17/11 Viana do Castelo

Entrevista | João Marques, autor de ‘A Pesca do Bacalhau’: Nas nossas veias não corre sangue, mas sim água salgada

Entrevista | João Marques, autor de ‘A Pesca do Bacalhau’: Nas nossas veias não corre sangue, mas sim água salgada

 

 

 

No dia 17 de novembro, pelas 16h00, a bordo do Navio-Hospital Gil Eannes, em Viana do Castelo, irá decorrer a apresentação da obra “A Pesca do Bacalhau – História, Gentes e Navios” – “Tomo II – Os Lugares da Pesca à Linha” de João David Batel Marques, motivo mais do que pertinente para melhor conhecer o seu fascinante trabalho.

 

 

O Comandante João Marques é homem do mar experimentado. Toda a sua vida o mar lhe correu nas veias: em rapaz, quando sabia ser o mar o caminho que queria seguir, homem feito, em que palmilhou boa parte do Atlântico, e agora, tempo em que, já reformado, passa a escrito os seus conhecimentos feitos de vivências, mas também de investigação cuidada e prolongada.

João David Batel Marques, Capitão da Marinha Mercante, vivenciou durante muitos anos a pesca do bacalhau, tendo comandado navios e tripulações. Nasceu em Ílhavo, em 31 de Agosto de 1953. Em 1972, terminou o Curso Geral de Pilotagem da Escola Náutica e embarcou para a pesca do bacalhau como piloto do arrastão popa “Santa Mafalda”. Seguiu-se um ano na marinha de comércio, na Companhia Nacional de Navegação, e regressou à pesca do bacalhau como piloto e imediato do arrastão popa “Lutador”. Em 1981, concluiu o Curso Complementar de Pilotagem, vulgo, Curso de Capitão, tendo assumido o comando do arrastão clássico salgador “Bissaya Barreto”. De seguida, passou a comandar o arrastão clássico congelador “Praia do Restelo” e os arrastões popa congeladores “Almourol”, “Ilhavense” e “Nova Fé”. Em 1989, como não se avistava grande futuro para a pesca longínqua, regressou à marinha de comércio. Foi imediato do graneleiro “Secil Congo” e comandou o navio de carga geral “Secil Bengo”, os navios de carga geral e contentores “Secil Dande” e “Secil Namíbia”, o navio de transporte de carga frigorífica “Cuíto Cuanavale” e o navio porta contentores “Dina”. Por último, dedicou-se à formação profissional, tendo dado aulas de construção naval em madeira, componente teórica, tendo-se reformado quando atingiu a idade legal de o poder fazer.

Com oportunidade, decidiu agora mobilizar a sua enorme capacidade de trabalho, interesse e conhecimento para pesquisar e organizar os factos e os documentos que permitiram conceber este valioso estudo o qual irá, seguramente, contribuir para que muitos possam conhecer melhor a história desta atividade.

“A Pesca do Bacalhau – História, Gentes e Navios” decorre da sistematização de um largo acervo de documentos sobre a pesca do bacalhau em Portugal que se encontravam dispersos e desconectos.

Nestes quatro livros, o autor apresenta dados relativos a aspetos de enquadramento histórico da atividade económica, bem como aspetos relacionados com as dinâmicas laborais e sociais da vida a bordo.

O leitor pode, portanto, apreciar a evolução cronológica dos navios e gentes, entre outros aspetos relativos à pesca do bacalhau desde 1924 a 1980, com possibilidade de também conhecer dados relativos às unidades mais recentes. Por outro lado, pode também apreciar exemplos de documentos que ilustram algumas situações mais críticas, como por exemplo, protestos de mar, autos de notícia, ou mesmo autos de falecimento.

Pedro Costa: Somos, todos os portugueses, fãs do bacalhau. Quais são as razões, próximas e mais distantes, que conduzem a este facto?

João Marques: Na Europa dos séculos XV e XVI, os tempos eram difíceis e as condições de vida muito penosas. As carências alimentares eram enormes. A religiosidade do povo português justificava o consumo de peixe, pelo jejum que os cristãos tinham de levar a cabo durante o ano litúrgico; ou seja, o peixe tinha um papel muito especial na dieta das pessoas.

Assim, no reinado de D. João III, o bacalhau passou a ser um produto comercial muito valioso, tendo-se formado frotas destinadas à sua captura. Era um peixe cuja conservação facilitava o modo de vida das gentes do interior e do litoral do país, sendo muito saboroso e nutritivo.

Pedro Costa: Senhor Comandante, qual é o motivo do seu particular interesse pelos temas marítimos e a pesca da pesca do bacalhau em particular?

João Marques: Sou neto, filho, genro, sobrinho e primo de homens do mar, de capitães da pesca do bacalhau. Sou casado com uma neta, filha e irmã, sobrinha e prima de capitães da pesca do bacalhau. Desde que me conheço que sempre ouvi falar, vivi e estive ligado ao mar, à pesca do bacalhau e às suas gentes. Costumo dizer que nas veias da nossa família não corre sangue, mas sim água salgada.

Não fui como os outros meninos que quando lhes perguntavam o que queriam ser quando fossem grandes diziam que queriam ser polícias, médicos ou bombeiros. Sempre disse que queria ir para o mar e queria ser piloto.

Pedro Costa: Quando começou a realizar este trabalho, “A Pesca do Bacalhau – História, Gentes e Navios”, e qual foi o motivo mais imediato que o levou à produção deste livro?

João Marques: Este trabalho navegava na minha cabeça há muitos anos, mas achava que ainda não tinha chegado o momento oportuno. Estava embarcado, a trabalhar, ainda tínhamos frota e achava que não tinha os conhecimentos suficientes para me lançar a escrever algo sobre a história, as gentes e os navios da pesca do bacalhau.

Depois de reformado, juntei o gosto e os conhecimentos adquiridos a muito estudo e muita pesquisa sobre o tema.

Nos últimos dez anos, vinha escrevendo algumas notas sobre o tema, à laia de apontamentos, mas a sério, a sério, e com paixão, dediquei-me a partir de meados de 2015.

Os principais motivos que me levaram a escrever sobre o tema foram prestar homenagem aos homens que labutaram e fizeram o seu modo de vida nesta faina, tão dura e perigosa, apresentar exemplos de documentos que ilustram situações particulares, como por exemplo, Protestos de Mar, Autos de Notícia e até mesmo Autos de Falecimento, e contar a vida dos navios que participaram nesta grande epopeia. A vida! Sim, a vida, porque os navios também têm vida. Para nós, homens do mar, o nosso navio faz parte de nós, é a nossa casa, é o nosso lar naqueles mares distantes, frios e perigosos.

Pedro Costa: Este livro tem vindo a ser apresentado primeiramente em Viana do Castelo e só depois noutras localidades. Por alguma razão especial? Em Aveiro não existiam, não existem, também frotas de bacalhau significativas?

João Marques: A razão pela qual este livro irá ser apresentado primeiramente em Viana do Castelo, pela Fundação Gil Eannes, deve-se ao imediato, inigualável e carinhoso acolhimento que a Fundação deu ao meu trabalho e pela confiança que em mim depositou. Para além disso, o meu sogro e o seu pai fizeram a sua vida profissional na Empresa de Pesca de Viana; como é óbvio, razões mais do que suficientes para o fazer.

Com certeza que toda a zona de Aveiro é uma região com muito fortes tradições na pesca do bacalhau. Logo que estiver publicada a obra completa, é intenção da Fundação e minha fazer a sua divulgação por todos os lugares onde existam tradições da pesca do bacalhau e por outros para quem estes assuntos possam ter interesse.

Pedro Costa: O que considera mais fascinante nesta atividade: a faina, as embarcações, o negócio, as gentes…?

João Marques: Não me atrevo a considerar esta ou aquela atividade mais ou menos fascinante.

Para mim, todas têm os seus encantos e os seus espinhos pelos mais variados motivos.

A atividade que me passa ao lado, da qual só tenho uma ideia muito superficial e que não domino, nem de longe nem de perto, e, por isso, não me pronuncio, é a dos negócios. Os negócios cabem aos armadores. Nós, os homens do mar, somos os homens de ação para que os armadores possam levar a cabo os seus negócios.

Pedro Costa: Já tem data prevista para o lançamento dos volumes ainda em falta? Sobre que se irão debruçar?

João Marques: O Tomo II trata de 74 lugres da pesca à linha e será apresentado no próximo dia 17, pelas 16:00 horas a bordo do Navio-Hospital Museu Gil Eannes.

O Tomo III é sobre os 39 navios-motor da pesca à linha e será apresentado no dia 2 de Fevereiro de 2019 no Teatro Sá de Miranda em Viana do Castelo

O Tomo IV, que versa sobre os 24 arrastões clássicos e os 19 arrastões de arrasto pela popa, será apresentado, no dia 20 de Maio de 2019, a bordo do Navio-Hospital Museu Gil Eannes.

Pedro Costa:  De entre os seus livros, há algum de que tenha gostado mais em particular? Porquê? Quais os mais vendidos até hoje?

João Marques: Não tenho preferência por nenhum dos livros. São como os filhos, são todos iguais, despertam em nós os mesmos afetos e, a par com eles, vou evoluindo na minha escrita e dando corpo e rosto às minhas memórias.

Fiz os quatro livros com muita paixão. Em todos eles está um bocadinho de mim.

Se no primeiro contei a história do começo da pesca do bacalhau pelos portugueses, no início do século XVI, até aos nossos dias e prestei homenagem aos oficiais que nela participaram, de 1924 a 1980, no segundo livro trato dos lugres que participaram na grande epopeia.

O terceiro é dedicado aos navios-motores e o quarto volume diz-nos que a pesca do bacalhau não se fez só com os dóris. Com o tempo, a pesca foi evoluindo, passou a ser praticada por métodos mais avançados, pelo arrasto. Primeiro com os arrastões clássicos ou laterais e depois com os arrastões de arrasto pela popa. Evoluiu também na conservação do pescado. Da cura tradicional pelo sal, passou-se para o processo da ultra congelação e conservação pelo frio.

Além da arte do anzol, passou-se para as artes de arrasto de fundo e arrasto pelágico.

Começou-se a aproveitar espécies que até determinada altura eram impensáveis.

8 – Que projetos tem para o futuro?

João Marques: Neste momento, estou empenhado em finalizar o quarto volume.

Com certeza que tenho vários projetos para o futuro.

Navega na minha cabeça um turbilhão de ideias que ainda não me permitem definir, com exatidão, o rumo verdadeiro a seguir.

 

Fonte: Gil Eannes

Imagens: (0) João David Batel Marques, (1, 2, 3, 4) Gil Eannes

 

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Pedro Costa

Diretor e editor.

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