Diogo Martins

Dar Coisas aos Nomes | Pequena história de uma imagem

Dar Coisas aos Nomes | Pequena história de uma imagem

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Sexta-feira passada, a meio da manhã, interrompo o trabalho para ir comer alguma coisa. Como já é hábito desde há alguns anos, levo a máquina fotográfica comigo. O costume: sombras, pequenas coisas, alguns despojos, gente vista de costas. Um pouco de cor que destoe numa qualquer superfície, os aranhiços das fendas nalgum beco de passagem. A súbita irrupção de uma ave que, de tão rápida, apenas fica dela, no visor da máquina, o frémito a negro, como um borrão. Ou seja: nada de premeditado, exceto a atenção com que foco esse e outros nadas.

Na rua da pastelaria onde acabei por depois abancar, tirando proveito da luz do sol por entre os plátanos, olhei o céu.

Nada de especial: um traço de avião, já em fase de evanescência. Mas nem sequer foi isso o que me fascinou naquele punhado de segundos (no mesmo dia, horas antes, outro traço me havia seduzido e interpelado). Aliás: sabia de antemão que o mais certo seria a foto ser prontamente eliminada, sabia que aquilo não iria corresponder à minha sensibilidade estética, ao meu “museu imaginário”, para empregar a conhecida designação de Malraux. A verdade, por mais parvo que isto soe, é mesmo esta: não gosto de guardar fotos que tiro só porque sim; o simples facto de desgostar de tal imagem torna-a suficientemente pesada, excessivamente a mais, como um resíduo tóxico deixado conscientemente ao abandono, a minar sub-repticiamente tudo o que resultou de um trabalho apurado da minha parte: filtrar o mundo pelas suas margens e vestígios, aceitar a sua heterogeneidade e vitalismo intrínseco, o enigma do que se vê. Não se trata, atenção, de montar arraiais na mera decifração iconológica das imagens: como aprendi com Aby Warburg (e com Didi-Huberman e António Guerreiro, que me deram a conhecer o primeiro com mais profundidade e entusiasmo), a imagem – e depois as imagens que comecei a fazer com, pela e na fotografia –, é “uma formação simbólica que traz a memória de uma origem que a carregou de energia e através da qual ela sobrevive nas suas manifestações históricas”, estando, por isso, relacionada “com uma inscrição emotiva, de grande intensidade” (A. Guerreiro, 2018, p. 102).

Uma imagem, mesmo no seu mais despojado aparecer, constitui um magma de amplas complexidades. E se pressinto, a uma escala tão pessoal e tão minha, que essa complexidade é ameaçada pelo nivelamento, pela salgalhada, pelo excesso (que uma máquina digital inevitavelmente comporta), então apago o que faço. Uma fotografia de que não gosto, por si só, já me ocupa espaço, mas não no disco externo (onde, aparentemente, cabe tudo) – ocupa-me espaço no corpo, na cabeça. Ocupa-me o espaço do corpo. E o espaço interior é precioso.

Não era o traço, então, nem o topo das árvores, muito menos aquele ângulo, nada que deviesse paisagem digna de captura. Era a luz, só isso. Um qualquer e indizível movimento da luz. Quer dizer, nem isso: mais uma sensação da luz na sua imobilidade (impercetíveis eram os movimentos: a poalha suspensa, o ar frio, o rumor da cidade, tudo isso). A luz: como se caísse, inamovível, sobre as coisas, sobre o lugar. Densa e, ao mesmo tempo, indescritivelmente leve.

A foto é esta:

Dar coisas aos nomes

Mas não cheguei até aqui por causa do resultado, da fotografia em si. Assim que fotografei (não tanto o que vi, mas essa tal impressão-sensação que a foto, agora, servirá apenas de índice, ou de lembrança), assim que fotografei, repito, um rapaz, mais ou menos da minha idade, não terá contido a inevitável estranheza de me ter visto parado, ali no passeio, com a máquina apontada para cima, alhures, onde aparentemente nada de “turístico” se fazia anunciar como “digno de nota”. E ele próprio abrandou o ritmo, olhou para cima também, para o céu. Não me fez qualquer pergunta; eu próprio ignorei essa possibilidade, estando já com um pé quase dentro da pastelaria. Sei que ele fez o que fez (abrandou o ritmo, olhou para cima), mas não sei mais nada. Nem lhe vi o rosto, sequer. Se voltar a cruzar-me com ele na rua, não poderei reconhecê-lo.

Mas gostei disso, dessa interrupção. Gostei da sua gratuitidade, do facto de ter sido absolutamente improdutiva: um gesto que não significa nada, que não pode servir para nada (não recebi um tostão com isto, os mercados não emitiram – ainda – nenhum alerta), nem para “interpretar”, no sentido de “desvendar” sentidos ocultos ou latentes. Não houve entrelinhas naquele instante. Apenas puro jogo do “borboletear”, como exprime Didi-Huberman: “a intensa produção de uma energia sem produto, sem valor de troca” (p. 141). Aquela pausa de nada me valerá, exceto lembrar-me dela, dizer que aconteceu, e como. Mas agrada-me pensar, assim de longe, que por um brevíssimo segundo incentivei um anónimo a olhar o céu sem saber porquê: nem porquê o céu, nem porquê olhar. Mas só olhar bastava.

(P.S.: É incrível esta sensação que o Brasil me dá: a sensação de me dar ao luxo de viver num país onde o tempo para olhar o céu, entre outras pródigas inutilidades, não me usurpa a obrigatoriedade de contar o tempo que tenho para dizer não ao fascismo. Precisamente, porque vivo numa democracia que me dá o direito e a liberdade de lhe apontar todos os defeitos, assim como me incentiva a nunca abdicar da minha responsabilidade para fazer uso vivo da memória, pessoal e coletiva, do que aprendi sobre o passado, sobre as suas enfermidades e glórias – mesmo o passado no qual não pude participar, porque não tinha ainda nascido. Saber que a democracia implica o direito “a ter direitos”, como disse Hannah Arendt. Saber que a “experiência democrática” é, segundo Jacques Rancière, “a de uma certa estética da política”. Ou seja: “O homem democrático é um ser de palavra, o que também quer dizer que é um ser poético, capaz de assumir uma distância entre as palavras e as coisas, que não é nem decepção nem engano, mas humanidade; um ser, portanto, capaz de assumir a irrealidade da representação. Esta virtude poética é uma virtude de confiança. Trata-se de partir do ponto de vista da igualdade, de a afirmar, de trabalhar a partir do seu pressuposto para ver tudo o que ele pode gerar, para maximizar tudo o que é dado em termos de liberdade e de igualdade. Aquele que, ao invés, parte da desconfiança, da desigualdade e se propõe reduzi-la, hierarquiza as desigualdades, hierarquiza as prioridades, hierarquiza as inteligências e reproduz indefinidamente a desigualdade”, in Nas Margens do Político, 2014, p. 59, destacados meus. Obrigado, 25 de abril. Obrigado. Aos democratas brasileiros: de hoje em diante, muita força e muita coragem.)

  

Referências

António Guerreiro, O Demónio das Imagens – Sobre Aby Warburg, Lisboa: Língua Morta, 2018.

Georges Didi-Huberman, Falenas. Ensaios sobre a aparição, 2 (trad. António Preto, Eduardo Brito, Maria Pinto dos Santos, Rui Pires Cabral, Vanessa Brito), Lisboa: KKYM, 2015.

Jacques Rancière, Nas Margens do Político, trad. Vanessa Brito e João Pedro Cachopo, Lisboa: KKYM, 2014.

 

E convido a ler:

Rui Bebiano, “Brasil: coragem e determinação”, do blogue A Terceira Noite, disponível aqui: http://www.aterceiranoite.org/2018/10/29/brasil-coragem-e-determinacao/?fbclid=IwAR3AbmNWpk_X0xjD-Q4Q6wq6avb2boMC36aIDqDi6iH5oQoUH7Clh-OMu1Q

 

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Categorias: Crónica

Acerca do(a) Autor(a) do artigo

Diogo Martins

Diogo Martins nasceu em 1986 e é natural de Nine, do concelho de Vila Nova de Famalicão. Doutorado em Teoria da Literatura pela Universidade do Minho, iniciou em 2017 um projeto de pós-doutoramento intitulado "Ousar corromper: (o)caso retratístico em Rui Nunes". Interessa-se por poesia, literatura, cinema e fotografia, e mais ainda pelas relações entre estas e outras artes.

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