Ricardo Nogueira Martins

Ambiente | O desafio da natureza é discerni-la

Ambiente | O desafio da natureza é discerni-la

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A pequenez da humanidade face aos sistemas naturais de um planeta com 4.54 mil milhões de anos, comparativamente à avareza que possuímos como espécie dominante tem servido de ponto de partida para diversas discussões.

O abalo sísmico deste sábado passado, sentido no norte do País, é um daqueles momentos que se espera que sirva para aguçar o necessário encontro com a natureza e as suas forças. Naturais desde tempos geológicos (a escala do tempo “para lá” da compreensão humana) e comuns desde tempos históricos, a partir do primeiro momento em que o “homem” os registou, os abalos entre outros fenómenos, contribuíram largamente para a curiosidade, compreensão e estudo da dinâmica do planeta Terra.

Várias ciências têm percorrido os meandros da interpretação, da análise e da relação dos fenómenos e comunicação dos mesmos à sociedade. Em pormenor, o conhecimento geográfico, num período atual que alguns cientistas apelidam de Antropoceno dado a magnitude do impacto humano nos sistemas biofísicos, é cada vez mais pertinente, nomeadamente nas cidades onde as interações entre sistemas sociais e biofísicos são mais agudas. O conhecimento dos valores naturais do planeta, e consequentemente do território que habitamos e impactamos, é pois o primeiro passo para a proteção, a salvaguarda e para discernir sobre a natureza. Não muito, muito distante, no Brasil, as comunidades indígenas tentam proteger o único que lhes resta e o que possui significado, porque uma montanha e uma árvore são, também, um símbolo de afetividade. Enquanto estas tensões e os conflitos continuarem a ferir a carne destes últimos guardiões da floresta, que, em boa hora, são os únicos a irem ao encontro profundo da natureza, o eterno diálogo entre o homem e mulher, como parte da natureza, fica severamente difícil. Num depoimento gravado em vídeo, a comunidade Guarani-Kaiowá, no Mato Grosso do Sul, diz explicitamente que “o que para vocês é uma montanha, uma serra, para nós é sagrado”.

Tentemos compreender o lado de quem vê numa árvore, num rio, numa formação rochosa, a criação divina da perfeição. O lado de, para quem, um abalo sísmico faz tremer o egoísmo e serve acima de tudo para o reposicionar como parte da natureza, tão suscetível como os restantes seres que povoam o planeta.

É necessário pois, em crescendo, incrementar o contacto e a afetividade pelos elementos naturais e percebermo-nos enquanto natureza. Aqui, encerram-se as iniciativas importantes da esfera privada, enquanto pais, educadores que somos, encarregados de educação bem como as iniciativas de instituições, em particular organizações não-governamentais e instituições de ensino em matéria de educação para a sustentabilidade, vulgo educação ambiental. Também os aglomerados urbanos, que constituem os principais palcos da relação entre o sistema humano e os sistemas biofísicos, cientes, duplicam investimentos em matéria ambiental por via dos espaços ajardinados e florestais, hortas ou quintas pedagógicas.

Uma publicação do movimento Natureforall, agora divulgada pela IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza), informa o que mais de 40 anos de investigação demonstram, que as experiências significativas na natureza durante a infância estão associadas a comportamentos de conservação e proteção ambiental em idade adulta.

Se nada for arduamente empreendido, o nosso afastamento dos elementos naturais tornar-nos-ão, por um lado, cidadãos insensíveis aos principais crimes ambientais e incapazes de os analisar criticamente por lacuna de estímulo (essencialmente durante o período infantojuvenil) e, por outro, crentes numa democracia por vezes com pouca meritocracia. Não há liberdade sem coragem. Não há direito à cidadania ambiental sem conhecimento.

Leitura sugerida:

Louise Chawla (1998) Significant Life Experiences Revisited: a review of research on sources of environmental sensitivity, Environmental Education Research, 4:4, 369-382, DOI: 10.1080/1350462980040402, disponível em Tandfonline.

Imagens: (1) Vânia Silva, (2) Ricardo Nogueira Martins

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