Diogo Martins

Dar Coisas aos Nomes | A paixão segundo Clarice: o perigo de viver

Dar Coisas aos Nomes | A paixão segundo Clarice: o perigo de viver

Pub

 

 

 

Quem por hoje se aventurou pelo Google em busca de respostas para o sentido da vida, ter-se-á deparado com um doodle comemorativo dos 98 anos do nascimento de uma das maiores vozes de sempre da literatura brasileira: Clarice Lispector. E, claro está, como acontece quando é de literatura viva que falamos, dessa que nos esmaga por dentro, implacavelmente, como quem nos obriga a olhar no espelho o eclipse do nosso rosto e das certezas mais rasteiras, evocar o nome de Clarice equivale a dizer que as ditas respostas para o sentido da vida não existem, ou são meras falácias sofísticas, dessas que enchem os bolsos aos gurus da autoajuda. Clarice Lispector não nos dá respostas, mas algo mais, muito mais profundo e perturbador: ensina-nos a fazer perguntas. Perguntas insuspeitas, dúvidas que não sabíamos sequer que tínhamos.

Nascida na Ucrânia em 1920, a vaga antissemita que assolava a Europa na primeira metade do século, a par da guerra civil russa, impulsou a sua família, de origem judaica, a partir para o Brasil, onde a futura escritora haveria de se formar em Direito e, mais tarde, a trabalhar como jornalista e tradutora. Ainda não tinha chegado à idade de 25 anos, e estreava-se com o romance Perto do Coração Selvagem (1943). Desde então, nada mais seria o mesmo. Como sugere Eduardo Prado Coelho, num ensaio que põe em relação Clarice Lispector e Marguerite Duras, a publicação de A paixão segundo G.H., em 1964, viria sublinhar (re-citar, diz o ensaísta) esse “ponto invisível de fractura, um sismo silencioso, que produz uma radical viragem sem regresso” (in A noite do mundo, p. 583) que consigna a escrita de Lispector, colocando-a lado a lado com os gigantes do modernismo literário, esses cujo ofício passou por romper com o espartilho dos géneros e tornar quase despicienda a necessidade de cerzir a prosa da poesia ou do ensaio: Joyce, Kafka, Faulkner, Virginia Woolf, Bernardo Soares, com as sucessivas dobras desse desassossego que dá pelo nome de existir, viver ou criar. E ainda Guimarães Rosa, o autor de Grande Sertão: Veredas (1956).

Escrever sobre os livros de Clarice leva-me a recordar as aulas de Literatura Brasileira Contemporânea, na Universidade do Minho, com o professor Carlos Mendes de Sousa. E mesmo que nos anos subsequentes tenha ido à procura de ensaios sobre a obra da autora, seja como investigador, seja movido, tão-só, pela curiosidade compulsiva de leitor, errando pelas estantes de uma qualquer biblioteca pública, quando sou solicitado para discorrer alguma coisa sobre Clarice, resgato daquelas aulas as imagens que mais imediatamente me seduziram e que preservam ainda o impacto visceral da primeira vez.

Refiro-me, sobretudo, a dois aspetos. Por um lado, a imagem do “ovo”, do “invólucro”, da “carapaça” (a misteriosa “barata grossa” de A Paixão Segundo G.H. nunca mais me parou de me assombrar desde então). São as formas fechadas e unas, que condensam o enigma da vida sempre em potência, como a energia pulsante que, em espera, resguarda um cosmos em estado larvar à beira de explodir em infinitas galáxias. Por outro, as expressões linguísticas que, nas intrigas clariceanas, sugerem a iminência epifânica de algo, de uma presença latente à beira de irromper e de surpreender o próprio real das coisas, dos seres e das relações entre ambos. Como uma espécie de milagre, um fenómeno de aparição que desvia o curso dos dias, abrindo brechas por onde tudo pode colapsar. Expressões como “e então”, “de súbito”, “e eis que”.

O conto “Amor”, lido na íntegra numa dessas aulas, condensa emblematicamente estas reverberações mais ou menos transversais às obras de Clarice. Incluído no livro Laços de Família, “Amor” narra a história de Ana, uma mulher que confia o sentido da vida ao desempenho das suas tarefas domésticas, fazendo da previsibilidade o escudo com que se protege das interrogações fatais, da inquietante assombração do vazio. “Ana dava a tudo” – aos filhos, ao “marido chegando com os jornais e sorrindo de fome”, ao pó dos móveis – “tranquilamente, sua mão pequena e forte, sua corrente de vida” (p. 17). Apanhamos a personagem a meio – subindo “no bonde” –, num gesto de captura instantânea, que só depois, seguindo a progressão textual, vai fazendo avanços e recuos diegéticos que procurarão contextualizar Ana no seu mundo.

Até aqui, tudo bem. Mas Clarice é uma narradora de fintas embraiando magistralmente os compassos que asseguram o suspense. E eis que o que se supunha ser mais um dia cumprindo a sua ordem natural, com Ana sentada no autocarro segurando o seu saco de compras e o tricot (signos da feminilidade que se repetem insistentemente nos livros da autora), irrompe de forma avassaladora: “Foi então que olhou para o homem parado no ponto. / […] Era um cego. / O que havia mais que fizesse Ana se aprumar em desconfiança? Alguma coisa intranquila estava sucedendo. Então ela viu: o cego mascava chicletes… Um homem cego mascava chicletes.” (p. 19)

O que há de fascinante neste excerto? O mecanismo narrativo que nos obriga a desacelerar os ritmos de leitura, a embraiar a fluidez, a marcar violentamente as interrupções. Porque é de violência que se trata: não a violência gratuita ou explícita que se derrama em consequências estéreis (morre-se, e pronto), mas a violência imanente às imagens, ao choque abruto que elas nos desferem, fazendo-nos esperar, como o Godot de Beckett, por uma assombração que paira no ar e cuja ameaça é sempre mais terrífica do que qualquer consumação empírica ou resolução. É a violência dos instantes que, num segundo, deixam Ana completamente siderada.

Clarice é isto: o movimento impercetível que, na íntima desordem dos dias, nos apresenta a face que temos por detrás do rosto que assumimos ser o nosso por conveniência social, por preguiça ontológica, por força de hábito. Como se, de súbito, o reflexo do nosso corpo na vitrine ficasse estancado e nos déssemos conta dessa desapropriação, desse duplo terrível. No fundo: somos todos Anas vindas do mercado, segurando um saco com ovos frescos nos braços, e deixamo-los de súbito cair quando a presença de um cego mascando chicletes nos perturba pela sua radical ausência de sentido. Olhar alguém que não nos vê: o relâmpago do real fulmina-nos a céu aberto, revelando a precária fragilidade de todas as certezas, a esplendorosa mentira do mundo, conspirando contra nós o seu “trabalho secreto”. E agora?

“O mal estava feito. Porquê? Teria esquecido de que havia cegos? A piedade a sufocava, Ana respirava pesadamente. Mesmo as coisas que existiam antes do acontecimento estavam agora de sobreaviso, tinham um ar mais hostil, perecível… O mundo se tornara de novo um mal-estar. Vários anos ruíam, as gemas amarelas escorriam. Expulsa de seus próprios dias, parecia-lhe que as pessoas da rua eram periclitantes, que se mantinham por um mínimo de equilíbrio à tona da escuridão – e por um momento a falta de sentido deixava-as tão livres que elas não sabiam para onde ir.” (p. 20)

O que, de repente, ganha forma para Ana é esse excesso de ser – nunca inteiramente nomeável, nem totalmente descritível. Apenas entrevisto, de esgueire, nos instantes em que, entre o sono e a vigília, estamos aquém do nosso próprio corpo, despossuídos de nós mesmos. O excesso de ser que rebenta com todas as expectativas do ser, com o molde em que o fechamos de propósito para fixar uma lei que nos regule, como um Deus que se inventa para enganar o desespero. Aquele cego no elétrico segregara o seu indizível horror – ou o horror do que permanece indizível – por todas as exterioridades, a começar pelo Jardim Botânico onde Ana procurara acalmar-se pouco depois. Mas o mal estava feito – e tudo parece agora mostrar-se em decomposição, em tons de ameaça, como uma vanitas em performance: “Nas árvores as frutas eram pretas, doces como mel. Havia no chão caroços secos cheios de circunvoluções, como pequenos cérebros apodrecidos. […] No tronco da árvore pregavam-se as luxuosas patas de uma aranha. A crueza do mundo era tranquila. O assassínio era profundo. E a morte não era o que pensávamos.” (p. 22)

A escrita de Clarice seduz. É sedutora a desorientação a que nos entrega. Mostra como o desastre se confunde ferozmente com o desejo, essa força que nos arrasta para lá de nós mesmos, “como um lobisomem é chamado pelo luar” (p. 24). E o amor, aqui, está longe de quadrar-se com a bonomia previsível dos bons sentimentos, dos laços que Eros faz e refaz, a famosa “segunda lágrima” que, segundo Milan Kundera, denuncia o kitsch enquanto categoria fundamental para compreender a insustentável leveza do que somos. Em Clarice, o amor implica o ódio, o mal, o absoluto do horror: afinal, o “coração” de Ana “se enchera com a pior vontade de viver”.

E, para que a intensidade não se perca, a essa pior vontade de vida será necessário fazer-se corresponder uma sintaxe própria, que diga essa “incomodidade” ou esse “risco”, segundo Prado Coelho (p. 585). É o lado “[d]o que não é narrável na ordenação cronológica de um relato, [d]o que é o irrelatável desse estranho momento em que as narrações se tornam impossíveis” (ibidem). Portanto: não basta querer contar histórias ou descrever intrigas. Aliás: recusa-se contar histórias, corta-se com as descrições. Porque, explica a autora, “inventar é fácil e não me falta a capacidade. Mas não quero usar esse dom que eu desprezo, pois ‘sentir’ é mais inalcançável e ao mesmo tempo mais arriscado. Sentindo-se pode-se cair num abismo mortal. O que procuro? Procuro o deslumbramento” (citado em A noite do mundo, pp. 584-5).

Ao mergulho do ser no próprio ser interessa um escrever-sentir, uma escrita-sensação.

Tal como acontece a Joana, protagonista do seu romance de estreia, também a escrita de Clarice haveria de modificar “com sua força selvagem o ar ao seu redor e ninguém nunca o perceberia”. E continua assim: “talvez tivesse inventado com a sua respiração uma nova matéria e não o sabia, apenas sentia o que jamais sua pequena cabeça de mulher poderia compreender.” Uma intuição tenebrosa que nos arrasta em definitivo para uma das experiências de leitura mais extraordinárias em língua portuguesa. Como refere ainda Eduardo Prado Coelho: “O coração selvagem é o abandono, não apenas da psicologia, ou da lógica das consciências, mas da lógica da própria lógica”.

Eis a autêntica experiência da despossessão, animada por um impulso vital inexplicável: escavar vazios no deserto do ser para que possamos descobrir, entre o terror e o êxtase, tudo aquilo em que nos podemos tornar. “Minha pergunta, se havia, não era: «que sou», mas «entre quais eu sou»” (in A paixão segundo G.H., p. 22). E são muito parcos os recursos para essas metamorfoses ou devires, como nos mostram as páginas de A paixão segundo G.H. Parcos, precários, ofegantemente próximos e simples. Para tocar “no inexpressivo” e “no neutro”, basta existir – existir em absoluto, radicalmente, para lá da vida e da morte. Existir, estar numa sala e comungar (com) uma barata. Depois, é aceitar o deslumbramento, o mítico espanto diante o mundo que vem desde a noite imemorial dos tempos, e deixar que tudo isso se diga pela nossa voz:

“Eu sou mansa mas minha função de viver é feroz. Ah, o amor pré-humano me invade. Eu entendo, eu entendo! A forma de viver é um segredo tão secreto que é o rastejamento silencioso de um segredo. É um segredo no deserto. E eu certamente já sabia. Pois, à luz do amor de duas baratas me veio a lembrança de um amor verdadeiro que eu tivera uma vez e que não sabia que tivera – pois amor era então o que eu entendesse de uma palavra. Mas há alguma coisa que é preciso ser dita, é preciso ser dita.” (p. 94)

Referências bibliográficas

Clarice Lispector, “Amor”, in Laços de Família, Lisboa, Relógio D’Água (s.d.), pp. 17-26.

Clarice Lispector, A Paixão Segundo G.H., Lisboa, Relógio D’Água, 2000.

Eduardo Prado Coelho, “Clarice: o mistério explica mais do que a claridade” e “Duras/Lispector”, in A mecânica dos fluidos / A noite do mundo, Lisboa, INCM, 2012, pp. 571-581 e 583-590.

Alberto López, “Clarice Lispector, a escritora inqualificável no estilo e na forma”, El País, 10 de dezembro de 2018, disponível em https://brasil.elpais.com/brasil/2018/12/10/cultura/1544426497_594113.html (consultado em 10-12-2018).

Imagens:

https://www.suplementopernambuco.com.br/in%C3%A9ditos/2015-lygia-fagundes-telles-lembra-de-clarice-lispector.html (consultado em 10-12-2018).

https://www.revistaprosaversoearte.com/11320-2/ (consultado em 10-12-2018)

 

Se chegou até aqui é porque provavelmente aprecia o trabalho que estamos a desenvolver. 

Vila Nova é gratuita para os leitores e sempre será. 

No entanto, a Vila Nova tem custos associados à manutenção e desenvolvimento na rede. 

Se considera válido o trabalho realizado, não deixe de efetuar o seu simbólico contributo sob a forma de transferência bancária.

MB Way: 919983484

Netbanking ou Multibanco:

NiB: 0065 0922 00017890002 91
IBAN: PT 50 0065 0922 00017890002 91
BIC/SWIFT: BESZ PT PL

 

Pub

Categorias: Crónica, Cultura, Destaque

Acerca do(a) Autor(a) do artigo

Diogo Martins

Diogo Martins nasceu em 1986 e é natural de Nine, do concelho de Vila Nova de Famalicão. Doutorado em Teoria da Literatura pela Universidade do Minho, iniciou em 2017 um projeto de pós-doutoramento intitulado "Ousar corromper: (o)caso retratístico em Rui Nunes". Interessa-se por poesia, literatura, cinema e fotografia, e mais ainda pelas relações entre estas e outras artes.

Escreva um comentário

Apenas utilizadores registados podem comentar.