Diogo Martins

Dar Coisas aos Nomes | Tirar férias à vida – Algumas sugestões de leitura

Dar Coisas aos Nomes | Tirar férias à vida – Algumas sugestões de leitura

 

 

A páginas tantas, no primeiro volume de O Homem sem Qualidades, uma das personagens de Musil descreve a condição póstuma que caracteriza a literatura, o que tanto vale para o tempo da obra (1930) como (e aí se nota o génio musiliano) para o nosso tempo: “Hoje em dia parece que quase só há escritores, e poucas pessoas que lêem livros – continuou. – Já alguma vez pensou, senhor general, quantos livros saem anualmente dos prelos? Se bem me lembro, acho que só na Alemanha são cerca de cem por dia. E nascem mais de mil novas revistas todos os anos! Toda a gente escreve, toda a gente se serve de todas as ideias como se fossem suas, quando lhes convém. Ninguém pensa na responsabilidade que devemos ter para com o todo!” (p. 728).

Engolindo em seco face ao cómico de situação, do qual este texto não é mais do que uma forma trágica de ocupar o espaço que tão bem serviria ao silêncio (ou a qualquer outra coisa que, enfim, não existe e, por isso mesmo, não chega a ser reclamável), pouco mais me resta do que anuir com esse retrato feito por Musil e, muito conscientemente, iluminar a certeza de que a leitura é uma inutilidade pregnante – e que isso é ainda a melhor forma de se ler livros, de aprender a selecionar leituras, a formar qualquer coisa como um “espírito crítico” que desafie o palavreado oco de quem repete expressões como esta até à exaustão. A inutilidade de ler, com especial interesse no tempo de férias, prende-se com o que nesse momento se desliga de toda a lógica de produção, lógica essa que até das nossas horas de sono procura obter rendimentos. (Como? Eliminando a noite. Aponte aí para ler: 24/7 – O Capitalismo Tardio e os Fins do Sono, de Jonathan Crary, acabado de sair pela editora Antígona).

Portanto, elevando isto a um momento de gozo quixotesco, fantasiando com idealismos num tempo musilianamente “sem qualidades”, arriscaria dizer: ler porque sim, por prazer, incondicionalmente – é uma maneira muito descomplexada e descomprometida de montar uma guerrilha contra a neurose que nos incita a meter combustível, pagar o IMI e ir a eventos (mesmo esses que fingimos ter interesse pelo facebook). E também a neurose que alimenta, para completar o tripé da árvore e do filho, o capricho de escrever um livro, de o ver publicado e de, por fim, rejubilar perante o fenómeno mais trivial na era do imperativo categórico consumista. E do crime ambiental.

Daí a citação de Musil: perceber que são muitos os que se sentem impelidos a escrever (que é, como quem diz, a tagarelar), e poucos os que ainda leem, sem compromisso. E que captam na leitura uma forma de se engrandecerem sem que tal efeito sucumba aos holofotes da autopromoção, ou em mais um capricho a engordar o curriculum pessoal. Cultivar a leitura como quem capta o alinhamento de si mesmo com o que de mais anónimo acontece na vida – qualquer coisa de suprapessoal, que é comum a todos: a partilha do sensível, para retomar a expressão feliz de Jacques Rancière. Como quem cria a sua linha de fuga para urdir uma margem, a sua distância com o mundo – e contra o mundo. Distância crítica, claro, aquela que reconhece não ter respostas para todos os problemas que nos assaltam e que, não obstante, sabe que é mais importante interrogar o mundo do que lhe responder com chavões e aforismos de algodão doce. Mas adiante. Falemos de livros ou, melhor, destes quatro que convido a conhecer.

#1

Rui Nunes, Enredos (Relógio D’Água, 2014)

 A maré noticiosa dos cinquenta anos feitos pelo tralho que Salazar dera da cadeira, quando passava as habituais férias no Forte de Santo António, no Estoril, terá despertado, aqui e ali, aquelas pústulas de serôdia nostalgia num país que, de tão acostumado a ter o céu a um braço de distância, como “um extensíssimo e único tecto cor de chumbo” (Saramago, no romance O Ano da Morte de Ricardo Reis), acabara por lhe ganhar o gosto, por se acanhar a dizer-se nunca pequeno, fiel aos brandos costumes, à prudência, à vidinha pequenina, pobrezinha, entretendo-se com os três éfes.

E se a queda do ditador pecou pela demora, até que a Revolução dos Cravos viesse, no mínimo, insuflar os espíritos com emoções que muitos já nem julgavam sequer poder sentir, nunca é tarde, porém, para se fazer jus a um livro como Enredos, de Rui Nunes, publicado pela primeira vez em 1987, nas edições Rolim, mas reeditado mais recentemente pela Relógio D’Água, em 2014. Salazar é a personagem mais expressivamente declinável neste romance, partindo-se desde já do pressuposto de que, na escrita de Rui Nunes, mais do que uma ênfase ao primado da narrativa, da linearidade e progressão diegéticas ou à representação clara de quem-é-quem na história, o que se dá a ver é um radical desbragamento da linguagem, um modo singular de dar às emoções a sua própria voz, sem que o narrador perca tempo a domesticar o processo com complexos de autoridade. Como numa pintura expressionista, a emoção salta o contorno da forma, explode a partir de dentro, atinge-nos visceralmente.

Mas a particularidade de Enredos é o seu humor quando se debruça sobre Salazar. Se este, por comparação com outros monstros da retórica fascista, tinha mais ar de enfezado sacristão com direito a tempo de antena (malgrado a mania sebastianista das grandezas – e a guerra colonial aí esteve para provar a sua megalomania), o que Rui Nunes provoca é menos uma subversão da representação solene de um chefe de Estado (embora faça gato e sapato de Salazar, como um daqueles bonecos de vudu no qual se espeta agulhas, para depois nos rirmos à brava com as consequências de um corpo a espernear), do que o movimento – contingente, inadvertido, impessoal – dessa fatal cadeira no Forte de Santo António. Quer dizer: a imponência de Salazar nunca existira. A queda da cadeira veio somente restituir ao ditador a fraqueza que o regime disfarçara de poder. E, no fundo, resume-se a isto o homem por detrás da pose e dos discursos: um ministro das finanças com fetiches por meninas e pelas suas rendas e folhos (“Venham elas, inteiras ou às rodelas, venha a inocência em seu feltro castanho”), todo mijado, enquanto tenta ditar um discurso à sua Maria de serviço, irritado com a incompetência desta em zelar pelas peneiras da língua.

“– A minha paciência está no fim, e estou mijado, já lhe disse que sou o ministro das finanças, Das com letra grande porque sou eu quem é, Quem com letra grande porque se refere a mim, Mim com letra grande porque sou Eu. Tudo retorna ao criador. Continuemos. Perguntava você? você com letra pequena, evidentemente, perguntava se a Ditadura precisa do embuste e da mentira. Inútil. / Num aparte: coitado, só percebe frases com o máximo de três palavras. E é com ministros destes que tenho de governar Portugal. Portugal só tem grande a primeira letra, ministro das finanças é que tem grandes todas as letras.” (in Enredos, p. 88)

 #2

Eunice de Souza, Coração de Abacate (do lado esquerdo, 2018)

O título é, desde logo, uma delícia. Falecida em julho do ano passado, Eunice de Souza é uma poetiza indiana, além de crítica literária e com algumas experiências no mundo do teatro. Mas isto de pouco ou nada nos serve quando o verdadeiro júbilo se conquista na poesia e a partir dela, aquém de quaisquer recentramentos biografistas: “Aprendam com a folha da amendoeira”, diz o primeiro verso desta antologia. E o poema continua assim: “… a folha da amendoeira / que se incendeia ao cair. / O solo arde. / A terra arde. / O mais importante / é o resplendor” (p. 7). E quanto a humildade estamos conversados – não tanto a humildade segundo preceitos morais (deixemos isso aos autoproclamados “humanistas”, com toda a sua fátua histeria diante a “polémica” em torno d’Os Maias e de qualquer outra obra anquilosada no cânone), mas uma humildade como princípio de escrita, que (con)funde a vida e a linguagem que mais próxima está de fazer reverberar aquela. Uma humildade, por assim dizer, como sinónimo de imanência, dessa zona de indiscernibilidade em que nos descolámos dos inevitáveis constrangimentos – o nosso eu, a nossa pessoa, os nossos complexos – e aprendemos a devir outras coisas, outros fenómenos, outros eus a-pessoais. Como essa folha de amendoeira que, só por existir, nos ensina “o resplendor”. Um pequeno livro de uma pequena editora independente (do lado esquerdo) que dá a ver, como toda a grande poesia, que o menor é sempre o lugar das mais lúcidas e impactantes intensidades, dessas que dizem o absoluto com o mínimo de palavras. Como num poema intitulado “Restos”: “Os ossos da minha mãe num nicho. / As cinzas da minha tia também. // Uma vida. / Uma vida.” (Uma vez que a tiragem deste livro é apenas de 100 exemplares, aconselho os interessados a encomendarem o livro enviando uma mensagem à editora. Aqui fica o email: Editoradoladoesquerdo@gmail.com.)

#3

Herberto Helder, em minúsculas (Porto Editora, 2018)

É bem provável que até mesmo os leitores de domingo, os que dizem não ter tempo para ler, ou os que se deixam seduzir pelas capas lustrosas nos tops da Fnac, já tenham ouvido falar de Herberto Helder. Sobretudo, e isso é pedra-de-toque da contemporaneidade twittesca e facebucóide, porque Herberto Helder já morreu, a 23 de maio de 2015, tendo sido a sua morte arregimentada pelos obituários da praxe. Lembro-me, a propósito, de uma das pequenas crónicas de Miguel Esteves Cardoso no jornal Pública, escrita pouco depois de ter falecido um outro poeta; aí, o autor estendia o lenço de papel ao nariz fungoso do português que, por sua culpa, por sua tão grande culpa, lamentava sempre a perda de mais um poeta que nunca lera – ou do qual nunca ouvira falar. Herberto Helder continua a ser um desses casos, mesmo contando já com os manuais do secundário a criaram a sua higiénica vitrine com três ou quatro poemas desse que é considerado o maior poeta português da segunda metade do século XX.

Se a condição de poeta “impuro” e “obscuro” intimidar os leitores mais incautos, se versos como “Queria tocar na cabeça de um leopardo louco, no luxo / mandibular. Sentir os dedos tornarem-se / de granito […]” apanham qualquer um desprevenido, nadando para lá da zona onde o pé roça seguramente a areia, que fique aqui bem assente: não há motivos de alarme. Não se gosta de Herberto Helder só porque há quem queime as pestanas doutorando-se sobre ele, ou porque se entende gostar da poesia como quem gosta, sei lá, de lamber a farinha dos dedos após um mil-folhas. A coisa experimenta-se. Exige tempo. Não é apenas o cérebro a entrar em ação, munido com as ferramentas do costume, as mesmas que o amolecem e o desvitalizam, com o isto-aqui-é-uma-metáfora, mais o o-sujeito-poético-sente-se-indeciso-e-com-saudades-da-infância, e por aí fora (quem se prepara para exames nacionais de Português conhece a realidade a que me refiro). É todo o corpo que entra em jogo, sobretudo num poeta que absorve o ofício da escrita como os antigos xamãs convocando os espíritos, vasculhando nas vísceras dos animais o segredo dos deuses: “Se perguntarem: das artes do mundo? / Das artes do mundo escolho a de ver cometas / despenharem-se / nas grandes massas de água: depois, as brasas pelos recantos, / charcos entre elas. / Quero na escuridão revolvida pelas luzes / ganhar baptismo, ofício. / Queimado nas orlas de fogo das poças. / O meu nome é esse.” (in Do Mundo).

Pois então: se a poesia e a prosa de Herberto Helder não caem no goto com a facilidade de um gelado, experimente-se em minúsculas, uma seleção de crónicas e reportagens escritas pelo poeta durante a sua estadia em Angola, em 1971-72. Editada pela Porto Editora, a seleção coube ao filho, o jornalista Daniel Oliveira, que no prefácio afirma servir este livro, mais do que para dar a “[…] conhecer uma faceta menos obscura, e por isso menos comum, em Herberto Helder”, para (re)descobrir “o seu humor”. Um humor que, não obstante, reconhece na prosa do mundo a imanência do seu fulgor, a pulsação de vida de quem olha as coisas como quem as vê pela primeira vez, e de quem as sabe ver/ler pelo lado de dentro, pelo canto anónimo da vida, onde os corpos se entregam sem maniqueísmos, onde as peneiras resvalam diante a atroz simplicidade de quem ousa gostar de existir:

“Acaba por se tornar claro que as crianças sabem. Por acaso, lembro-me como aprendi essas coisas do «masculino-feminino» com uma criança de oito anos, à volta com a 2.ª classe. Vagabundeávamos os dois pelos cais. Não era nada inesperado haver barcos por ali. Havia muitos. Estava eu a ver que era assim quando o meu companheiro me coloca este embaraço: «Porque é que os barcos, que são masculinos, têm nomes femininos?» Decifrei o nome de alguns barcos: «Maria Rita», «Ana Mafalda», «Nossa Mãe», «Bambolina». Dei uma resposta idiota porque realmente não compreendia aquela desatenção denominadora: «É que os donos dos barcos são parvos.» Ele sorriu, irónico: «Não. É que não são barcos. São barcas.» E, dentro de mim, tudo se reorganizou, e o mundo – com seus barcos (ou barcas) e nomes – recuperou o abalado sentido.” (in “Aprender ou não”, p. 48).

#4

Eduardo Guerra Carneiro, Mil e Outras Noites (Língua Morta, 2018)

“Olá, Ângela! Senti-me de repente em 62 enquanto tu falavas e, talvez inquieta, acendias um ou outro cigarro. Olá, minha amiga! Olhando o Camões e as pessoas que nos olhavam ia, sorrateiramente, rebuscando todo o meu passado que depois refiz em três penadas. Mas olhava para ti e estava certo. Qualquer coisa no teu olhar me fazia bem. É isso, Ângela, isto anda tudo ligado, já lá dizia o velho e dizia bem.” (p. 63)

Uma forma de coloquialidade desinteressada, respigando conversas passadas, memórias avulsas, súbitas fulminações do acaso, a serendipidade. Aqui e ali, evocações rurais, esses lugares ermos onde os homens “[se] matam ainda à sacholada / por simples questão de águas” (p. 150), ou a delicadeza irónica com que se detém perante “[esse] pé de princesa onde tu pintas / o vermelho nas unhas”, para mais adiante, no mesmo poema, fazer estremecer a expectativa erótica do clima, como quem encolhe os ombros, vira as costas e se deixa levar pelo absoluto da insatisfação: “Mas eu vou, na volta larga ao bilhar grande, / procurar, mais além, outra certeza” (p. 188).

Como assinala Vítor Silva Tavares, no imprescindível texto de abertura desta antologia: “Memórias, sonhos, encontros, desencontros. As marcas incisivas do prazer – e do conhecimento da dor. […] Dúvidas, fragmentos, resíduos, desarticulações” (p. 11). A poesia de Eduardo Guerra Carneiro, escritor e jornalista que pusera termo à vida a 2 de janeiro de 2004, é aqui resgatada, não para rasgar horizontes humaníssimos em apoteoses messiânico-festivaleiras, como quem histericamente visa contrariar o desfecho que nos cabe a todos, poetas ou não, mas apenas para devolver à poesia essa feição tão quotidiana, tão rasteira, e por isso mesmo necessária, como quem ainda se consegue surpreender com o ofício de fazer versos: “Dentro de frases, vulgares, armadilhas, / rebenta um arco-íris, um palavrão. / Também o meu sorriso é manhã pura” (p. 151). A referida ruralidade não se insufla de aspirações tão sumamente torguianas, mas serve de contexto – físico, respirável – para que a poesia aconteça e exale saúde: “A poesia faz-se entre outeiros secos, / veigas verdejantes, bacelinhos viçosos, / os pinhais desbastados, a resina / a escorrer espessa para os vasos / que rescendem no lume aceso da manhã clara” (p. 155).

Esta poesia faz-se de solidão, mas sem sucumbir aos tiques mais ou menos conhecidos de melancolia entorpecente: “Feito monge divagava pelas brumas / e buscava auroras, nem sequer boreais, / quando, ali, à mão de semear, estava / tudo, mesmo tudo o que sonhava” (p. 192). Faz-se, também, de instantes de autorreferencialidade, mesmo que esses instantes em que se aflora “o gozo do real, outra lufada de ar” (p. 185) sirvam menos para consagrar os desígnios mais formulaicos da “poesia do real”, ou do “retorno do referente”, e mais para reafirmar, como diz do escritor Nuno Bragança, a “impaciência / com que escutava tiradas mais literatas” (p. 153). De resto, como uma segunda pele a recobrir todo o corpo de palavras, esta ética: “saber, na escrita, devolver / aos outros a força perdida / neste tempo sujo.” (p. 154)

(Este é mais um livro de pequenas tiragens. Se visitarem a livraria Flâneur, no Porto, encontrá-lo-ão lá disponível, assim como outros títulos do rigoroso catálogo da Língua Morta. Em Braga, com um bocado de jeito, na Centésima Página. Ou então, encomendem-no por aqui: edlinguamorta@gmail.com.)

 

 

Imagens: Diogo Martins.

 

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Categorias: Crónica

Acerca do(a) Autor(a) do artigo

Diogo Martins

Diogo Martins nasceu em 1986 e é natural de Nine, do concelho de Vila Nova de Famalicão. Doutorado em Teoria da Literatura pela Universidade do Minho, iniciou em 2017 um projeto de pós-doutoramento intitulado "Ousar corromper: (o)caso retratístico em Rui Nunes". Interessa-se por poesia, literatura, cinema e fotografia, e mais ainda pelas relações entre estas e outras artes.

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