Diogo Martins

Dar Coisas aos Nomes | A poesia faz-se contra a poesia (a propósito de Pessoa/Campos)

Dar Coisas aos Nomes | A poesia faz-se contra a poesia (a propósito de Pessoa/Campos)

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(Para o Brandon, o André, o Hélder, a Inês e a Beatriz. Sim, é para rir.)

 

“Um dia eu, que passei metade / da vida voando como passageiro, / tomarei lugar na carlinga / de um monomotor ligeiro / e subirei alto, bem alto, / até desaparecer para além / da última nuvem”. Assim começa o poema “Posteridade”, de Rui Knopfli, com esta longa e bem-humorada perífrase, como se pelo excesso de palavras pudesse fintar, por diferimento, por ludíbrio retórico, a atenção omnisciente da morte. O poema continua deste jeito: “Os jornais dirão: / Cansado da terra poeta / fugiu para o céu. E não / voltarei de facto. Serei lembrado / instantes por minha família, / meus amigos, alguma mulher / que amei verdadeiramente / e meus trinta leitores. Então / meu nome começará aparecendo / nas selectas e, para tédio / de mestres e meninos, far-se-ão / edições escolares de meus livros. / Nessa altura estarei esquecido.” (in Uso Particular, edição do lado esquerdo, 2017, p. 89)

Eis que o título, pelo desdobramento dos versos, adquire o registo de uma autoparódia: a posteridade do poeta, a sua glória imortal, como no mármore das estátuas gregas que desafiaria a corrosão do tempo e a treva da morte, elevando o homem ao nimbo dos deuses, essa posteridade só é funcional desde que a jactância que lhe é inerente seja assumida com o salutar golpe da ironia. A haver posteridade – memória, veneração, efemérides em honra do autor –, não compete ao poeta outorgá-la. Pelo contrário: deve desconfiar dela, recusá-la à força bruta, hostilizá-la se for preciso. Em nome da poesia.

Falamos, pois, de um poeta da segunda metade do século XX português. A eternidade poética não pode ser entendida senão pelo crivo de um sobrolho franzido e de uma franca risada – porque se é mesmo esse o desejo inconfessado de um poeta neste “tempo sem qualidades” (Musil), então a poesia é um meio para um fim, e não um fim em si mesmo. Por outras palavras: não é poesia, é uma vitrine. E mais: os dispositivos simbólicos ao serviço dessa posteridade – a instituição literária, o cânone, as academias, os grandes aglomerados editoriais – agem contra a própria poesia, assim que esta se eterniza em “manuais escolares”. Diz o poeta: a eternidade é feita de “instantes”; e essa míngua de tempo é preenchida apenas pelos seus “trinta leitores”. É esta a pequena comunidade que bombeia de oxigénio o cadáver moribundo da poesia portuguesa. Trinta leitores empenhados contra um batalhão inumerável de escreventes, com cursos de escrita criativa entrincheirados no currículo e mais não sei quantas menções honrosas.

“Nessa altura estarei esquecido”, remata. “Nessa altura” – quando os seus poemas serviram de pau para toda a obra: aforismos, frases para usar na lapela na Assembleia da República, um sem fim de deturpações, falsificações, encómios e panegíricos, e ainda análises literárias, com toda a sua palha protocolar.

O recente caso sobre a censura de três versos no poema “Ode Triunfal” de Álvaro de Campos, num manual de Português do 12.º ano, é um exemplo notável do tipo de esquecimento ironizado, não sem amargura, por Rui Knopfli. Esquecimento, sublinhe-se, vai aqui muito além do sentido habitual da palavra: esquece-se a poesia quando o seu único propósito é respeitar o programa da disciplina no mínimo tempo possível para que o aluno consiga corresponder ao que é exigido de si durante a realização do exame nacional.

Tempo é dinheiro, na verdade; e a função do dinheiro é fazer-se circular, sem qualquer impedimento, num fluxo imparável. Querer perspetivar o fenómeno poético à luz deste sistema universal (que se pretende irrefutável – alguém que se confesse, hoje, “anticapitalista” é imediatamente alvo de chacota) é cair numa contradição entre termos (por lapso, digitei “entre tempos” na primeira versão deste texto, o que não deixa de ser um erro feliz e metafisicamente apurado): porque ler um poema é fazer acontecer uma determinada natureza do tempo, da experiência do tempo sobre si mesmo, que não pode fazer cedências a fatores externos (horários, planos, exames) sem o risco de se desvirtuar. A poesia existe para restituir ao próprio tempo a sua dignidade, a sua espessura, a sua substância – e isso só faz sentido se a poesia não abdicar do fator atrito, da interrupção que ela abre no tempo homogeneizante e indiferenciador em que vivemos (o tempo do “anything goes”, do tudo-é-igual-a-tudo, da indiferença relativista que, sob o chapéu da “cultura”, abriga um recital de poesia, um desfile de moda e uma feira de artesanato). O tempo da demora, o tempo da espera, o tempo da vida contemplativa: o tempo inscrito na leitura e na partilha de um poema desafia, tem que desafiar, a lógica subjacente ao trabalho enquanto dever, necessidade e cálculo (tudo aquilo que obedece a um percurso linear), para fazer valer, em contrapartida, “a ambivalência, o indistinguível, o discreto, o irresolúvel, o indeterminado, o complexo ou o aporético de uma brusca nitidez” (Byung-Chul Han, O Aroma do Tempo, 2016, p. 131).

Privar um poema extenso como a “Ode Triunfal” de versos onde se lê “Ó automóveis apinhados de pândegos e de putas”, “E cujas filhas aos oito anos – e eu acho isto belo e amo-o! – / Masturbam homens de aspecto decente nos vãos de escada” é sintomático de variadíssimas doenças deste tempo. A começar pela condescendência cínica por parte dos autores do manual em questão: como se um público de nativos digitais entre os 17 e 18 anos não pudesse ler “putas” e um cenário de pedofilia sem com isso entrar em desnorte ontológico. Ou como se, de súbito, o conto de fadas que é a adolescência em 2019 fosse assediado pela pestilência bruta do real, até então desconhecida. Será que estes mesmos adolescentes não estão a par de que, de manhã à noite, nos programas de entretenimento de todos os canais televisivos, tudo quanto é caso de violação, homicídio e abuso de menores é explorado até à exaustação neuronal, com laivos de perversidade inimaginável, enquanto parte integrante do conceito de entretenimento? Não há tempo para refletir sobre isso, muito menos nesses próprios programas – porque há sempre dinheiro a dar, muita gritaria e muitos aplausos. Mais uma vez: o tempo é dinheiro; a morte, também. O funcionamento aditivo deste tipo de programas – uma morte e uma violação e mais um caso de pedofilia, continuando a saga no dia seguinte – encaixa-se de forma harmoniosa na apatia embrutecedora que é expectável nos telespectadores: segundo Peter Sloterdijk, nada menos que “uma forma de consciência que aprendeu a aceitar o escândalo como forma de vida e a catástrofe como ruído de fundo” (Sloterdijk, Crítica da Razão Cínica, 2011, p. 386).

Mas centremo-nos na ode de Álvaro de Campos e no esquecimento a que o mesmo heterónimo é votado. Esse esquecimento é, na verdade, independente deste caso de censura explícita. A exclusão desses versos reforça, tão-só, o modo como o fenómeno poético é encarado à luz de todo um conjunto de práticas, discursos e dispositivos que procuram tornar liso, homogéneo ou indiferenciado seja o fulgor do próprio pensamento sobre as coisas (entre as quais, as coisas poéticas), seja o trânsito entre o espaço da sala de aula e o mundo que lhe é exterior. O que é o mesmo que dizer: a exclusão da Vida da experiência literária, a aniquilação do que na Vida – o que nela há de força, de inesperado, de brutal, de espantoso – dava a Henry Miller a única razão de se devotar à escrita e à leitura: ler autores que falem “da plenitude da vida”, como Dostoiévski, Whitman, Blaise Cendrars ou Jean Giono. Pois “só na plenitude ele [o ser humano] encontrará a realidade” (in Os Livros da Minha Vida, 2006, p. 238).

O poema “Ode Triunfal” existe para subverter e transgredir. Há um contexto que lhe é próprio – a voracidade intransigente e terrorista do futurismo em busca de um tempo novo, com Marinetti (1876-1944) –, sem o qual os enunciados literais dos seus versos – como os três que foram substituídos por pontinhos – perdem a sua energia, ficando reféns dos nossos juízos morais. “A nossa consciência renovada”, declara Marinetti, “impede-nos de considerar o homem como o centro da vida universal. A dor de um homem é, aos nossos olhos, tão interessante como a dor de um candeeiro eléctrico que sofre com sobressaltos espasmódicos e grita com as mais delirantes expressões da cor” (in O Futurismo, ed. Hiena, 1995, p. 118).

Álvaro de Campos (falemos de Campos como lhe convém: como uma personagem mais real do que qualquer figura empírica) exalta o alvor da modernidade técnica, com as suas máquinas infernais, os seus elétricos e transatlânticos, as suas multidões de anónimos, num longo jato verbal, atravessado indisciplinadamente por interjeições, exclamações, onomatopeias, anáforas paralelísticas, enumerações de nos tirar o fôlego (e há que ler jato, também, numa das suas extensões semânticas: o jato de sémen, o signo do êxtase). Há um fascínio vertiginoso pelo caos, pela desagregação das coisas, incluindo filosofias de vida, meta-narrativas, ou a própria figura de Deus. O fascínio pelo choque e pela transgressão de todas as convenções burguesas (o moralismo rígido da família), sem esquecer a rutura do modelo clássico de beleza (tudo o que representar o passado – ou tudo o que ousar representar – deverá ser ultrapassado por uma revitalizante atitude estética: “Um orçamento é tão natural como uma árvore / E um parlamento tão belo como uma borboleta”).

O eu de Campos, quanto mais caótico e disruptivo, mais vivo se sente. Aliás: quanto mais a existência desse eu for posta em causa, até à sua absoluta dissolução, mais o programa futurista e sensacionista deste heterónimo se vê concretizado. Pôr em causa e, por fim, destruir: eis a furiosa paixão da vida, que se diz assim e de todas as outras maneiras: “Progressos dos armamentos gloriosamente mortíferos! / Couraças, canhões, metralhadoras, submarinos, aeroplanos! / Amo-vos a todos, a tudo, como uma fera. / Amo-vos carnivoramente. / Pervertidamente e enroscando a minha vista / Em vós, ó coisas grandes, banais, úteis, inúteis, / Ó coisas todas modernas, / Ó minhas contemporâneas, forma actual e próxima / Do sistema imediato do Universo! / Nova Revelação metálica e dinâmica de Deus!”

O elogio da máquina – a sua eficiência técnica, a par da sua indiferença (a máquina cumpre a sua função sem questionar se o que exerce é moral ou eticamente reprovável; eis um dos luxos de não se ter consciência, humanamente falando – e mesmo este “humanamente falando” já não pode ser enunciado sem que os dentes se agachem na língua, ficando-nos um sabor a sangue na boca) – o elogio da máquina, dizia, implica esta renovada sensação de si por parte do sujeito, ele próprio uma máquina, ou movido pelo desejo de se converter numa: “Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime! / Ser completo como uma máquina!” E, posto isto, um olhar extático para “automóveis apinhados de pândegos e de putas” não é mais nem menos perverso do que extasiar-se com “multidões quotidianas nem alegres nem tristes das ruas”; de modo análogo, são tão belos os orçamentos ou as equações matemáticas como a existência nua de se saber que, em vãos de escada, há meninas de oito anos que masturbam homens de aspeto decente.

Falemos de hipocrisia, de pederastia, de pedofilia, de crime. O futurista Álvaro de Campos gosta que se fale. Esta máquina opera acima do bem e do mal: a sua missão é produzir futuro, enquanto se ocupa de curto-circuitar qualquer possibilidade de estase, de haver algum princípio de unidade, algum resquício de esperança que se converta em chão onde os pés possam repousar alguns segundos. Desfaça-se a esperança, o chão, os pés, tudo. O vitalismo de Campos (e aí se nota o seu tributo a Walt Whitman, figura-tutelar deste heterónimo) alimenta-se de tudo o que existe, para além de qualquer juízo de valor. Insista-se nisto: a máquina-Campos produz futuro, produz energia, irrompe como um cometa. E, tal como o poeta de Leaves of Grass, “firmemente ancorado no eterno agora, no fluxo, é quase indiferente ao destino do mundo”, comenta Henry Miller. Vale a pena citar o resto: “É frequente exprimir-se num tom caloroso, rude, bem-humorado, como se fosse amigo de toda a gente. Au fond, sabe que, se alguma coisa corre mal, nada do que ele possa fazer irá remediar o facto. Sabe que a única maneira de endireitar as coisas, se assim nos podemos exprimir, consiste em cada indivíduo começar por se corrigir a si mesmo. O seu amor e compaixão pelas prostitutas, pelos mendigos, pelos marginais, pelos que sofrem, dispensa-o de inspeccionar e examinar os problemas sociais. Não prega nenhum dogma, não celebra nenhuma Igreja, não reconhece qualquer mediador. Vive no exterior, circulando com o vento, observando as estações e o movimento do firmamento. A sua adoração é implícita, e é por esse motivo que não consegue fazer nada melhor do que passar o dia a cantar uma hosana. […] Continua a ser, não tanto o grande democrata, mas o cosmocrata vibrante e caloroso. Transborda de saúde e de vitalidade” (in Os Livros da Minha Vida, p. 276).

“Não tenhamos pontes de vista professorais sobre arte”, avisa o poeta Henri Michaux. “Porque é que Baudelaire, Lautréamont, Rimbaud, personagens muito pouco recomendáveis do seu tempo, representam não obstante tantas coisas para nós e são de alguma maneira benfeitores? / Não seguramente pela sua moral, mas por terem conferido um novo impulso vital, uma nova consciência” (in Moriturus e outros textos, ed. Língua Morta, 2018, p. 74).

Aí está: um novo impulso vital, uma nova consciência, equiparável, segundo o poeta, “ao primeiro homem que inventou o fogo”. É nesse sentido que Michaux se refere à verdadeira poesia como aquela que se faz “contra a poesia da época precedente” (p. 76), tal como a “Ode Triunfal” se insurgia contra o sentimentalismo viciado e entorpecente da poesia do início do século. E é igualmente neste sentido que uma aula de Português também se faz contra si própria, enquanto nessa autoagressão se iluminar o maior respeito – aliás, o verdadeiro amor – que uma aula pode ter tanto pelas matérias que explora, como pelos alunos que acolhe. Uma aula de Português faz-se contra a empobrecedora redução de um poema como a ode de Campos a uma miopia psicologizante estigmatizadora (sem que isso desqualifique a possibilidade de uma discussão séria sobre problemas de hoje, como a prostituição e a pedofilia); e faz-se contra a análise literária propriamente dita, se esta se justificar exclusivamente pela premência dos exames nacionais. Quando se gosta de ler poesia e de a partilhar (e é urgente que os próprios professores de Português se questionem quanto a isto), essa paixão tem que prevalecer sobre quaisquer obrigações curriculares e momentos de avaliação. Por outras palavras: não se lê Álvaro de Campos porque o poeta está incluído nesse ansioso tiro no escuro que é o de acertar no autor da prova de exame. Lê-se Campos, Saramago, Sophia ou Cesário porque ………………………… [e aqui é que seria fecundamente expressivo fazer uso dos tais pontinhos: não por intuito censório, mas para fazer valer a clarividência obscura de toda a poesia, isso que nela constitui o seu mistério essencial e que, segundo Michaux, consegue “tornar habitável o inabitável, respirável o irrespirável”, p. 75. E isso caberá a cada leitor experimentar e descobrir. Para tal, talvez importasse recuperar para a escola aquilo que esse espaço constituiu nas suas origens, segundo informa Peter Sloterdijk no recentemente traduzido Tens de Mudar de Vida. Sobre Antropotécnica, 2018, pp. 339-340: “aquilo que mais tarde se chamará ‘escola’ começa por ser menos um fenómeno pedagógico do um fenómeno taumatúrgico. Primeiro o milagre, em seguida a educação. […] No início não era a educação, mas a sedução pelo espantoso”.]

 

Referências Bibliográficas

Rui Knopfli, Uso Particular (poemas escolhidos), prefácio de António Cabrita, do lado esquerdo, 2017.

Álvaro de Campos, “Ode Triunfal”, disponível em http://arquivopessoa.net/textos/2459.

Marinetti, O Futurismo, tradução de António Moura, Lisboa, Hiena, 1995.

Henry Miller, Os Livros da Minha Vida, tradução de Ana Bastos, Lisboa, Antígona, 2006.

Byung-Chul Han, O Aroma do Tempo. Um Ensaio Filosófico sobre a Arte da Demora, trad. Miguel Serras Pereira, Lisboa, Relógio D’Água, 2016.

Henri Michaux, Moriturus e outros textos, organização e tradução de Rui Caeiro, Língua Morta, 2018.

Peter Sloterdijk, Crítica da Razão Cínica, tradução de Manuel Resende, Lisboa, Relógio D’Água, 2011.

Peter Sloterdijk, Tens de Mudar de Vida. Sobre Antropotécnia, trad. Carlos Leite, Lisboa, Relógio D’Água, 2018.

 

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Acerca do(a) Autor(a) do artigo

Diogo Martins

Diogo Martins nasceu em 1986 e é natural de Nine, do concelho de Vila Nova de Famalicão. Doutorado em Teoria da Literatura pela Universidade do Minho, iniciou em 2017 um projeto de pós-doutoramento intitulado "Ousar corromper: (o)caso retratístico em Rui Nunes". Interessa-se por poesia, literatura, cinema e fotografia, e mais ainda pelas relações entre estas e outras artes.

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