Diogo Martins

Dar Coisas aos Nomes | Qualquer coisa assim – da poesia em Famalicão

Dar Coisas aos Nomes | Qualquer coisa assim – da poesia em Famalicão

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Sábado de manhã, 29 de setembro, na Fundação Cupertino Miranda, era apresentado o livro Carmina 3 – do corpo: outras habitações, identidades e desejos outros em alguma poesia portuguesa, título longo, mas politicamente fecundo e urgente, da antologia organizada por Ana Luísa Amaral e Marinela Freitas, com chancela da Assírio & Alvim e apoio da Fundação.

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Pouco depois, seguia-se uma conversa com três poetas – Jorge Sousa Braga, Fernando Aguiar e Helga Moreira –, moderada por Isabel Pires de Lima. Uma epígrafe de William Carlos Williams, escolhida por Jorge Sousa Braga para abrir a antologia Sombras Brancas – Setenta e sete poemas sobre anjos caídos de outras línguas, por si organizada (ed. Língua Morta, 2016), serviu de ignição para o tipo de diálogo informal que ali se desejava: “Poets are damned but they are not blind, they see with the eyes of angels.” A cegueira da poesia é, pois, um tipo peculiar de vidência: aquela que vê com palavras, que põe em texto uma singular evidência que, de outra forma, permanece invisível, sem expressão, sem poder de se afirmar. E mesmo reconhecendo, como desabafou Jorge Sousa Braga, que “os poetas”, na verdade, “são todos uns aldrabões”, muitos deles com “egos excessivos”, acrescentava Fernando Aguiar, essa quota de aldrabice é ontologicamente prestidigitadora: porque é por aí que a poesia cria realidade, acrescentando real ao nosso real, fingindo real dentro do real (o poeta é um fingidor, etc., etc.) e, por essa via, ampliando-o, subvertendo-o, instabilizando-o. É por aí que surte os efeitos do seu poder sobre os leitores, levando-os a interrogar o sentido das coisas que leem, o sentido do próprio sentido, a verdade que habita o coração da mentira (e as mentiras de que são feitas as verdades, os dogmas, a pretensa natureza das coisas e da linguagem), em suma, o sentido das imagens que, inevitavelmente, se despregam das palavras que lemos e ouvimos.

(Já agora, não consigo precisar, de momento, se o que Jorge Sousa Braga dissera foi antes “uma cambada de aldrabões” – e faço este reparo, porque o termo “cambada”, aqui, restitui à expressão a graça física do autor, com a pronúncia do norte a embalar-lhe as frases, mais o seu pundonor e minimalismo expressivo, entre o frete de estar à mesa, forçado tacitamente a debitar iluminações que espantem o público, e o gozo silencioso de ser fiel à poesia, isto é, de saber de antemão que a única coisa que importa dizer sobre ela é calarmo-nos bem calados e lê-la, partilhá-la, vivê-la nessa singular comunhão, nada menos que espiritual: “A biblioteca é um lugar sossegado / Anjos e deuses amontoam-se / Em escuros livros por abrir / jaz o grande segredo / em alguma prateleira onde Miss Jones / passa todos os dias quando faz a ronda // Ela é muito alta / a cabeça sempre inclinada como se estivesse a ouvir / Os livros murmuram / Eu não ouço nada mas ela sim”, do poema “Na biblioteca”, de Charles Simic, traduzido por Jorge Sousa Braga, em Sombras Brancas.)

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Mas o que me incita a escrever esta crónica, mais do que a assinalar propriamente o evento ou a procurar fazer-lhe a síntese, é a intervenção de uma pessoa na audiência. O senhor em questão desafiou os poetas presentes com o seguinte repto: “Um dicionário pode ser um poema?” O indivíduo alegava advir a sua dúvida da perplexidade com que fica mediante certos livros considerados poesia, seja pela crítica, seja pelo próprio autor dos textos, seja tão-só pela designação que surja inscrita na capa de um livro. “Porque há textos que, para mim, não têm nexo algum”, reforçava. “Não têm sentido!”

Ainda que os poetas da mesa tenham sido apanhados de surpresa com o rumo que o debate levaria (ademais, diria que a conversa andou por ali um pouco aos soluços, um pouco taralhouca, cada qual passando a batata quente até esta ser lançada ao chão sem grande fragor), admito que, por experiência com alunos do secundário, a angústia daquele leitor – que, sublinhe-se, não quis deixar de vincar que é leitor de poesia – me é bastante familiar. Assim como o drama da leitura aliada à inteligibilidade, ao imperativo de provar que aquilo que se leu ficou esclarecido. Entenda-se: a parte do “isto não tem nexo” é gémea do “Isto sai no teste, ‘stor?”. E quando, de facto, não se compreende aquilo que nos é dado a ler como poesia, reage-se com raiva, o ressentimento toma o lugar àquilo que deveria ser uma desinteressada fruição da leitura (a jouissance de que falava Roland Barthes). Se ler poesia equivale a estudá-la para avaliação em exame (ou, tão-só, para autoavaliação, vigiando constantemente as nossas leituras sob a chibata da racionalidade analítica), não saímos daquilo que o pensador Jacques Rancière denomina como “a ficção da desigualdade”, inscrita num sistema que determina, a priori, o lugar que cada um ocupa numa hierarquia de saberes: “Explico uma frase a alguém porque suponho que essa pessoa não a compreenderia se eu não lha explicasse. Isto é, explico-lhe que, se eu não lha explicasse, ela não a compreenderia. Numa palavra, explico-lhe que ela é menos inteligente do que eu e que por isso ela merece estar onde está e eu onde estou. […] A explicação transforma todo o querer dizer num segredo de sábio; a retórica transforma todo o querer compreender num saber compreender” (in Nas Margens do Político, 2014, pp. 97-8).

“Não tem nexo”, insiste o senhor. Pois não, não tem, e a poesia pode prescindir do nexo. Mas “tem sexo”, reagiria Ana Luísa Amaral para gáudio e anuência do público, tendo em conta que a terceira edição destas jornadas Carmina procurou assinalar “a inscrição do corpo desejante na poesia portuguesa”, problematizando a identidade de género, a diferença sexual e “a problemática do corpo e do desejo ora não normativo, ora não sancionado” (lê-se na introdução da antologia, pág. 13).

De novo: sem nexo. Mas o que importa, por vezes, trazer a lume é que a poesia, se for forçada à premência de fazer sentido, se lhe dobrarmos a espinha em função da semântica, deixa de ser “a liberdade livre” que António Ramos Rosa aludia no título do seu célebre livro de ensaios sobre poesia, referido por Jorge Sousa Braga no rescaldo da conversa. E a liberdade livre da poesia não se esgota no sentido anexado às palavras do dicionário. O sentido devém tão infinito quanto a experiência do corpo o pode ser, tão infinitamente impenetrável, misterioso e paradoxal, cheio de luz e obscuridade: “[…] Uma boca é imortal / sobre outra boca: diamante / aceso, estrela aberta / quando a luz irrompe, invade // ombros, peitos, coxas, nádegas, falos. / Despertos, puros no seu pulsar, / aí os tens: esplendorosos, / duros” (Eugénio de Andrade, pág. 82 de Carmina 3).

E quando conseguirmos prescindir do sentido como condição irrevogável da experiência de ler poesia, talvez se aclare a natureza do nosso desdém ou repulsa por aquilo que lemos, enquanto o desdém ou a repulsa forem percebidos como parte integrante daquilo que é a vida, incluindo a vida da/ na literatura (Henry Miller defenderia que os melhores livros são aqueles que nos ajudam a esquecer que estamos a lê-los, tal é a zona de indiscernibilidade que se alcança entre a leitura e a vida). Ler, não compreender, não gostar – isto também é leitura. Implica sermos críticos do que lemos, aprendendo a separar as águas acerca do que comunica e do que não comunica connosco.

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Mas a poesia, afinal, tem… o quê? (Era esse, aliás, o mote da discussão.)

Alguém respondeu: tem palavras. Não tem sentimentos, nem emoções, nem delírios – tudo isso são ondas concêntricas que crescem mediante a força do impacto da pedra sobre a água. Mas é preciso, primeiro, que se lance essa pedra – e mesmo a leveza mais imaterial pode conter gravitas suficiente para deslocar placas tectónicas e acordar vulcões, arrancando-nos a carne aos ossos. Como? Por exemplo, assim: “Não sei como é possível falar desse / rapaz pelo interior / de cuja pele o sol surge antes de o fazer no céu”, Luís Miguel Nava, num dos poemas da antologia (p. 257). Um poema, três versos, e logo a abrir a confissão de uma incapacidade: “Não sei”. O poeta não sabe como descrever esse rapaz. Então que faz? Capta-lhe o indizível, captura-lhe o efeito de uma força que transborda todo o dizer: um sol que nasce pelo interior desse rapaz, “antes de o fazer no céu”. Não é de metáforas que isto se alimenta: é de sangue, é de corpos em fogo, de inversões entre o dentro e o fora, entre o humano e o cósmico. E de um deslumbramento sem fim. É esse sem fim que aqui toma expressão e devém poema, dizendo tudo o que há para dizer. (Sentir? Sinta quem lê, já previa Pessoa.)

A poesia tem palavras. É um real feito de palavras, num sentido muito terra a terra. Parece empobrecedor, mas é, aliás, o contrário da falsa pobreza verbal, que é o excesso de ruído e da ganga sentimental com que se besunta muito do que verseja por aí. Dizer que a poesia tem palavras ilumina aquilo em que reside, de facto, o seu poder para provocar atrito(s), como o pequeno grão de areia que, atirado para o meio da engrenagem, a faz tremer, guinchar, até que, efetivamente, não tem remédio senão parar – e fazermos parar, fazendo-nos pensar, fazendo-nos ver no tempo o que, amiúde, não temos tempo para ver. Como salientou Marinela Freitas, horas antes, no mesmo dia: “O poder político da poesia não se mede em números, porque a poesia ensina-nos a contar de maneira diferente”.

Quando leio poesia, nunca consigo desembaraçar-me totalmente de uma incerta apreensão ou desconforto. Quase vergonha. Leio versos feitos com as palavras mais irredutivelmente simples e estremeço com a visão nítida, implacável, com que certas imagens deflagram no branco da página. Estremeço com a minha constatação irremediavelmente tardia: Eu nunca consegui escrever isto, nem nunca fui capaz de escrevê-lo assim. Mas o tremor prende-se com o (re)conhecimento daquilo que leio: estas palavras afetam-me porque reconheço o sentido que têm para mim; e reconheço-o, ou porque expressam o que tentei escrever e não consegui (e capto de imediato o inexpresso desse sentido), ou porque, muito simplesmente, reconheço ter dito aquilo, assim, verbalmente, em conversa com alguém, em furioso silêncio comigo mesmo. E estremeço feliz: feliz por nunca o ter escrito, ou feliz por ter tentado escrevê-lo, mas mais feliz por ter sabido gorar a tentativa, ora metida para a gaveta, ora perdida para sempre no software de um velho computador deitado ao lixo.

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Porque há poemas que são isso mesmo: um fulgor que nos reensina a olhar, um rumor que nos escolhe para que o escutemos e, pelo caminho, que nos escutemos também a nós, entre a nossa voz e a dos outros, e entre as múltiplas vozes que nos falam sempre que abrimos a boca apenas para enunciar o essencial. Mesmo em silêncio, sobretudo o silêncio: não o da cobardia, mas o da resistência. “Agora”, replica Golgona Anghel, uma das vozes mais interessantes da poesia portuguesa atual, “não se iludam, / guardem os passarinhos para um churrasco gourmet. / Este caminho não leva a lado nenhum. / Quanto muito, levaria ao inferno, / se tal coisa houvesse. / Mas os abismos andam sobrevalorizados. / Por uma questão de hábito, entende-se, / ou talvez seja o feitio, / teremos sempre o olhar triste, / os pés descalços, / a mão estendida. / Deixem-nos, ao menos, / vender-vos uma boa história” (último poema da antologia Carmina 3).

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Por fim, uma nota a assinalar o primeiro aniversário da Vila Nova. Agarrei com unhas e dentes o convite que o Pedro Costa me endereçara há um ano para escrever nesta revista, e continuo com o mesmo entusiasmo: escrever sobre livros, imagens, corpos, ideias, as presenças e as ausências de que se anima toda e qualquer forma de linguagem, que é sempre forma de vida. Escrever, não tanto como quem ensina (no sentido mais hierarquicamente clássico da coisa), mas como quem partilha experiências de leitura e visões sobre as coisas, sabendo de antemão que o esquecimento próprio do amanhã conspira fatalmente contra mim. Mas, não obstante, a consciência disso é o que faz valer a pena as horas que tomam a escrita destes textos. Sobre isso, o poeta Manuel António Pina disse tudo o que importa neste remate: “A grande dignidade do jornalismo – e da própria natureza humana – é tentar fazer o jornal o melhor possível sabendo que no dia seguinte ele vai embrulhar peixe. O mínimo que nos é exigível é o máximo que somos capazes de fazer. Nas coisas simples do dia-a-dia. Ser da maior bondade possível no quotidiano. A bondade é a maior de todas as qualidades. Inclui a beleza, a justiça e a verdade. Ser o mais bondoso possível sabendo que isso é inútil.” Parabéns, Vila Nova. Obrigado, Pedro.

 

Referências:

Ana Luísa Amaral & Marinela Freitas (org.), Carmina 3 – do corpo: outras habitações, identidades e desejos outros em alguma poesia portuguesa, Porto, Assírio & Alvim, 2018.

Jorge Sousa Braga (org. e trad.), Sombras Brancas – Setenta e sete poemas sobre anjos caídos de outras línguas, Lisboa, Língua Morta, 2016.

Silvina Rodrigues Lopes, Literatura, defesa do atrito, s.l., Chão da Feira, 2012.

Jacques Rancière, Nas Margens do Político, trad. Vanessa Brito e João Pedro Cachopo, Lisboa: KKYM, 2014.

Manuel António Pina, Dito em voz alta, org. Sousa Dias, Lisboa, Documenta, 2016.

 

Imagens: Fundação Cupertino Miranda (álbum disponível na página de Facebook)

 

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Categorias: Crónica, Cultura

Acerca do(a) Autor(a) do artigo

Diogo Martins

Diogo Martins nasceu em 1986 e é natural de Nine, do concelho de Vila Nova de Famalicão. Doutorado em Teoria da Literatura pela Universidade do Minho, iniciou em 2017 um projeto de pós-doutoramento intitulado "Ousar corromper: (o)caso retratístico em Rui Nunes". Interessa-se por poesia, literatura, cinema e fotografia, e mais ainda pelas relações entre estas e outras artes.

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