Diogo Martins

Dar Coisas aos Nomes | Nós, os Monstros

Dar Coisas aos Nomes | Nós, os Monstros

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“[…] os homens precisam de monstros para se tornarem humanos” (José Gil, Monstros, Relógio D’ Água, 1994: 88). Lembro-me muitas vezes de uma cena em particular do filme Se7en, de David Fincher, a propósito desta premonição subjacente à ideia que fazemos de um “monstro”. No filme, Brad Pitt e Morgan Freeman, os dois detetives de serviço, estão a conversar num bar a respeito daquilo que caracteriza o serial-killer responsável por todos aqueles crimes inspirados nos sete pecados mortais, um por cada dia da semana. Que tipo de homem será aquele, quando não está, efetivamente, a assassinar alguém e a encenar todo um espetáculo grotesco – como obrigar alguém a sufocar de tanto comer sem apetite, ou amarrar um pederasta a uma cama durante um ano até que o pecado da preguiça lhe apodreça o corpo, entre outras manifestações engenhosas da perversidade aliada ao fanatismo religioso?

Mas atenção, e este reparo é feito pela personagem de Freeman, homem sobriamente resignado face à vida, vida que o mesmo viu ser delapidada até se esvaziar de sentido pelos crimes que investigara ao longo de todos os anos de serviço: aquela série de crimes, por mais grotesca que se assemelha, é, ainda assim, absolutamente racional. Porque nada é deixado ao acaso, nada é cortado ou esventrado à pressa. Note-se que o assassino não é um iletrado qualquer, que se deixe guiar pelos instintos mais primários: afinal, o assassino lê Dante, lê Shakespeare, leu o Paradise Lost, aprecia a arte da demora e do planeamento altamente refinado de cada crime, dá tempo ao tempo até que cada morte obedeça ao princípio estético – e terrivelmente moral (porque cada crime se converte numa espécie de sermão dominical) – daquilo que projetara anos antes de a ideia devir cadáver.

Brad Pitt é o detetive passional, que mais facilmente cede aos seus impulsos (quem viu o filme nunca se esquece daquele epílogo), acreditando que o assassino não passa de um delinquente, de um psicopata, sem dourar todo o sangue derramado com pretensões esteticistas. Pitt acredita que, juntos, ele e Freeman, conseguirão apanhar o tipo, que é apenas “fucking crazy”, nem mais, nem menos. E acredita que conseguirá mudar o mundo – nem mais, nem menos, também. Morgan Freeman, com aquela voz demorada, aquela respiração silenciosa que inspira saber e reverência, representa a consciência magoada da falência de todos os projetos de vida, o desânimo entorpecente de quem nunca conseguira resignar-se à acumulação de corpos nas estradas, à banalidade do mal, à acefalia pura de cada desastre doméstico – até à trágica hora em que, de facto, se resigna, mesmo que, cabisbaixo, continue a suportar a íntima desordem dos dias e a sua ausência de sentido (logo no início do filme, um outro polícia faz troça dele, assim que Freeman, no local de um crime, pergunta se “a criança assistira a tudo”, enquanto descola um desenho infantil da porta de um frigorífico salpicado de sangue; “esse tipo de perguntas”, resmunga o tal polícia, “não interessa para nada”).

Voltando à cena do bar: segundo Freeman, o erro de pensamento cometido pela personagem de Pitt reside na sua apressada generalização, na cegueira constitutiva daquele otimismo quase adolescente (e cego, precisamente, porque Pitt já não tem 16 anos): o facto de este retratar aquele assassino, no fundo, como um monstro evidente, o inimigo na sua dimensão mais facilmente repudiável. E eis que Freeman esclarece o seguinte: “If we catch John Doe and he turns out to be the devil, I mean if he’s Satan himself, that might live up to our expectations, but he’s not the devil. He’s just a man.” Na última frase – “He’s just a man” – destacaria aquele “just”: o equivalente não-verbal de duas mãos com as palmas viradas para cima, exibindo o seu vazio, um movimento de ombros que acompanha o nosso embaraço perante a exorbitante constatação de que aquele nada nas mãos é já-ainda alguma coisa, essa coisa, esse nada evidente. Queríamos ver um “monstro”, uma criatura que, pelas suas imediatas características físicas, exorbitasse qualquer limite psicofisiológico, que rompesse de forma inequívoca a linha tangível pela qual nos guiamos dia a dia para traçar a diferença entre o humano e o não-humano, entre a segurança inconsciente e a ausência de chão sob os pés – mas afinal ele não passa de um homem, “just” isso.

O que, depois, nos pode levar a repensar a maneira como reagimos perante as boçalidades em série que advêm de um Donald Trump, da conduta de um Vladimir Putin, das táticas de uma Marine Le Pen ou de um outro qualquer indivíduo que decida rebentar consigo próprio no meio de uma discoteca apinhada de gente a viver a sua vida, como acontecera em Orlando, nos EUA. Nenhum destes tipos é um “monstro”, no sentido vagamente fantástico ou irreal do termo, captado da herança dos clássicos do terror ou da imaginação de Hollywood: cada um desses tipos é um compósito de múltiplos atributos, complexamente intrincados, que exigem da nossa parte a responsabilidade demorada de assumirmos um pensamento de inegociável resistência, sabendo ler os fenómenos, a sua história, sem quaisquer escrúpulos. Nenhum desses tipos é radicalmente contrário ao nosso “humanismo” – é tão fácil usarmos este chavão como o nosso escudo protetor mais inatacável, como se a palavra “humanismo” imediatamente convocasse todo o espírito ocidental e todos os altos valores de que se reveste a nossa civilização, sem a jeito de se usar na lapela para dar lições morais aos outros. Mas esquecemo-nos de que, por exemplo, o nazismo é uma expressão desse mesmo humanismo: as câmaras de gás são a outra face da moeda do progresso, da razão, do logos (esse critério que diferencia, supostamente, os homens e as mulheres como seres políticos, ao contrário dos restantes animais); e foi em nome da civilização, da sua preservação contra as ameaças externas, que os apoiantes de Hitler trataram de toda a burocracia para encaminharem homens, mulheres e crianças para a morte – o século XX para a infâmia.

Peter Sloterdijk, numa célebre comunicação que deu azo a uma veemente polémica, Regras para o parque humano, assinalaria como o “humanismo” é inseparável de condições “antropotécnicas”, isto é, daquilo que torna o animal humano um produto, inscrito num determinado modo de produção e regulamentação (e é aqui que entram em jogo a eugenia nazi ou as bioengenharias): “Se há uma dignidade dos homens que mereça em sentido filosófico ser trazida à linguagem, será sobretudo porque os homens não são simplesmente guardados em parques temáticos políticos, mas porque são eles que, por si, neles se mantêm. Os humanos são seres que se cuidam, se guardam a si mesmos, que geram, vivam onde vivam, um espaço parquizado em torno a si próprios. […] em todos os lados devem os humanos formar uma opinião sobre como deve ser regulada a sua conduta para consigo próprios” (Sloterdijk, 2007, p. 67).

Tal como o peixe que nunca conhecera outra realidade aquém da água, o humanismo deveio sistematicamente a ideologia do senso comum, o discurso de fundo que sustenta a nossa sobrevivência. Mas o humanismo é para nós o que a água é para o peixe: aquilo a que se subtrai qualquer necessidade de perigar o pensamento, aquilo que suaviza as arestas da reflexão crítica, até que já nada sobre de reflexão, quanto mais de crítica. (E poderíamos colocar aqui, igualmente, o que o programa de austeridade – o TINA, “there is no alternative” – foi, e continua a ser, para muitos responsáveis das instituições europeias.)

Depois disso, talvez já estejamos reunidos de melhores condições reflexivas para que possamos compreender o que é um “monstro”, porque já teremos depurado, sem qualquer tipo de vaidade ou de miserabilismo antropocêntrico, o que é que queremos dizer quando dizemos “humanidade”.

 

Referências:

Fotogramas do filme Se7en – Sete Pecados Mortais, de David Fincher (1995).

Diálogo entre os atores do filme Se7en: https://www.youtube.com/watch?v=7YzmAKnbQMM.

Peter Sloterdijk, Regras para o Parque Humano, trad. Manuel Resende, prefácio de Luís Quintais, Coimbra, Angelus Novus, 2007.

António Guerreiro, “Treblinka é já ali”, ípsilon, 29-8-2914, disponível em http://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/treblinka-e-ja-ali-1667767.

 

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Categorias: Crónica

Acerca do(a) Autor(a) do artigo

Diogo Martins

Diogo Martins nasceu em 1986 e é natural de Nine, do concelho de Vila Nova de Famalicão. Doutorado em Teoria da Literatura pela Universidade do Minho, iniciou em 2017 um projeto de pós-doutoramento intitulado "Ousar corromper: (o)caso retratístico em Rui Nunes". Interessa-se por poesia, literatura, cinema e fotografia, e mais ainda pelas relações entre estas e outras artes.

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