Salários | Tudo o que desce, há de subir. Mas quando?

Salários | Tudo o que desce, há de subir. Mas quando?

 

 

 

 

António Costa anunciou por estes dias a sua satisfação pela boa governação que o seu executivo tem impresso a Portugal. A recuperação económica do país, ainda que não expressiva, tem sido, é um facto, evidente. Contudo, e apesar da recuperação dos níveis de emprego, os salários tardam em recuperar.

 

 

Esta será uma das grandes frustações dos portuguesas relativamente à recuperação da crise. Manuel Esteves, do Jornal de Negócios, lembra, por exemplo que “se os mais diversos fatores poderão explicar tal situação, convém não esquecer que esta contenção foi também o resultado deliberado das reformas no mercado laboral, feitas no programa de ajustamento”.

Por outro lado, de entre os países europeus, apenas Portugal e Itália mantêm “os níveis salariais, em termos reais, abaixo dos valores de há 18 anos”, afirma Paulo Ribeiro Pinto, do diário digital Dinheiro Vivo na sua edição de hoje.

Os trabalhadores portugueses ainda não conseguiram recuperar os níveis salariais reais do início do século, tendo em conta a taxa de inflação ao longo do período”. Os cálculos são apresentados no projeto de Relatório Conjunto sobre o Emprego, da Comissão e do Conselho Europeus. No caso de Portugal, a situação ainda é mais significativa se se considerar que a variação média percentual da produtividade é positiva ao longo dos 18 anos considerados, o que não sucede com Itália em que se reverificou uma quebra na produtividade real por pessoa.

Salienta Paulo Ribeiro Pinto que “os técnicos que analisam o mercado laboral na União Europeia estão surpreendidos com esta estagnação dos salários, uma vez que “o crescimento salarial continua abaixo do que se poderia esperar com base nos atuais níveis de desemprego”, indica o relatório.

De acordo com o autor, “Bruxelas reconhece que neste período de recuperação, o crescimento salarial tem sido, em termos gerais, moderado e “parece não reagir à descida da taxa de desemprego tal como sucedeu em ciclos económicos anteriores”. Os dados “sugerem que os salários se tornaram menos sensíveis à taxa de desemprego na economia.”

Pedro Araújo, no JN, acaba de referir que as remunerações médias regrediram ou, no mínimo, estagnaram, desde 2013, de acordo com o estudo “Empregos e salários: pontos de interrogação”, do Observatório sobre Crises e Alternativas. Pedro Araújo assinala que “a economia – medida pela evolução do PIB – e o mercado de trabalho têm vindo a recuperar desde 2013 e, sobretudo, 2014, ano da saída da troika, mas nos últimos cincos anos (entre o 2.º trimestre de 2013 e o mesmo período de 2018) foram recuperados cerca de 450 mil dos 700 mil postos de trabalho destruídos nos cinco anos anteriores.

Possíveis explicações para a recuperação moderada dos salários encontra-se a baixa inflação, o baixo crescimento da produtividade e o efeito de algumas reformas do mercado de trabalho”. Do lado da inflação, a taxa tem-se mantido em valores historicamente muito baixos (uma média de 1,5% entre 2010 e 2017 comparando com uma taxa de 2,2% entre 2000 e 2007). Já no que se refere à produtividade real, o crescimento tem sido modesto não ultrapassando os 0,7% no período entre 2010 e 2017.

Assinale-se também, no entanto, que tem sido percetível o significativo aumento salarial dos trabalhadores que conseguem mudar de emprego.

Rui Rio, o Presidente do PSD, tem aplaudido a redução da taxa de desemprego, mas não tem deixado de alertar que essa descida se deve à custa de emprego menos qualificado, com baixos salários. Os empregos que podem melhorar a produtividade do país representam os portugueses que continuam a emigrar. “São aqueles portugueses mais bem preparados profissionalmente, que, não encontrando emprego cá, são obrigados a sair”, chegou a afirmar. “Ficam cá aqueles que precisam de emprego, encontram emprego, mas [de] mais baixos [salários]. E, portanto, sendo positivo a taxa de desemprego baixar nós temos de saber analisar os dados porque, em termos de competitividade da economia portuguesa, estamos a fazê-la por baixos salários”.

“Os empregos que estão a ser criados são empregos de salários baixos. Quando o emprego sobe mais do que a produção, quer dizer que a produtividade baixa. E, portanto, a produtividade tem baixado e os salários têm sido baixos, é bom criar empregos mas é bom criar empregos que tenham maior valor acrescentado e que melhorem a própria produtividade do país”, observou Rui Rio.

Entretanto, no plano europeu, Mario Draghi e o BCE afirmam que se sente “a solidez da economia da zona euro” e que há “aumento dos sinais de que estão a ser criadas pressões para a subida dos salários”, conduzindo a uma subida da inflação, o que poderá também influenciar os salários portugueses.

Refira-se que, apesar disso, um estudo da Mercer, citado por Susana Paula, no Jornal de Negócios, assinala que “para as quase 400 empresas que participaram no mesmo – e que representam quase 150 mil postos de trabalho – é principalmente a avaliação individual, o posicionamento na grelha salarial e os resultados da empresa que determinam a atribuição de aumentos salariais. Segundo se refere também, “os salários dos recém-licenciados, no primeiro emprego, aumentaram 5% em 2018”.

Por último, há que salientar o relatório que a Organização Internacional do Trabalho (OIT) acaba de divulgar relativamente a 2017. Esse Relatório, que confirma o Relatório Conjunto sobre o Emprego, da Comissão e do Conselho Europeus, mostra que o crescimento dos salários reais, no plano mundial, foi o mais baixo desde 2008. Na Europa Ocidental, este crescimento é de 0%. E Portugal está no pelotão de trás.

O relatório sobre a evolução dos salários da OIT) indica que os salários reais continuam em níveis muito inferiores aos anteriores à crise financeira. Entre 2016 e 2017 o crescimento salarial desacelerou da média de 2,4% para 1,8%, o número mais baixo desde 2008.

Ainda segundo a OIT, continua a registar-se uma diferença relativa de crescimento salarial, o que faz com que, nos países de maiores rendimentos, o crescimento seja menor do que nos países emergentes. Por isso, sem contar, por exemplo, com o forte peso da China, o crescimento mundial desce automaticamente de 1,8% para 1,1%. O mesmo fenómeno acontece ao nível europeu: se excluirmos o leste do continente, o crescimento dos salários caiu de 1,6% em 2015 para 1,3% em 2016 e atingiu mesmo os 0% no ano passado.

 

Fontes: Dinheiro Vivo, Jornal de Negócios, Jornal de Notícias, Esquerda.net e PSD

Imagem: Christopher Burns

 

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