A. Martins Vieira

Património | Complexo Arquitectónico da Paróquia de Antas, 1ª parte

Património | Complexo Arquitectónico da Paróquia de Antas, 1ª parte

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Por mandato próprio e não por solicitação de outrem, julguei ser necessário e oportuno escrever sobre o referido complexo que se encontra implantado a nordeste da matriz antiga, no sentido nascente – poente.

Trata-se da Nova Matriz, que, embora não esteja identificada para pessoas de fora, todavia é uma igreja que se encontra adossada a outro imóvel, não na horizontal, mas sim, na vertical, facto que é de louvar tal disposição, porque houve economia de espaço geográfico e economia de distâncias. Trata-se do Centro Cultural, tanto cívico como de conhecimento religioso (catequese) que, juntamente com a igreja vieram preencher duas lacunas existentes na Paróquia.

Mas vai ser a Igreja o sujeito do estudo que vou escrever, para que paroquianos que olharam para ela e não a viram, passem a saber o que têm.

Quanto ao Centro Cultural, Um Louvor.

 

I Parte

1- Descrição da Igreja

 

1.1 –       Exterior – Apresenta a forma oval, decorada com anéis de natureza metálica que, no seu conjunto, simbolizam a coroa de espinhos de Cristo, segundo o arquitecto Hugo Correia. Não há curvas côncavas nem convexas, como se verifica em outras novas igrejas, mas aqui há paredes verticais, com o rótulo de singeleza.

Relativamente a entradas, apenas existem três, sendo uma para a sacristia, outra só para saída e não entrada, casos de emergência e, finalmente, a porta axial ou principal que apresenta uma volumetria fora do comum, mas não é única, porque se verifica em novas igrejas.

Foi construída por material metálico, em duas folhas, formadas por quatro peças, duas superiores, de forma quadrangular e duas inferiores maiores, mas rectangulares, cujas juntas, com largura de cerca de 10cm, serviram para o técnico apresentar uma cruz. E, postas as referências relativas ao exterior, entrava na igreja.

 

1.2 –       Interior, Nave

1.2.1-     Pia baptismal – Imediatamente se vê assente no pavimento e do lado esquerdo, formada por dois elementos cilíndricos, sendo o interior maior de cobre e o exterior, branco lacado, com recortes para configurar uma cruz.

O pavimento apresenta-se com uma pequena inclinação, à maneira de um anfiteatro, permitindo uma melhor visibilidade para o que se passa na área posterior.

Igualmente há a considerar duas séries de bancadas, cujos elementos apresentam uma forma aproximada de arco abatido, concedendo aos assistentes comodidade e boa visão para os actos litúrgicos.

Neste item, há ainda a referir dez colunas, cinco de cada lado, de forma trapezoidal que vão encontrar-se com um anel, bem desenvolvido, de alguma semelhança à sanca tradicional, mas com concavidade para colocação de lâmpadas e centrada por uma grande placagem de gesso cartonado com perfurações, bem como a zona envolvente. É ainda de referir que a sanca exerce duas funções, sendo a primeira a iluminação indirecta e a segunda, a decoração que se estende até o pavimento, pelas colunas.

 

1.2.2-     Presbitério – Descrita a nave com todos os seus elementos, subo três degraus, passando a estar no presbitério, área da actuação do presbítero (sacerdote) que preside aos actos religiosos.

O local é a parte principal e até a alma da igreja, com dados diversificados e importantes. São os seguintes:

 

 1.2.3-    Mesa do altar, peça central porque é aí onde se realiza o maior acto de toda a liturgia – a Missa.

Nesse sentido, o responsável, pela sua construção, usou uma das mais belas rochas do subsolo – mármore zonado, bem como honrou até o espaço subjacente e envolvente, com a mesma rocha. No entanto, a mesa do lado da nave apresenta um corpo adossado com a mesma forma, mas de diferente matéria.

 

1.2.4 –    Em frente, observo duas peças presas a uma estrutura, cuja matéria aparenta ser metálica. Trata-se de uma cruz eléctrica, feita por dois tubos quadrangulares, com lâmpadas no seu interior, sendo o pé de tamanho desconforme.

A outra peça encontra-se presa à dita cruz e configura Cristo Redentor que é constituído por dois tipos de material metálico linear, um mais linear do que o outro, mas ambos com curvas e contra curvas para darem ao panejamento, assente na cruz, a natureza do significado.

Depois de tratar do centro, passo a referir o lado direito, pois, tem a primazia.

Começava, então pelo sacrário.

 

1.2.5 –    Sacrário – é constituído por uma caixa que está adossada a duas peças de tamanho diferente, ambas rectangulares e colocadas em posição vertical, sendo tudo, aparentemente considerado por lacado. A curta distância se enxerga uma cavidade cordiforme, donde se vê, no seu interior, a cor dourada, distinguindo-se o monograma, com as três letras clássicas, IESUS HOMINUM SALVATOR (Jesus Salvador dos Homens). Traduz-se homens e não homens e mulheres, porque a Linguística ensina que “homens” é um substantivo comum de dois ou sobre comum, que neste caso, o masculino representa os dois sexos.

Mas, mais um pouco de distância e já não se vê monograma. Não tem luz permanente.

 

1.2.6-     Cadeira presidencial – Ainda no presbitério há a citar a cadeira principal, ladeada pelas cadeiras dos acólitos. Apresenta-se, efectivamente, segundo os trâmites da Liturgia, porque se distingue das outras por ter o espaldar maior. E também no espaldar da cadeira presidencial encontra-se a representação de uma cruz.

 

1.2.7-     Ambão – No lado esquerdo está o último elemento do presbitério que é o ambão. Está assente no pavimento e com a forma circular, lacado e de uma pequena abertura do lado da nave para mostrar a cruz da Ordem de S. Tiago de Espada.

 

2- Depois das descrições dos elementos, surge na parede um espaço específico que o seu preenchimento compreendeu assuntos que foram conseguidos mediante criatividade, trabalho aturado e muita confiança. Trata-se de uma grande decoração que foi executada pelo arquitecto e artista plástico, Tiago Costa, segundo se lê, num dos cantos do lado esquerdo do presbitério e que passo a descrever:

 

2.1 –       Lado direito, seis círculos cujo tímpano está diante do sacrário ou, pelo contrário, o sacrário é que está na direcção do centro do tímpano. É considerado um trabalho geométrico que, no lugar próprio, será descodificado, (ver imagem em 1.2.5).

A seguir e do mesmo lado direito encontra-se um painel bem extenso, porque compreende várias figuras (ver imagem em 1.2.5).

 

2.2 –       Uma figura humana, como principal. Ao seu lado direito existe uma pomba branca e na parte inferior figuras que retratam pessoas, umas maiores e outras pequenas e próximo uma maçã e um dragão, com a boca aberta, porque um pé está a apertar o pescoço. Esta cena requer uma explicação que passo a descrever: a pomba significa pureza, imaculabilidade; a maçã, o pecado; o dragão, o diabo e as outras figuras a humanidade que foi sujeita ao pecado original e duas figuras maiores, possivelmente, o autor quisesse referir Adão e Eva.

 

2.3-        Pelicano – no centro está uma ave palmípede, naturalmente aquática, de grande porte, com bico muito comprido e provido de uma bolsa membranosa, onde armazena o peixe que apanha.

Foi considerada na Grécia Antiga, como ave sagrada e devido a uma lenda, história fantástica, que o palmípede não tendo alimento para dar aos filhos, com o bico perfurou o peito, donde saiu sangue que eles beberam, salvando-se.

 

2.4 –       Figuras aladas – que se encontram do lado esquerdo do presbitério, com a representação de anjos, considerados como mensageiros de Deus e com raios bem iluminados dirigidos para o Mar Mediterrâneo.

 

2.5-        E, por último e no mesmo alinhamento, um painel com uma só figura e com as seguintes características:

Na cabeça a auréola, indicação de santidade, na mão direita um bordão, pau para se apoiar, e defender, uma cabaça para transporte de água recolhida das fontes de mergulho, abarcas, sapatilhas apropriadas para caminheiros e uma concha, designada vieira que é de um molusco do mar. A referida vieira servia para tirar água das fontes e beber água por ela. Por último e no braço esquerdo um livro.

Mas ainda há considerar o mapa geográfico onde está assinalada a rota traçada desde a Ásia Menor até o Norte da Península, passando pelo Sul, costa atlântica e litoral da Galiza, lembrando ainda que o sujeito dessa viagem fora num barco à vela.

Portanto, a figura que o arquitecto Tiago Costa quis figurar, é S. Tiago, conhecido pelo apóstolo caminheiro que evangelizou a Península Ibérica e onde morreu.

Mas o autor deste painel não procurou apresentar este trabalho, considerando-o como um documento para provar que Tiago Maior foi, de facto, o evangelizador da Península Ibérica. Serviu-se deste motivo para fazer uma obra de arte plástica que merece honras, não só por este, como pelos outros trabalhos já referidos.

Mas, depois das descrições, não vou deixar passar a ocasião para referir um assunto que já gastou muita tinta: se Tiago Maior foi o evangelizador da Península Ibérica.

De facto, é do âmbito da História, mas esta ainda não encontrou material com que trabalhar documentos, para dizer da sua justiça, considerando sempre impossível transportar o passado humano para o presente, se houver lendas e tradições e não documentos.

Ora, lenda é uma história fantástica e irreal, mas com um fundo religioso, e a tradição é uma crença que corre de geração para geração, sem haver provas fidedignas, objectivas. Mas quero ainda referir que nem sempre os documentos que se encontram nos arquivos são todos objectivos, isto é, correspondem aos factos a observar, porque podem não ter sido analisados, ou analisados por quem desconhece a paleologia, antes de dar entrada no arquivo. Esses factos têm acontecido.

E, como a história de S. Tiago não está fundamentada em documentos, mas numa lenda, passo em primeiro lugar a contar o que se passou com o culto da Senhora da Lapa que teve como epicentro a Serra da Lapa, na freguesia de Quintela, Sernancelhe, distrito de Viseu.

Esse culto nasceu de um facto impossível de se realizar, cuja história começou nos anos 700, do primeiro milénio D.C. e acabou nos meados do séc. XVIII.

Especificando melhor, quando os árabes entraram no Península, em 711, por motivos religiosos, fizeram-no em moldes muito diferentes de outros povos, pois decorridos sete anos já estavam no norte da Península. Esses povos praticavam actos que levaram os indígenas à fuga, levando o que podiam para os montes, onde se escondiam para não morrerem. E, conta-se que uma pastora, pelo séc. XVIII, que pastava o rebanho de ovelhas, na serra de Quintela, começando a chover, foi abrigar-se a uma pequena gruta que estava num afloramento rochoso, onde encontrou uma imagem de vestir com a figura de Nossa Senhora. Levou a peça para casa, mas na manhã seguinte, a dita imagem não se encontrava em casa. Voltou para onde foi encontrada.

Ora a lenda refere a data dos meados do séc. XVIII. Mas a imagem foi lá colocada nos princípios do séc. VIII e decorridos mil anos ainda estava na mesma. Não foi sujeita à decomposição do panejamento que era de pano! Esta invenção ocorreu sobre um momento de guerra, invasão árabe e o terror que dela nasceu na Península Ibérica. E, não admira, porque as causas das lendas são sempre de natureza muito complicada. O mesmo aconteceu com a lenda que fundamenta S. Tiago ter sido o evangelizador da Península Ibérica e a Reconquista Cristã. Mas sobre S. Tiago ainda há a assinalar a lenda do seu aparecimento a cavalo, armado de espada na tomada de Coimbra aos mouros, no ano de 1064, para dar ânimo aos cristãos. Mas Tiago Maior morreu no ano 42 D.C.

E, para mostrar até onde pode chegar a lenda na crença popular, basta referir o que nos meados do séc. XVIII aconteceu na dita freguesia de Quintela:

Os paroquianos construíram uma igreja de maneira que o afloramento onde foi encontrada a imagem ficasse no seu interior e não transportassem o rochedo para lá, porque era impossível.

O culto estendeu-se muito rapidamente pelo norte do país até ao litoral, bem como pela Galiza e Brasil.

Também Famalicão recebeu esse culto, colocando a escultura com a iconografia da Senhora da Lapa na Capela de S. Sebastião, depois de ter efectuado nela obras, com esplendor e com mudança de orago para Senhora da Lapa.

Dada a explicação da importância das lendas e o seu peso na crença do povo, e, para sintetizar o assunto, quero dizer que Santiago tem sido levado ao endeusamento como evangelizador da Península Ibérica e até combatente, a ponto de até ser criada uma ordem militar com o seu nome e os seus soldados terem participado na Reconquista e essa mesma ordem ainda hoje ser recordada nas condecorações com a Ordem de Santiago da Espada.

Assim e para terminar, passo a referir mais alguns assuntos que considero merecerem um tratamento sério e cuidado (na 2ª parte desta publicação).

 

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A. Martins Vieira

Professor. Historiador.

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