Daniel Faria

Reforma Protestante | A terceira via: O Cristianismo Anglicano

Reforma Protestante | A terceira via: O Cristianismo Anglicano

 

 

 

Há pouco mais de quinhentos anos, em 31 de outubro de 1517, um monge alemão, Martinho Lutero, afixou 95 teses na porta da igreja do castelo de Wittenberg, dando origem ao movimento conhecido como Reforma Protestante, que preconizava a renovação do cristianismo, o que teve consequências da maior relevância na história da humanidade.

No início do século XVI, existiam fortes condições para o surgimento de um novo paradigma no cristianismo.

Em primeiro lugar, a ação dos humanistas do Renascimento que através da atitude critica, chamaram a atenção para as alterações à mensagem original de Jesus, o Cristo, e dos seus primeiros seguidores e criticaram o apego da Igreja institucional ao poder e à riqueza.

Em segundo lugar, os novos caminhos da ciência. Na Idade Média, os conhecimentos científicos eram essencialmente livrescos, ou seja, baseavam-se no estudo e comentário dos livros dos sábios da Antiguidade. No Renascimento, passou a ser enfatizado o espírito crítico e o experimentalismo, baseado na valorização da experiência como forma de verificação do conhecimento.

Em terceiro lugar, os abusos do clero e a quebra do prestígio dos papas e dos demais dignitários eclesiásticos. Os papas do Renascimento preocupavam.se com mais com a politica, a riqueza, a proteção das artes do que com as suas responsabilidades eclesiais. Por seu turno, noutros patamares da hierarquia eclesiástica, as coisas não estavam melhores. Muitos bispos acumulavam sedes episcopais onde não residiam, bem como outros benefícios eclesiásticos, A maioria dos presbíteros não possuía formação teológica e pastoral para responder às aspirações espirituais dos fiéis leigos.

Em 1517, o papa Leão X publicou a Bula das Indulgências, segundo a qual era concedido o perdão dos pecados a quem contribuísse para a edificação da nova Basílica de São Pedro, em Roma.

Indignado, Martinho Lutero promoveu a afixação de 95 teses na porta da igreja do castelo de Wittenberg. Neste documento, Lutero negou a falsa segurança das indulgências, considerando que o cristão não pode comprar a graça que Deus gratuitamente lhe dá- As suas teses conheceram uma enorme adesão em toda a Europa.

Após ter recusado renunciar às suas ideias reformistas, Lutero foi excomungado. Lutero não pretendia inicialmente fundar uma nova Igreja. Considerava que retornando à essência do Evangelho, a Igreja reformar-se-ia, por si mesma. Mas a reação autoritária por parte do papado e as divergências entre os que contestam a Igreja Católica levaram-no a sistematizar a sua doutrina.

Segundo Lutero, o ser humano é justificado e salvo unicamente pela fé em Cristo. Tal como a fé, a salvação é concedida gratuitamente por Deus. A Bíblia é considerada como a fonte por excelência da fé: Os sacramentos são apenas dois: o batismo e a eucaristia. E defendida a igualdade entre os crentes na organização eclesial

Entretanto, surgiram outros reformadores, merecendo destaque Ulrich Zwinglio, em Zurique, e João Calvino, em Genebra.

As ideias da Reforma Protestante tiveram um forte impacto na Europa. Enquanto os países mediterrânicos permaneceram fiéis ao catolicismo romano, a Europa Central e do Norte aderiu de forma expressiva à Reforma Protestante.

Nas Ilhas Britânicas, mais concretamente na Inglaterra, desenvolveu-se uma forma peculiar de cristianismo – o cristianismo anglicano – que assumiu-se como uma via média entre o catolicismo e o protestantismo.

Existem evidências de que o cristianismo chegou às Ilhas Britânicas no século II. Aí, o cristianismo aculturou-se com as tradições oriundas da espiritualidade céltica, podendo falar-se inclusive de cristianismo celta. Posteriormente, houve uma progressiva subordinação à Igreja de Roma. Esta situação nunca foi bem aceite pela generalidade das populações das Ilhas Britânicas, o que constitui um motivo determinante da rotura no século XVI, no contexto da Reforma Protestante. Assim, em 1534, a Igreja da Inglaterra voltou a separar-se da Igreja Romana por decisão do Parlamento, após iniciativa do rei Henrique VIII.

A identidade peculiar do cristianismo inglês explica a consolidação do anglicanismo, mais do que a excomunhão do monarca inglês pelo papa Clemente VII, que tinha recusado decretar a nulidade o seu casamento com Catarina de Aragão, irmã do poderoso Carlos V, rei de Espanha e imperador do Sacro Império Romano-Germânico.

Nos séculos seguintes, o cristianismo anglicano teve uma forte difusão à escala mundial, resultado da expansão da cultura anglo-saxónica e de uma forte dinâmica missionária.

Ao longo da sua longa história, o cristianismo anglicano apresenta-se como uma via média entre o catolicismo e o protestantismo, buscando uma visão espiritual de síntese.

De uma forte sucinta, os seus principais fundamentos são os seguintes:

– A valorização simultânea das Escrituras e da tradição. O anglicanismo considera que a Bíblia é um pilar fundamental para alcançar a salvação. Mas também valoriza a tradição cristã que remonta às comunidades cristãs primitivas do Novo Testamento e que foi enriquecida ao longo dos últimos dois milénios, apesar das roturas e vicissitudes da história.

– A ordem litúrgica simultaneamente tradicional e flexível. Por um lado, valoriza a leitura pública e privada das Escrituras bíblicas. Mas, por outro lado, promove a dimensão alegre e festiva da

liturgia. Tudo isto sem uniformidade litúrgica excessiva, respeitando a diversidade de correntes existentes no âmbito das comunidades anglicanas.

– A existência de uma estrutura ministerial episcopal e democrática na governação das comunidades anglicanas. Por exemplo, os bispos são eleitos por sínodos diocesanos aos quais compete definir as linhas orientadoras das respetivas comunidades. Estes sínodos são constituídos por representantes do clero e dos leigos democraticamente eleitos. O arcebispo de Cantuária representa de modo visível a unidade da Comunhão Anglicana no espaço e no tempo e todos os bispos anglicanos mantém em comunhão com ele enquanto primum inter pares, e permanecem em comunhão entre si. O modelo de primado anglicano poderia ser inclusive um exemplo de referência para a reforma do papado no contexto do diálogo ecuménico entre as diversas confissões cristãs.

– A ênfase na responsabilidade individual do ser humano perante Deus, considerando que a vivência espiritual e ética do crente deve ser feita à luz da tríade Escritura, Tradição e Razão.

O cristianismo anglicano respeita a diversidade e o pluralismo em matéria doutrinal e litúrgica, norteando-se pela máxima “unidade na certeza, liberdade na dúvida, caridade em tudo”.

Assim, no âmbito do cristianismo anglicano, existem três grandes correntes ou linhagens:

– A High Church, formada pelos anglo-católicos, que enfatiza a continuidade com o cristianismo da Antiguidade e da Idade Média, bem como na unidade de culto e doutrina. Insiste na importância do episcopado e na sucessão apostólica e defende as práticas devocionais e litúrgicas que aproximam o anglicanismo do catolicismo.

– A Low Church, composta pelos anglo-evangélicos, que valoriza o facto do anglicanismo ter saído da Reforma Protestante. Tem uma conceção essencialmente funcional do episcopado e defendem uma liturgia simples e a autoridade da Bíblia.

– A Broad Church, constituída pelos liberais, que se opõe às diversas formas de cristalização dogmática, defendendo a abertura às exigências da modernidade e da pós-modernidade e a promoção do trabalho solidário em prol da sociedade.

A nível internacional, as comunidades anglicanas distinguem-se por uma teologia ao mesmo tempo sólida e liberal, mas também por uma organização eficiente e um relevante trabalho nos domínios educativo, social e ecológico.

Procuram viver uma espiritualidade liberal, aberta e inclusiva, considerando que o seu desenvolvimento é uma condição essencial para o testemunho fiel e credível da mensagem libertadora de Jesus, o Cristo, em prol da humanidade.

 

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Categorias: Cultura, Sociedade

Acerca do(a) Autor(a) do artigo

Daniel Faria

Nasceu em 1975, em Vila Nova de Famalicão. Licenciado em Sociologia das Organizações pela Universidade do Minho e pós-graduado em Sociologia da Cultura e dos Estilos de Vida pela mesma Instituição. É diplomado pelo Curso Teológico-Pastoral da Universidade Católica Portuguesa. Em 1998 e 1999, trabalhou no Centro Regional da Segurança Social do Norte. Desde 2000, é Técnico Superior no Município de Vila Nova de Famalicão. Valoriza as ciências sociais e humanas e a espiritualidade como meios de aprofundar o (auto)conhecimento, em sintonia com a Natureza e o Universo. Dedica-se a causas de voluntariado. É autor do blogue pracadasideias.blogspot.com e da página Espiritualidade e Liberdade.

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