Luís Américo Fernandes

Leituras | ‘O Caminho sob o Silêncio das Estrelas’, de Agostinho Leal – Prefácio

Leituras | ‘O Caminho sob o Silêncio das Estrelas’, de Agostinho Leal – Prefácio

 

 

Este é o título de uma narrativa romanceada editada em setembro passado pelo meu amigo avense Agostinho Leal, peregrino de alma e coração dos Caminhos de Santiago e que a si próprio se designa como Leal Peregrino para quem o tem como amigo nas redes sociais.

E porque nesta narrativa o autor preferiu deixar-se exteriorizar nas suas personagens fictícias, passando das suas notas de viagem e memórias para o plano da criação romanesca, deixo de falar do Agostinho que todos conhecemos como pessoa singular, estimada aliás, para a ficção e a narrativa literária que construiu e que para todos é uma revelação.

“Estava uma vez mais no Caminho de Santiago, desta vez na Via de la Plata. A vida não foi muito fácil e o caminho sempre lhe preencheu um vazio que nunca soube explicar. Era como um retorno a si própria, como uma viagem à Terra do Nunca, onde podia dar largas à imaginação e recriar tantas coisas que nunca passaram de intenções.” Palavras ou pensamentos de Mayte, uma das várias personagens de vária procedência que se cruzam nesta Via de la Plata e que, por obra e graça de um destino narrativo, teve num outro peregrino fictício de nome Antón, a força de expressão e a marca de água para transformar
estas jornadas comuns de uns quantos peregrinos comuns expostos às mesmas agruras e cumplicidades da sua condição numa genuína narrativa romanceada capaz de dessedentar quem nela procurar uma experiência de proveito e de exemplo. A imagem mais pura que me fica desta leitura (que o autor quis que fosse de “revisor atento e crítico”) é aquela em que Mayte, exausta e quase sem água no seu cantil, vê Antón descobrir “por entre uma sebe de mato e silvas estorricadas”, pequenas melancias que apanha e metendo-lhes um pequeno canivete e cortando-as em pequenos pedaços lhos oferece dizendo: – Toma, tal como a fome e a sede não têm dono, estes alimentos são uma dádiva da natureza.”

Esta a arte de rasgar a canivete com simplicidade literária o caminho rude da peregrinação pelas agruras da Língua e da vida interior mesmo nas circunstâncias difíceis do “peregrino”dos Caminhos de Santiago ou de Finisterra.

A estas duas primeiras personagens do “Caminho…” a que já aludimos, outras se vão associando, nomeadamente, Cristóbal, um “caminhante para quem qualquer caminho serve desde que seja caminho”, ou, nas suas próprias palavras, “peregrino sim, porém a Santiago não sei”, mas para quem “a companhia é sempre bem-vinda e que, justamente de passagem por um lugar simbólico como Tordesillas onde, “algumas pessoas dividiram o mundo como se o mundo fosse um quinta, metade para nós, metade para vós”, deixou este pensamento solidário (ou o narrador por ele) “ainda bem que na actualidade se pensa mais em globalizar”, “e, mesmo assim, ainda anda por aí quem goste de construir muros”! Nesta meseta leonesa ou castelhana onde os caminhos se bifurcam e hordas francesas e alemãs engrossam as vagas que vão e tornam nem tudo é luminoso como constata Cristóbal: “Por vezes a solidão ataca e tudo se torna menos interessante. As pessoas parecem ficar mais distantes, por vezes quase como se não existissem. Passam, cruzam-se e notam-se ainda menos que o vento morno nos
campos sem fim da meseta castelhana. E a única companhia garantida é a da própria sombra.
Por vezes tudo se torna alheio. As pessoas vão e voltam como se nunca tivessem ido e voltado. E já nem a própria sombra é garantida. Até esta necessita do sol para nos fazer companhia.” Porém já antes, Cristóbal constatara outras realidades bem mais exultantes pelo Caminho, desde a leva de “bicigrinos” (peregrinos em bicicleta) a fazer o “Caminho del Sureste” e portugueses todos eles a trazer ao albergue uma vivacidade fora do vulgar: “E houve ceia comunitária. Onde chegam acaba-se a tranquilidade e lá se vai a introspecção.  Mas chega a alegria e reina a boa-disposição. E os portugueses são peritos no assunto. Agora vá-se lá saber como é que transportavam tanta coisa nas bicicletas. Apenas compraram o pão e o vinho na “tienda” e o resto saiu dos alforges. E parecia casamento! Farturinha de tudo.
Logo de entrada, foi chouriço alentejano e queijo de cabra regado com “La Rioja”.

O grupo definitivo de caminheiros que vai calcorrear os montes, declives e vales da Galiza só ficou efetivamente completo após a saída de Zamora com a integração de um grupo de portugueses, lá teria que ser, e duas raparigas chilenas, Luana e Josefa. É a personificação do verdadeiro espírito de caminhada na mística quotidiana de superação das dificuldades com auto-ajuda constante, na descoberta das marcas culturais que os antepassados deixaram na paisagem, no levantamento dos mitos e narrativas associados às vivências milenares do caminho compostelano, de Finisterra e à introspeção do olhar “sob o silêncio das estrelas” e da Via Láctea”. E, se para uns a fé em Deus, presente ou não na sua Igreja católica, apostólica e romana, é uma realidade que os ilumina e transcende, ou uma vaga miragem no firmamento, discutir estes assuntos e aprofundá-los é também um caminho de ascese e de
interrogação. Afinal, como diz Cristóbal, “não me parece que seja necessário ter um motivo para meter os pés ao caminho” e todos estão de acordo que “hoje se vem pelos mais variados motivos, e como tu, até mesmo sem qualquer motivo”, ou tão só pelos “relacionamentos bons” que se encontram pelo caminho.
E verdade seja dita que neste grupo emergem simpatias recíprocas, casos de enamoramento, como o de Mayte por Antón que, dava a ideia, “andava nos caminhos para expiação dos pecados que havia cometido no passado”, razão pela qual evitou até ao final uma aproximação sentimental várias vezes esboçada por aquela. Antón, efetivamente, mesmo gostando da companhia de Mayte, vivia para o caminho e protestava “não saber onde querer chegar ou desconhecer o fim do caminho; aproveitou um interregno na viagem para prestar um serviço de pedreiro e ganhar uns cobres no arranjo de uma casa deixando no ar uma vaga expetativa: “havemos de nos encontrar novamente”… “pode ser até que nos
cruzemos um dia destes”, deixando por conta do acaso e do destino um possível reencontro entre ambos que, de facto, veio a ocorrer.

Num momento final da narrativa, Mayte despede-se de Antón e declara-se-lhe nestes termos: “Vou sentir a tua falta! Parte de ti fica comigo. Ao que Antón responde: “Também te levarei no meu coração. Não chores porque um dia destes encontramo-nos por aí. O caminho tem destas coisas.” Abraçaram-se e de seguida Mayte tirou um pequeno caderno do seu saco que ofereceu a Antón dizendo-lhe: – É para ti. Gostava que começasses a escrever as tuas memórias. Tens muito para contar. E todos nós precisamos delas, pois temos muito para aprender.

E como Antón lhe perguntasse se queria ajudá-lo a escrevê-las e ela lhe respondesse que com ele iria até ao fim do mundo, Antón apenas acrescentou:

– Para já, vamos apenas até ao fim da terra. Depois logo veremos.”

E porque o Caminho da leitura, uma vez balizadas algumas das coordenadas a seguir, se processa também por uma ascese pessoal de cada leitor com a ajuda do “bastão de peregrino” com que as circunstâncias da cultura dotou cada um, julgo dever sair também do Caminho e desejar a quem me acompanhou neste “esboço” que prossiga na senda desta “narrativa romanceada”.

Agostinho Leal nasceu em Penafiel, mas cresceu em Vila das Aves, terra que abraçou e sempre quis que fosse a sua. Trabalhou na antiga fábrica de Poldrães tendo passado pela JOC e pelo CNE até se entregar à vida militar como Sargento Pára-quedista, mudando a sua residência para Ovar. Em 2011 meteu os pés nos caminhos de Santiago onde descobriu o palco perfeito para o encontro consigo próprio e com os outros peregrinos. Depois de percorrer cerca de quatro mil quilómetros por vários caminhos, chegou a hora de partilhar vivências.

Obs: Para efeitos da presente publicação, a edição deste texto sofreu apenas ligeiras adequações, uma vez que o original foi escrito antes ainda da publicação do livro ‘O Caminho sob o Silêncio das Estrelas’.

 

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