Agostinho Fernandes

Arte Urbana | Os 4 murais das Lameiras (em Vila Nova de Famalicão)

Arte Urbana | Os 4 murais das Lameiras (em Vila Nova de Famalicão)

 

 

Saúdo efusivamente a ideia, o lugar, a escolha e a técnica artística dos quatro notáveis Famalicenses com que se mimoseou o icónico Edifício das Lameiras, a caminho dos 35 anos de idade, obra do prestigiado arquiteto e ilustre humanista famalicense Noé Dinis, residência de 300 famílias originárias inicialmente da maioria das freguesias do concelho e a que assisti praticamente à sua entrada, de dia e de noite, ali mesmo na encruzilhada de todos os caminhos deste velho Minho, em expressão de Santana Dionísio, como se de deuses pátrios se tratasse. São eles:

Camilo Castelo Branco, 1825-1890

Alberto Sampaio, 1841-1908

Bernardino Machado, 1851-1944

Júlio Brandão, 1869-1947

todos nascidos fora do nosso burgo famalicense salvo Júlio Brandão, mas que bem cedo optaram como muitos outros cabouqueiros do progresso entre nós, por Vila Nova de Famalicão. Nasceram todos no século XIX e morreram todos no século XX à exceção do penitente suicida de Ceide, tendo-se notabilizado todos nas mais diversas áreas dos saberes, referência que são a nível nacional, 4 famalicenses maiores que bem merecem a melhor atenção, estudo e leitura por parte de todos nós.

Foi boa escolha?… Foi, sem hesitações, privilegiado que é aquele sítio por onde os famalicenses passam diariamente, bem como quem nos visita e atravessa em todas as direções. São largos milhares de automóveis por dia apesar do maior cruzamento de autoestradas em todas as grandes direções deste País. E se alguma mulher falta no conjunto desta quase peregrinação ela deveria ser Ana Plácido, irmã da Dª Antónia Ferreira que tanto fez pelo vinho do Porto e amiga do Barão de Forrester que morreu em naufrágio de um rabelo no rio Douro e ainda da baronesa de Joane, não por ser a mulher fatal do Escritor de Ceide mas por ela própria e pelo que escreveu também, viveu, amou e sofreu, ambos que tinham ali o seu coração e tesouro. Se é verdade que em cada ser humano existe uma opção crítica fundamental importa salientar que no mundo da Arte as afinidades conseguem suplantar largamente as posições individuais pelo que uma seleção deste género, discutível embora, radica sempre em constantes culturais bem definidas.

De homens daquele tempo vejo algumas figuras mais, que tão rico é o nosso século XIX, falemos de Vasconcelos e Castro, barões de Trovisqueira e Joane, Bernardo Pindela e José de Azevedo e Menezes, conde de S. Cosme do Vale e Narciso Ferreira, homens da Boa Reguladora ou da Tipografia Minerva, Felizarda Ernesto de Carvalho e Mercedes Ferreira, Sousa Fernandes e Álvaro de Castelões, entre muitos outros que os temos e grandes, dentro de portas, homens e mulheres a merecer mesmo estatuária. Refiro-me, por exemplo, ao grande fidalgo mareante e combatente Salvador Correia de Sá, amigo de D. João IV, uma grande figura bem conhecida da história de Portugal e mal conhecida entre nós. Como é que isto pode continuar a acontecer?… Diria ainda que, a meu ver, a figura de Vasconcelos e Castro (1786-1853) precisaria de mais destaque no espaço da cidade e de Joane, onde nasceu e faleceu, e Gavião, onde casou em 1812, logo depois da retirada dos franceses que tinham invadido Portugal desde 1807, e casou com Dª. Maria José Correia de Faria, oitava senhora da Quinta de Real e senhora da Casa de Quintães onde nasceu em 1789, ano marcado a ferro e fogo em França, e viveu na casa do então Morgado da Casa Real das Quintães, Francisco Jerónimo de Vasconcelos e Castro, exatamente na casa onde habita hoje o meu vizinho, grande humanista e amigo de há muitos anos, Carlos Augusto Vieira de Castro, um dos melhores empresários deste País.

Foram todos contemporâneos e grandes homens, todos amigos e criadores, empreendedores mesmo, pese embora os tempos conturbados da Regeneração e da 1ª República. Seria fastidioso enumerar aqui as suas amizades comuns e que se alongam ao todo nacional quer nas artes e letras quer na vida política nacional. Camilo era visita de Bernardino no palacete dos Machados como era de Alberto Sampaio no velho convento de Landim, onde dispunha de um quarto, fazendo o trajeto a pé. As crianças fugiam para casa quando o avistavam. O grande Antero escrevia para que Alberto Sampaio lhe enviasse pelo comboio umas quantas garrafas do precioso néctar de Boamense, para além dos encontros em Vila do Conde onde Antero teve uma casa, enquanto Júlio Brandão tecia amizade com o grande Raúl Brandão da casa de Nespereira e escrevia de parceria com a sua mulher Angelina. Só viveram no tempo do Estado Novo (1926-1974) Bernardino Machado, que sofreu o exílio com a família quase permanentemente por Espanha e França, e Júlio Brandão. Dois repousam no Porto e dois em Vila Nova de Famalicão. Camilo, como se sabe, está no cemitério da Lapa no Porto, no jazigo do amigo Freitas Fortuna, e Júlio Brandão em Agramonte, no Porto também, Alberto Sampaio está próximo da sua casa de Boamense, em Cabeçudos, e Bernardino Machado no cemitério municipal no jazigo do seu pai, o Barão de Joane, apesar de tentativas diversas e periódicas, ao longo dos tempos, para o deslocarem para Lisboa, ele que nascido no Brasil foi de regresso, quase de imediato, registado na nossa Terra por vontade de seu pai, o 1º Barão de Joane. A última tentativa foi de Mário Soares, de visita ao jazigo como Presidente da República. Não deixo de me surpreender em saber onde estão todos em termos de repouso final.

Somos uma comunidade importante no contexto nacional por muitas razões e a exaltação dos nossos maiores por quem nos visita e passeia nesta rosa-dos-ventos ou encruzilhada de caminhos entre Braga-Porto, o 1º troço inaugurado de autoestrada em Portugal e do interior para o litoral atlântico, é extremamente oportuna e reveste-se do maior significado para eles e para nós, povo de gente empreendedora onde campeia o poder da iniciativa e avança a justiça social em sintonia com os municípios mais avançados da Europa. Vivemos um excecional momento político em que, para além da azáfama do trabalho e da realização pessoal, temos paz e maturidade cívica e social para recordar os nossos maiores. Quem não tem memória histórica não vive e a Europa é a nossa casa comum depois de cruzarmos os mares durante séculos e termos descoberto grande parte de novos mundos e países.

Temos séculos de história e monumentos, empresas de produção agrícola e industrial, equipamentos públicos em todas as áreas do desporto, saúde e educação, autoestradas e caminho-de-ferro em todas as direções, água de grande qualidade e saneamento generalizados, temos criadores e artistas dentro de portas com realce para os jovens artistas d’ A Casa ao Lado, Joana e Ricardo, para além dos quase 50 jovens que trabalharam nesta iniciativa, em tempo de férias e em parceria com a Associação Dar as Mãos, que merecem que mantenhamos viva a sua obra e memória entre todos nós. Enquanto se é lembrado ninguém cai no esquecimento mesmo que tenha morrido. A vida é como a corrente de um rio da nascente até à foz, que pode ser o oceano até, onde tudo se agrega, junta e purifica. Aí está o rio Ave como moldura a sul do município para o demonstrar enquanto o tranquilo Este quase que o bordeja a poente, por entre campos e vinhedos, até ao abraço final em Gondifelos.

Que cada Terra deste país cuide dos seus que nós cuidamos dos nossos, dos que escolheram viver e permanecer por cá, como o Ave e o Este que nos pertencem e exalam os seus encantos e murmúrios, dia e noite, para todos nós, desde que o mundo existe. Quase como aquelas muitas freguesias velhinhas e anteriores à nacionalidade que foram decepadas da sua existência por uma guinada acéfala de um pseudogovernante, grande ignorante e agiota quanto baste. Espero bem que ressuscitem do ostracismo temporário, algumas delas com historial anterior à nacionalidade e carta de alforria quase milenar, salvaguardadas e definidas que sejam as novas regras. Claro que elas continuam por aí mas perguntem aos seus habitantes de raíz se é a mesma coisa. O Terreiro do Paço não pode continuar a produzir tais aleivosias!… Haverá maior forma de regionalização que a de respeitar o poder local democrático de base popular, onde quer que ele exista?…

Estes grandes murais, depois da linguagem plástica e alegoricamente inspirada dos excelentes painéis de Charters de Almeida, na fundação do grande famalicense, Artur Cupertino de Miranda, aqui ficam para memória e proveito de todos nós, ombreando com o melhor que hoje se faz em termos de arte urbana, uma forma estética de marcar, definir, individualizar, promover e cantar as glórias da nossa Terra.

E porque não converter Sinçães no parque dos poetas famalicenses?…Ele há tantas vozes por aí a precisar de serem lidas e ouvidas no silêncio das sombras e remanso das árvores nossas amigas!… Porque não?… Ver ou não ver não depende dos nossos olhos mas da adesão ou não do nosso coração e por isso repetimos que o nosso tesouro está onde ele está. Vicente Arnoso, Casais Monteiro, Júlio Brandão, Castelões, Fernando Minho, Ana Plácido, Sebastião de Carvalho, Cerejeira, Aurélio Fernando, Manuela Monteiro, Salvador Coutinho e Marta Duque Vaz… E para quando a inclusão nas histórias da literatura portuguesa dos autores locais?… É por aqui que se deve começar a conjugar a descentralização. Há que pensar na floresta e na árvore, costurando com critério e elevação a polifonia literária.

Aqui fica uma sugestão para mais embelezar esta Terra de 813 anos… Terra de Amigos e onde todos os homens se abraçam pois que, como bem ensinou o grande pedagogo e civilista, António Sérgio… faça-se guerra às ideias e paz aos homens de boa vontade. Somos todos portugueses e estamos de bem com todos, em especial, dos povos migrantes que nos procuram, não prezássemos nós a liberdade e praticássemos a solidariedade e a tolerância. O destino de todo o homem é comum pois que todos somos diferentes mas, observando mais de perto… somos todos iguais. E é mesmo verdade… bastando ter olhos de ver!…

 

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Categorias: Arte, Crónica, Sociedade

Acerca do(a) Autor(a) do artigo

Agostinho Fernandes

Agostinho Peixoto Fernandes nasceu em Joane, em 1942. Após a instrução primária, ingressou na austera Ordem do Carmo, em Viana do Castelo, tendo terminado a licenciatura em Filosofia na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Como professor do ensino Secundário ocupou, a partir de 1974, vários cargos de gestão em estabelecimentos de ensino. Entre 1980 e 1982 foi vereador da Cultura, pelo Partido Socialista, na Câmara Municipal de Famalicão, sendo Presidente Antero Martins do PSD, onde alicerçou uma política inovadora nesta área. Promoveu os Encontros Municipais e de Formação Autárquica, fundou o Boletim Cultural. Dinamizou o movimento associativo local. Em 1983 foi eleito presidente da Câmara de Famalicão, cargo que ocupou até 2001. O seu trabalho de autarca a favor da educação, ensino e acção social (foi um dos primeiros autarcas do país a criar no seu concelho uma rede pública de infantários) foi reconhecido em 1993 pela UNICEF, que o declarou “Presidente da Câmara Amigo das Crianças”. Ao longo dos seus sucessivos mandatos – que se estenderam por um período de quase 20 anos – o concelho transfigurou-se. A ele se deve a implantação de importantes infra-estruturas como o Citeve, Matadouro Central, Universidade Lusíada, Escola Superior de Saúde do Vale do Ave, Biblioteca Municipal, Artave, Centro Coordenador de Transportes, Casa das Artes, Museu da Indústria Têxtil e piscinas municipais. Também tomou decisões polémicas, como a urbanização da parte dos terrenos de Sinçães, a instalação de grandes e médias superfícies comerciais à entrada da cidade e a demolição do Cine-Teatro Augusto Correia. Foi um dos fundadores da Associação de Municípios do Vale do Ave, tendo, neste âmbito, enfrentando a maior contestação popular dos seus mandatos com a construção da ETRSU de Riba de Ave. É sócio de inúmeras associações cívicas, culturais e de solidariedade social e foi mandatário concelhio de Mário Soares e Jorge Sampaio (1º mandato) nas suas campanhas à Presidência da República.

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