, de intervalos. De interrupções que fazem parte da conversa, que são elas próprias conversa(s), elementos constitutivos de tudo isto que estou aqui a dizer, de tudo isto que o Nuno tem para nos mostrar.

Estar a meio. Ou seja: não há (ou não interessa que haja) um saber prévio que precisemos de dominar para frequentar estas imagens, assim como não existe uma conclusão apaziguante ou um horizonte de sentido no final deste livro. Não há pré-requisitos, nem metas a atingir com estas imagens. Se acaso há tudo isso, é porque isso tudo acontece e se torna funcional na interpretação do observador e do leitor. Como diria George Didi-Huberman, não existe imagem sem imaginação. O que vemos nunca se esgota, nunca se detém, nunca se estabiliza, nisso – fenda no muro, gato em travessia, sombra no chão – que estamos a ver. Se vemos, imaginamos em simultâneo. A imagem acontece no preciso instante em que entra em delírio, em que alucina – e nos alucina.

Ontem, a caminho de Castelo Branco, enquanto lia o último livro de Manuel Gusmão, intitulado A Foz em Delta, 2018, os seguintes versos de um poema fizeram luz. O que é, também, uma perífrase bastante feliz para dizer apenas isto: fotografaram. Fotografaram tudo o que acabei de dizer. E são estes os versos:

 

dar outra vez nomes às coisas

dar outros nomes às coisas mostra-as

a uma luz e segundo uma música diferente.

 

Este dar outro nome às coisas

faz parte da nossa experiência sensível.

«A terra é azul como uma laranja» (Paul Éluard)

A proposição dar outro nome às coisas não me seduziu de imediato pela aparência quase especular com o título dizer adeus às coisas. Muito mais do que isso: acredito que dar outro nome às coisas é a causa e o efeito da intenção de fotografar. Dar outro nome às coisas ou dar das coisas outras imagens – e até outras coisas. Outras coisas que existem desde já, desde sempre, nas coisas habituais, nas coisas mais próximas, aparentemente menos extraordinárias. Uma fotografia permite isso: por um lado, fazer ver nos objetos algo de inesperado, algo que interrompe um olhar que a rotina e o hábito tendem a domesticar, a entorpecer. Por outro, restitui às coisas, ou sublinha nessas coisas, ou reafirma nessas coisas, o que nelas já existe de inesperado. Como alude o poeta Carlos Poças Falcão, no seu último livro Sombra Silêncio (2018):

 

O fotógrafo trabalha num recorte de penumbras

captando (capturando) espectros luminosos

silêncios fugidios, movimentos, corpos tensos

expostos numa sombra de uma sombra de uma sombra.

 

É essa a diferença instaurada pelo olhar de quem fotografa (e de quem seleciona, entre mil e umas possibilidades, aquilo que de facto tenciona mostrar): a diferença que dignifica e que consagra a própria imagem, não como uma entre um infinito de outras (um infinito tantas vezes caótico, tantas vezes ruidoso, tantas vezes destruidor), mas como aquela imagem que torna visível o próprio real. A substância, visível e invisível, de que é feito o mundo, mesmo quando não estamos a olhar para ele.

E a fotografia, de alguma maneira, faz acontecer isto: expõe um mundo de objetos que continua a existir mesmo quando não estamos conscientes deles. Mesmo quando não os observamos, nem os nomeamos, nem apontamos para eles. Como se o mundo fosse uma imensa conspiração das coisas nas nossas costas – conspirando apenas a sua continuidade depois de nós já cá não estarmos para ver, para dizer que sim, que não, que talvez.

Aposto mais neste “talvez”. E desdobro-o com este breve poema de Roberto Juarroz:

 

As coisas imitam-nos.

Um papel arrastado pelo vento

reproduz os tropeços do homem.

Os ruídos aprendem a falar como nós.

A roupa adquire a nossa forma.

 

As coisas imitam-nos.

 

Mas no final

nós imitaremos as coisas.

Talvez haja alguma justiça poética nisto: nós dizemos adeus às coisas enquanto as próprias coisas nos dizem adeus. E entre cada despedida abre-se esse hiato, desnível, ou intervalo – e é precisamente aí, nesse lugar que não é lugar, nesse instante que não é da ordem do tempo, é , insisto, que a imagem e a imaginação acontecem, que a fotografia fulgura como promessa do real. Do real que, não apenas existe, mas que está sempre à beira de acontecer, de ser inaugural, de ser a primeira vez diante os nossos olhos. E é por aí que vejo, leio e penso as fotografias do Nuno, e é daí que vem o prazer enorme que sinto em partilhar encontros como este com ele e convosco. E é também aí que esta conversa nem começa, nem acaba – mas continua.

Biblioteca Municipal de Vila Velha de Rodão, 25 de janeiro de 2019

 

Referências:

Manuel Gusmão, A Foz em Delta, Edições Avante, 2018.

Carlos Poças Falcão, Sombra Silêncio, Guimarães, Opera Omnia, 2018.

Roberto Juarroz, A árvore derrubada pelos frutos, trad. Rui Caeiro, Diogo Vaz Pinto e Duarte Pereira, Lisboa, Língua Morta, 2018.

Georges Didi-Huberman, Falenas. Ensaios sobre a aparição, 2 (trad. António Preto, Eduardo Brito, Maria Pinto dos Santos, Rui Pires Cabral, Vanessa Brito), Lisboa, KKYM, 2015.

Entrevista pela Vila Nova sobre o livro Dizer adeus às coisas, seguido de Uma teoria da imagem (ou a performance do mundo), de Nuno Leão e Diogo Martins (edição Terceira Pessoa, 2018): https://vilanovaonline.pt/2018/05/13/entrevista-diogo-martins-e-nuno-leao-dizem-adeus-as-coisas-e-projetar-a-performance-do-mundo-tambem-amanha/

Fotografias: Nuno Leão, séries “Ruínas” (2018) e “Campéstico” (2019)

Últimas fotografias: Biblioteca Municipal de Ródão

 

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Categorias: Crónica, Cultura

Acerca do(a) Autor(a) do artigo

Diogo Martins

Diogo Martins nasceu em 1986 e é natural de Nine, do concelho de Vila Nova de Famalicão. Doutorado em Teoria da Literatura pela Universidade do Minho, iniciou em 2017 um projeto de pós-doutoramento intitulado "Ousar corromper: (o)caso retratístico em Rui Nunes". Interessa-se por poesia, literatura, cinema e fotografia, e mais ainda pelas relações entre estas e outras artes.

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