Manuela Araújo

Ambiente | Agricultura saudável

Ambiente | Agricultura saudável

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Existem mitos urbanos sobre a agricultura biológica, por exemplo, que é muito menos rentável que a “tradicional” agricultura química e que os seus produtos são mais feios e mais caros. Mas tudo depende da forma como ela é feita. Além disso, a maior fatura de uma agricultura química paga-se no sistema de saúde.

Na realidade, a agricultura biológica pode produzir tanto e tão bonito como a tradicional, e pode até nem ser mais cara.  No entanto, não se pense que agricultura biológica se trata apenas de não usar químicos de síntese na adubação ou como pesticidas.  Praticar uma agricultura que respeita o ambiente, a natureza e a saúde, exige conhecimento e prática. E amor pela terra!

Precisamos de conhecer os princípios da agricultura biológica, as técnicas, como as consociações, a fertilização natural do solo. E sobretudo estar consciente de que é necessário respeitar o equilíbrio dos sistemas ecológicos. Falamos da interação entre animais, plantas,  solo, algo que os agricultores mais  antigos sabiam, e que a agricultura do sec. XX, com as suas monoculturas extensivas, (quase) enterrou!

Dois dos princípios fundamentais da agricultura biológica são o respeito pela natureza e a estrita proibição de pesticidas ou adubos químicos de síntese. O solo é também um dos pilares fundamentais: ao contrário da agricultura “tradicional”, que empobrece e mata o solo, com a prática da agricultura biológica o solo é enriquecido. Toda a matéria orgânica não consumida é devolvida ao solo (e mesmo parte da consumida: o estrume). Com compostagem ou sem compostagem (adubação verde).

A agricultura biológica baseia-se ainda na biodiversidade e na diversidade de culturas. Para além de certas plantas atuarem como “defensoras” ou “ajudantes” de outras (consociações), havendo diversidade de culturas, se ocorrer uma devastação de uma espécie, por doença, praga ou intempérie, há uma grande probabilidade de outras espécies resistirem e não haver grandes perdas.

A agricultura biológica depende de uma miríade de insetos polinizadores, como as abelhas, e de insetos predadores de outros insetos “vegetarianos”, cujo exemplo paradigmático é a joaninha, uma feroz devoradora de pulgões e piolhos que atacam as plantas. Por isso, e porque a joaninha é extremamente sensível – ela só aparece onde não há aplicação de pesticidas -, é o símbolo da agricultura biológica. Para os atrair, certas flores (como, por exemplo, os cravos-de-tunes) e as plantas aromáticas são fundamentais,  assim como ervas espontânea, arbustos e árvores nas imediações ou bordaduras das plantações.

A agricultura biológica é um termo que se usa para a agricultura “certificada”, tal como definida em regulamento da União Europeia  (no caso do Brasil, chama-se agricultura orgânica, em Espanha, agricultura ecológica). Neste tipo de agricultura são permitidos alguns produtos químicos menos agressivos para o ambiente, como o caso de vinagre, sabão ou a calda bordalesa (mistura de cal e sulfato de cobre); são também permitidas técnicas de “guerrilha biológica”, como a “largada” de certos insetos predadores destinados a controlar determinada espécie que se tornou praga. Mas sempre em último caso.

O agricultor biológico não pode ser ganancioso, pois sabe que precisa de “perder” uma parte das suas culturas para manter o equilíbrio do ecossistema. Por exemplo, os melros são predadores de caracóis, mantendo-os em número controlado. Mas há que contar que eles também vão comer uma parte dos frutos.  No fim, chega para todos: para nós, para os pássaros, para os bichinhos vegetarianos e para os insetos predadores!

A agricultura biológica tem também como princípio a prevenção e o equilíbrio, com base no conhecimento dos ciclos e relações na natureza, e evita a todo o custo intervir para remediar.

Mas, por vezes, desequilíbrios acontecem.  E não é por aparecerem alguns bichinhos por nós indesejados numa ou outra planta que temos uma praga, pois isso é natural. Considera-se uma praga quando uma grande parte de determinada espécie está a ser atacada. Nesses casos, a agricultura natural aplica alguns produtos e técnicas também naturais, como é o caso do chorume de urtiga (inseticida natural). E a seguir, tenta descobrir porque é que esse desequilíbrio aconteceu, para tentar evitá-lo no futuro.

Para além da agricultura biológica, existem outras formas de agricultura saudável, mais naturais, como a Agricultura Biodinâmica ou a Permacultura.  A permacultura vai muito além da agricultura, pois integra um conjunto de áreas diferentes de modo a poder projetar e manter habitats humanos sustentáveis com o menor consumo energético possível (mesmo energia humana), embora o ênfase esteja na agricultura permanente e na agroflorestal.

No fundo, agricultura biológica, agricultura natural ou ecológica, permacultura, agrofloresta ou agricultura selvagem, são as facetas da agricultura saudável: aquelas que, e por oposição à  agricultura química – a dita “tradicional do século XX”  ou da “Revolução Verde” -, não nos envenenam, não envenenam o solo, a água ou o ar. Antes pelo contrário, dão-nos saúde.

 

Imagens: (0) Agence de producteurs locaux Damien Kuhn, (1, 3, 4, 5) Manuela Araújo, (2) Jorge Teixeira

 

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Categorias: Sociedade

Acerca do(a) Autor(a) do artigo

Manuela Araújo

Manuela Araújo (1962-), famalicense e mãe de 3 filhos. Dedica-se ao ativismo ambiental como forma de voluntariado, sobretudo através da Associação Famalicão em Transição, de que é co-fundadora e presidente da direção, e através do blogue Sustentabilidade é Acção. É Técnica Superior no Município de Vila Nova de Famalicão, onde desempenha atualmente a função de Chefe de Equipa Multidisciplinar de Gestão do Parque da Devesa. A formação académica passa pelas licenciaturas em Engenharia Química (Univ. do Porto, 1985) e em Arquitetura (Univ. Lusíada VNF, 2001) e pelo mestrado em Tecnologias do Ambiente (Univ. do Minho, 1996).

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