Diogo Martins

Dar Coisas aos Nomes | Prodigalidade, mera distração, pura bondade

Dar Coisas aos Nomes | Prodigalidade, mera distração, pura bondade

 

 

 

O primeiro livrinho de Rui Caeiro que comprei foi Deus e Outros Animais, uma edição da Averno, 2015. Comprei-o ao Duarte, da livraria Snob, há cerca de quatro anos, na Feira do Livro de Braga. Primeira vez que lhe comprei livros, por sinal, primeiro encontro com o livreiro.

Estas observações, assim enxutas, poderiam passar pelo crivo das palavras de circunstância na morte de mais um poeta, mas acontece que os livros de Rui Caeiro, eles próprios tão despojados e tão avessos a toda e qualquer grandiloquência, convocam necessariamente este tipo de coisas. Assim mesmo: coisas. Coisas, observações, encontros, margens. São livros que criam proximidade, que nascem, talvez, dessa vocação imanente para aproximar pessoas de pessoas, com tudo o que elas trazem dentro de si e fora de si: gestos, cheiros, lugares, memórias, esquecimentos, alegrias, dores. E gatos. Mais o humor, sem o qual a literatura se incha de petulantes maiúsculas e mais se deforma. Ou, se calhar, mais ela se reconstitui a si própria: coisa excessivamente desorbitante e desorbitada, excessivamente a mais em relação à vida. Daí a importância – vital, inegociável, não calculada – de se ser (que é o mesmo que agir) assim: “[…] se queremos fazer alguma coisa em literatura, temos de a fazer contra a literatura, porque se não estamos a repetir ou a papaguear o que já foi feito. Não vale a pena ser um daqueles, como é que se chamam… os prémios saramagos, talvez com uma excepção única, são tipos que sabem escrever, escrevem correctamente, mas o que eles escrevem não adianta a ponta de um corno, porque aquilo já está feito, já está feito de outra maneira e já está feito de melhor maneira, não vale a pena ir por aí.” (“Entrevista a Rui Caeiro”, Jogos Florais, 17 de Abril de 2018, em linha)

Os livrinhos de Rui Caeiro – e o diminutivo não é apenas demonstração franca de ternura pela constituição material dos seus textos, mas uma maneira de os fazer, dizendo, mais contíguos ao clima de proximidade que neles existe, uma maneira de os fazer ver na sua legítima grandeza, isto é, como coisas reais, tão reais e tão imanentes quanto o sangue, o calor do hálito, um aperto de mão –, esses livrinhos não devem nada às indagações literárias que suspeitam constantemente de sentidos ocultos, subterfúgios ou armadilhas semânticas. Se lemos “Diante da morte o importante é estar”, então é porque diante da morte o importante é estar. Se as palavras de um verso (e quem diz verso, diz frase; e se é frase, não é menos verso por isso; e que tem que seja verso, ou frase, se aí está, assim, escrito, visível, na nossa mão?), se essas palavras dizem “o nosso amor cheira às folhas podres de Outono / e quanto a reverdecer vou ali e já venho / o nosso amor está de rastos e como há-de ir / o nosso amor coelho esfolado o nosso amor / disco partido o nosso amor rato morto o nosso / amor ovo cozido ovo estrelado porque isso tanto faz”, então é isso, apenas isso, tão isso. Interpretar aqui é dizer, repetir, e depois acrescentar com a nossa vida, o que fizemos, onde estávamos, com quem. E alucinar dentro da mesma linguagem com que dizemos bom dia, dentro do mesmo silêncio quando o nosso corpo se abre ao sol e se espraia, ou quando morre alguém e todas as palavras, instintivamente, sabem a metal e a mentira: “Diante da morte, diante de um suicida perante a morte, é de muito mau gosto lançar mão de qualquer tipo de literatura. Em tal situação, e perante um tal conviva, não tem qualquer préstimo o arsenal dos subterfúgios. Só talvez o silêncio. O silêncio que a morte faz à sua volta, quando acontece. Quando, por acaso maior ou menor e com mais ou menos solenidade, acontece.” E de novo: “Diante da morte o importante é estar.”

(Um aparte. Penso muitas vezes neste estranho desejo de que haja uma coincidência absoluta, perfeita, entre as palavras e as coisas, entre certas palavras e certas coisas. Certas imagens que se abrem inteiramente cheias de si, da verdade e do mundo. Imagino que isto se passa assim: procuro as palavras exatas, com aquele sentido de apuramento luminoso que se lê, por exemplo, em Sophia de Mello Breyner. Procuro-as obstinadamente, mas, de tanto pressionar o lápis ou a caneta sobre a folha (imagino-me sempre a escrever dessa forma, mesmo quando é o vazio do Word a encher-me a angústia de branco), acabo por furar o papel, por raspar no fundo (da folha seguinte, da capa do caderno, do tampo da mesa). E aí percebo que só a incoincidência é real. Ou melhor: que o furo no papel, a palavra impossível, a violência do rasgo, o borrão, esse pequeno nódulo restante de tinta ou grafite, mais o atrito da madeira – que isso que se vê, assim, na sua intraduzibilidade, porque à margem do discurso, é o que se mantém mais próximo do corpo, da sua expressão, da sua condição física, presente, mortal. A sua impenetrabilidade, a área da escrita, o espaço do corpo: o que ambos ocupam, os hiatos que abrem à sua volta, os passos em volta. E quanto mais próximo, mais evidente é a distância que aí mesmo se precipita: a distância entre a palavra e a coisa, entre nós e nós próprios, ou entre nós e deus (e quem diz “deus”, diz “sentido”, “metafísica”, “verdade”). É o “muro” de que fala Rui Caeiro em Sobre DEUS, sobre o magno problema da existência de Deus: “Não importa a existência de Deus (é um grave problema que não importa) mas sim o do muro. Entre Ele e nós, entre o aqui e o Além – um muro. De cuja natureza nada sabemos. / Já se falou o bastante sobre Deus e os seus pesados atributos. Também já dissemos as orações todas. / Mas sobre o muro – mais alto do que nós e do que Ele e de que Ele é tão vítima como nós?”)

Diante tudo isto, diante os livrinhos (os livros, as plaquetes) de Rui Caeiro que fui comprando e descobrindo nos últimos quatro anos, fico com aquela sensação de que o conheci pessoalmente. O poeta, o editor, o tradutor. Mas também a pessoa com quem, se eu morasse em Lisboa, me cruzaria na Travessa dos Remolares, trocaria impressões sobre livros, poetas e autores (temos em comum, por exemplo, uma admiração por Rui Nunes: “esse é um escritor a sério, não faz coisinhas, esse lida com a literatura, luta com a literatura, tem raiva à literatura”), sobre circunstâncias da vida que, apesar de circunstâncias, são tudo menos circunstanciais. A pessoa-pessoa (que fintaria, algures, o outro Pessoa, com um sorriso esquinado), com o seu jeito inalienável de estar. A pessoa na sua integridade, com a mesma presença vigorosa que têm os livros, os em seu nome (como Sobre a nossa morte bem muito obrigado, ed. &etc, reeditado depois pela Alambique; O Quarto Azul e outros poemas, ed. Letra Livre; ou o duplo Um maluco vem pousar-me na mão / Diálogos Marados, ed. Snob) e os outros que traduziu (por exemplo: O Meu Suicídio, de Henri Roorda, ed. &etc; Carta a D., de André Gorz, ed. Pianola; Moriturus, de Henri Michaux, ed. Língua Morta). Tenho esses livros, tenho o que neles há de absolutamente, irredutivelmente real. A dignidade de existirem, a dignidade de fazerem existir as realidades que as suas palavras simultaneamente encerram e libertam. Palavras que, mais do que discurso, são visão. Visões – lúcidas, claramente lúcidas, daquelas a que só acedemos se nos deixarmos rodear pela gentileza e gratuitidade de certos loucos especiais. Desses que nos dizem, palavra por palavra, e ainda nos abraçam se for preciso: “Não vimos o mundo que merecíamos. Iremos com este espinho cravado na carne. E vontade de dizer um palavrão.” (de Diálogos Marados, ed. Snob, 2018)

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Nascido em 1943, Rui Caeiro faleceu hoje, 29 de janeiro de 2019. Se por acaso o leitor não sabe quem ele é, não se inquiete, nem se culpabilize. Acontece, é assim. Tem, por vezes, de ser assim: com os melhores, certamente. Não somos nós que os conhecemos; são eles que vêm ter connosco. Passados de mão em mão, aconselhados, sugeridos. As tais circunstâncias da vida: a x horas daquela manhã, calhou ter passado ali, na Feira do Livro de Braga, e um rapaz de barba, que desconhecia na altura, mostrou-me um exemplar do livro Deus e Outros Animais, como se eu já conhecesse o autor, como se tudo aquilo fizesse desde logo sentido para mim. E fez, foi fazendo sentido, um livro de cada vez, um encontro a seguir a outro.

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«Estamos no fim do século XX, nunca a ciência e a filosofia chegaram tão longe. Tanto que é perfeitamente concebível escrever sobre omeletas um tratado de teologia, da mesma maneira que sobre Deus um compêndio de culinária.

Nem preces, nem blasfémias, nem heresias logram abalar a Tua indiferença. Só talvez o nosso silêncio, oxalá, Te incomode um bocadinho. Talvez, com a falta de grandeza de alma que também Te caracterizará, o tomes por uma espécie de fatal concorrência.

Não conheço muitas provas da bondade divina. Mas não posso esquecer que até aos maus poetas Deus concede, aqui e ali, a graça de um bom verso. Prodigalidade? Mera distracção? Pura bondade.»

Rui Caeiro, Deus e Outros Animais (Averno, 2015)

 

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Para quem quiser conhecer:

Entrevista a Rui Caeiro pela revista Jogos Florais

Rui Caeiro – Caem co’a calma as aves (Arquipélago – Episódio 08)

Rui Caeiro. Ínfimos ruídos que só os surdos ouvem”, por Diogo Vaz Pinto

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Categorias: Crónica, Cultura, Destaque

Acerca do(a) Autor(a) do artigo

Diogo Martins

Diogo Martins nasceu em 1986 e é natural de Nine, do concelho de Vila Nova de Famalicão. Doutorado em Teoria da Literatura pela Universidade do Minho, iniciou em 2017 um projeto de pós-doutoramento intitulado "Ousar corromper: (o)caso retratístico em Rui Nunes". Interessa-se por poesia, literatura, cinema e fotografia, e mais ainda pelas relações entre estas e outras artes.

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