João Palhares

Lucky Star | The Last Day of Leonard Cohen in Hydra, de Mário Fernandes

Lucky Star | The Last Day of Leonard Cohen in Hydra, de Mário Fernandes

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Para a sessão final dedicada ao ciclo “Belo e a Consolação”, que o Lucky Star – Cineclube de Braga  preparou em parceria com os Encontros da Imagem, de Braga, escolhemos a curta The Last Day of Leonard Cohen in Hydra, de Mário Fernandes, que não é estranho nenhum ao nosso cineclube: já veio a Braga apresentar The Deadly Companions em 2016, escrevendo também a fabulosa folha de sala, já nos recomendou Hell to Eternity, de Phil Karlson, e já nos falou do presidente Theodore Roosevelt, de John Milius e dos seus Rough Riders em 2017.

Nunca tinha era mostrado nenhum dos seus filmes, falha que foi ontem colmatada com a exibição da sua última obra (depois de Lost West, Jerónimo, Como é que Vais? ou Pastor da Noite), uma estreia absoluta em Braga. Uma boa sessão a todos.

Quando vivia em Hydra, Leonard Cohen escreveu à mãe e descreveu-lhe a sua casa e o seu meio envolvente, dizendo que “tem um terraço enorme com uma vista de montanha dramática casas brancas brilhantes. Os quartos são largos e frescos com janelas fundas fixadas em paredes espessas. Suponho que tenha 200 anos e devem cá ter vivido muitas gerações de homens do mar. Vou trabalhar um bocado nela todos os anos e em poucos anos será uma mansão… Vivo numa colina e a vida aqui tem-se passado exactamente da mesma maneira há centenas de anos. Durante todo o dia ouvem-se os chamamentos dos vendedores de rua e são mesmo muito musicais… Geralmente acordo à volta das 7 e trabalho até perto do meio-dia. De manhã cedo é mais fresco e portanto melhor, mas de qualquer maneira adoro o calor, especialmente quando o Mar Egeu está a 10 minutos da minha porta.”

Na folha de sala que acompanhou a sessão de ante-estreia na Cinemateca Portuguesa, José Oliveira escreveu: “Dedicado a Leonard Cohen e a Marianne Ihlen, logo tudo nos remete para o conhecido tempo em que o cantor e poeta viveu na ilha de Hidra, na Grécia, com a sua companheira, uma vida de outrora ainda não esquecida, amada, que vive na espinha, a amante e uma criança, os dias de ternura, as lágrimas e a nostalgia… coisas que são ditas pela própria voz de Cohen, num genérico a negro mas já cheio de imagens e de sentidos, poéticos e concretos, que serve igualmente para traçar os mais diversos caminhos, abrindo secretas fendas no solo conhecido dos filmes (ou no modernismo) e cavando narrativas que vão aglutinar ou conciliar, por exemplo, versos de Paul Valéry, a voz de Ray Charles, de Marta Ramos e de Loukia Batsi, a mitologia Helénica e as subtis referências à nossa cultura e envergadura tuga.

“Uma narrativa detectivesca de um Philip Marlowe apátrida obcecado com o retrato de alguém que um dia lhe calhou em sorte num caso talvez indesvendável que o levou aos confins de um mundo? A claridade e essa luz diáfana de um país em que cada coisa é trazida à luz / trazida à liberdade da luz / trazida ao espanto da luz, segundo Sophia de Mello Breyner? Assim, esse homem destroçado encarnado por Rui Pelejão – também não muito longe do cowboy no fim da linha de Lost West e dessas deambulações eternas – vai perguntando a uma fotografia, a uma imagem fixa, Quem és tu?, afirmando e suplicando Vim à tua procura, apaixonando-se por ela, pedaço inanimado e inorgânico em lenta combustão que irá ressuscitar precisamente através da luz e das sombras, do sol e do ar límpidos e únicos que puxaram esse corpo vestido com calções portugueses e de feitios próximos à literatura e ao universo pulp para o cosmos estatuário e mítico de um absoluto em que esse milagre se torna possível. Quando a imagem se torna movente, nesses belíssimos quadros em que é preciso pedras para a segurar das forças intempestivas do vento e do fogo solar, ou em que ela surge emoldurada e numa comunhão, fazendo mesmo corpo com os malmequeres amarelos (também remotamente conhecidos como flor-das-almas) que são como estrelas num céu, flores prestes a devorar a noite, começa a ser possível deixar partir para sempre essa memória, uma memória, um inaudível murmúrio que talvez tenha sido tudo – Amo-te, amo-te – que talvez tenha sido a ilusão das ilusões, a assunção de uma natureza condenada a errar, como na letra de Ray Charles ou como o plano final, todo o mar, toda a terra e todo o firmamento abertos.”

Para o Jornal do Fundão, o escritor Manuel da Silva Ramos admitiu que “é raro ver um filme em que o tempo joga contra o tempo, em que parecemos prisioneiros não do tempo exacto do filme (30 minutos) mas de uma beleza que se perpetua e parece nunca acabar. E se no final o detective enterra a fotografia da mulher amada (Loukia-Marianne – ou uma qualquer mulher), é para melhor se lembrar dela. « Amo-te e deixo-te partir para sempre », diz-se já no final da película, em que a intensidade da melancolia derivada do longo adeus nos é dada de uma maneira tão vibrante que temos o coração estrafegado e a respiração cortada.

“Este filme universal pelo tema que aborda, exibe a particularidade de uma narração off, em inglês, o que lhe concede uma dupla beleza e um duplo mistério. Na realidade, a beleza das palavras conjuga-se muito bem com todo o resto que é uma convulsiva arqueologia de sentimentos nunca abandonados. Estes trinta minutos de cinema magnético, de amor sublime, de amor louco, são inusitados na sétima arte portuguesa e constituem a partir de agora das coisas mais belas e fulgurantes que se fizeram nos últimos tempos em Portugal. E isso porque Mário Fernandes é, apesar dos seus trinta e três anos, um dos cineastas mais cultos do nosso país, e, sem dúvidas nenhumas, aquele que sabe melhor ler a literatura. Com a Grécia em pano de fundo, o cineasta desnuda-se e dá-nos um retrato poderosíssimo de si próprio.”

 

Obs: A versão original deste texto foi publicada em Lucky Star – Cineclube de Braga | 117ª sessão: dia 25 de Outubro (Quinta-Feira), às 21h30. Para efeitos da presente publicação sofreu ligeiras adequações.

 

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Categorias: Cultura

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Pedro Costa

Diretor e editor.

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