Agostinho Fernandes

Questionário de Proust | Mário da Costa Martins

Questionário de Proust | Mário da Costa Martins

 

Mário Martins nasceu na casa dos seus pais, em 1951, em Arnoso Santa Eulália, e por lá se fez adolescente, jovem e homem.

Da sua infância, guarda na memória “as longas jornadas da escola primária, para onde ia com os amigos e colegas, muitas vezes descalços e com frio, a professora Beatriz, tirana e hostil para as crianças que nunca fomos, os dias sem fim a guardar ovelhas que pastavam nos montes.”

Nunca passou fome, mas sabe “há muito tempo que outras crianças da mesma idade passaram pelo sofrimento atroz de quererem comer e não terem um naco de pão em casa.”

No fim da “instrução primária”, foi para o seminário, a “via de recurso” para quem não tinha “posses” para estudar no ensino oficial.

Por lá andou cinco anos, dois em Viana do Castelo e três em Braga, nos seminários da Congregação do Espírito Santo. Foram “tempos felizes: rezava-se muito, estudava-se muito, jogava-se muito “à bola” e havia boa comida”.

No fim do antigo 5º ano (hoje equivalente ao 9º), foi mandado de regresso a casa pelo padre diretor, já que, segundo ele, não reunia as condições para “continuar no seminário”!

Com muitos sacrifícios dos seus pais, “fez” o 7º ano (hoje equivalente ao 12º), no Liceu Sá de Miranda, em Braga. No fim deste “ciclo” foi operário na Grundig, em Ferreiros, também do Concelho de Braga, durante um ano.

Entretanto, com uma bolsa de estudo da Fundação Gulbenkian, entrou na Faculdade de Letras da Universidade do Porto e por lá andou três anos em viagens de comboio que tinham duas etapas: entre Arnoso Santa Eulália e o “apeadeiro” do Couto de Cambeses, a pé, à chuva, ao vento e ao calor, e entre o Couto de Cambeses e o Porto, de comboio.

Ao fim de três anos, em janeiro de 74, foi para a “tropa”, primeiro em Mafra, depois em Lamego, nos “comandos”. “Eu era pequenino e franzino, mas os campos e os montes de Arnoso Santa Eulália, tinham-me feito forte, ágil e robusto!”, refere.

Depois foi professor, a sua profissão, carreira que foi acontecendo, enquanto completava a licenciatura, interrompida pela “tropa”. “Fui professor no Liceu D. Maria II e no Liceu Sá de Miranda, em Braga, fui “deslocado” para o Bombarral, fiz “estágio” na Escola André Soares, também em Braga, “efetivei” em Vila Flor (Trás – os – Montes), passei por Fafe até me fixar em Vila Nova de Famalicão, na Escola Júlio Brandão.”

Mário Martins foi também Chefe de Divisão da Educação e Ação Social e Diretor de Serviços (adjunto do presidente), na Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão, na Presidência de Agostinho Fernandes, “no tempo em que tudo aconteceu”.

Foi ainda Diretor do Centro de Emprego de Famalicão num tempo difícil, em que a “casa” estava sempre cheia de desempregados, e vereador da Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão, primeiro eleito pelo MAF (Movimento Agostinho Fernandes) e depois pelo PS. “Deste tempo, também falará depois a História!”, acrescenta.

Hoje, Mário Martins, diz de si que é “bom marido, pai e avô. Também hoje, como ontem e sempre, escrevo (comecei em 1972 no “Jornal de Famalicão) e sou dirigente associativo em várias IPSS.”

Em jeito de remate biográfico, constata que “a vida já vai longa, mas continua a trazer com ela a necessidade de construir, pensar e fazer…”

 

 

1- Qual é para si o cúmulo da miséria moral?

A fome que oprime e nos faz contorcer de raiva, sobretudo a fome de crianças, num mundo que é rico e que é capaz de alimentar todas as pessoas. A tortura física e psicológica sobre os mais fracos. A ostentação dos ricos e o sofrimento dos mais pobres. As desigualdades sociais e as “valas” dos esquecidos e dos oprimidos. As guerras e a destruição que aniquilam e conduzem ao sofrimento atroz dos mais débeis. A justiça dos fortes e a injustiça sobre os inocentes e sobre os indefesos.

 

2- O seu ideal de felicidade terrestre?

“Paz, pão, habitação, saúde”…

 

3- Que culpas, a seu ver, requerem mais indulgência?

Todas as culpas menores que não causem danos a terceiros.

 

4- E menos indulgência?

As culpas maiores e com premeditação que causam dor e sofrimento a terceiros… Matar uma criança, fazer sofrer uma criança, violar uma criança, oprimir uma criança não têm “indulgência” possível. Nestas periferias da malvadez, só existe uma alternativa: fazer sofrer até à morte, com intensidade redobrada, os autores destas crueldades!

 

5- Qual a sua personagem histórica favorita?

Nélson Mandela: foi sereno, paciente, solidário sem ódios, com a sua nação e com o seu povo.

 

6- E as heroínas mais admiráveis da vida real?

As minhas filhas, Micaela e Gisela, e as minhas netas gémeas, Matilde e Mariana. São os prolongamentos naturais da vida…

 

7- A sua heroína preferida na ficção?

Não há heroínas na ficção. O que é ficção não existe. Contudo, escolheria Jodie Foster, no filme “O silêncio dos inocentes”.

 

8- O seu pintor favorito?

Júlio Pomar, pelo traço forte e pela cor intensa.

 

9- O seu músico favorito?

Ludwig Van Beethoven: os seus sons arrebatadores fazem sonhar e fazem querer e fazem viver…

 

10- Que qualidade mais aprecia no homem?

Resistência: mesmo quando tudo parece quebrar, há sempre alguma coisa para agarrar e… seguir em frente…

 

11- Que qualidade prefere na mulher?

Perseverança. Haverá outra qualidade equiparável na mulher portuguesa?

 

12- A sua ocupação favorita?

Ler um livro entusiasmante e um “jornal culto”.

 

13- Quem gostaria de ter sido?

Jonh Kennedy. Quem consegue mudar a América, consegue mudar o Mundo! Para o bem e para o mal…

 

14- O principal atributo do seu carácter?

Não há barreiras inultrapassáveis.

 

15- Que mais apetece aos amigos?

Aos meus, um bom almoço, com tinto, branco, maduro ou verde a acompanhar. Às vezes, um “espadal” também vem a calhar…

 

16- O seu principal defeito?

Talvez a teimosia.

 

17- O seu sonho de felicidade?

Vida longa com saúde.

 

18- Qual a maior das desgraças?

A guerra e todas as suas atrocidades. A origem de todos os males está na guerra…

 

19- Que profissão, que não fosse a de escritor, gostaria de ter exercido?

Médico: ajudar a salvar vidas é a mais nobre de todas as profissões. Misturar a nobreza da profissão com o mercenarismo do dinheiro é que é abominável…

 

20- Que cor prefere?

Vermelho forte e intenso.

 

21- A flor que mais gosta?

Cravo vermelho ou não fosse o cravo vermelho Abril!

 

22- O pássaro que lhe merece mais simpatia?

Cerezina: é frágil, parece dócil, parece que canta num sussurro…

 

23- Os seus ficcionistas preferidos?

José Saramago, Eça de Queiroz, Alexandre Herculano, José Cardoso Pires, Fernando Namora, Ferreira de Castro… Há tantos e tantos, portugueses e de outros países que um “Questionário de Proust” só sobre eles não seria capaz de os “tocar” a todos!

 

24- Poetas preferidos?

Luís de Camões, Sofia de Mello Breyner Andresen, Fernando Pessoa, Augusto Gil… O que disse anteriormente sobre os ficcionistas, digo agora sobre os poetas…

 

25- O seu herói?

Nélson Mandela.

 

26- Os seus heróis da vida real?

José Sócrates, António Costa, Emmanuelle Macron, Barack Obama, Cristiano Ronaldo, Boris Becker…

 

27- As suas heroínas da história?

Joana Darc, a “Padeira de Aljubarrota”, todas as mulheres da família dos “Távoras”…

 

28- Que mais detesta no homem?

A mentira, a malvadez, a hipocrisia e o sadismo…

 

29- Caracteres históricos que mais abomina?

O “avental” da Maçonaria! Os rituais e símbolos maçónicos sempre me causaram alguma perturbação!

 

30- Que facto, do ponto de vista guerreiro, mais admira?

O “Desembarque da Normandia”: depois da tirania, aproximava-se o tempo da liberdade…

 

31- A reforma política que mais ambiciona no mundo?

Liberdade, igualdade, fraternidade… A Revolução Francesa “toujours”!

 

32- O dom natural que mais gostaria de possuir?

Saber distinguir instantaneamente a verdade da fábula…

 

33- Como desejaria morrer?

Com serenidade, tranquilo e em paz…

 

34- Estado presente do seu espírito?

Com alguma nebulosidade… O mundo anda tão perigoso que até a luz tem dificuldade em passar…

 

35- A sua divisa?

“Honeste vivere, alterum non laedere, suum quoque tribuere”…

 

36- Qual é o maior problema em aberto do concelho?

Um povo global que ainda não é excelentemente qualificado e culto é sempre um problema em aberto…

 

37- Qual a área de problemas que se podem considerar satisfatoriamente resolvidos no território municipal?

A materialidade das coisas, naquilo que elas têm de matéria, está satisfatoriamente resolvido.

 

38- Que obra importante está ainda em falta entre nós?

Tudo o que possa permitir que sejamos mais cultos, mais educados e mais capazes…

 

39- De que mais se orgulha no seu concelho?

Do sorriso, da bondade e do trabalho das pessoas.

 

40- Qual é o livro mais importante do mundo para si?

Todos os livros, pelo que representam de contribuição, nem que seja ingénua, para compreender as pessoas e, através delas, para compreender o próprio mundo!

 

Se chegou até aqui é porque provavelmente aprecia o trabalho que estamos a desenvolver. 

A Vila Nova é gratuita para os leitores e sempre será. 

No entanto, a Vila Nova tem custos, entre os quais se podem referir, de forma não exclusiva, a manutenção e renovação de equipamento, despesas de representação, transportes e telecomunicações, alojamento de páginas na rede, taxas específicas da atividade.

Se considera válido o trabalho realizado, não deixe de efetuar o seu simbólico contributo sob a forma de donativo através de netbanking ou multibanco.

NiB: 0065 0922 00017890002 91

IBAN: PT 50 0065 0922 00017890002 91

BIC/SWIFT: BESZ PT PL

 

Pub

Categorias: Sociedade

Acerca do(a) Autor(a) do artigo

Agostinho Fernandes

Agostinho Peixoto Fernandes nasceu em Joane, em 1942. Após a instrução primária, ingressou na austera Ordem do Carmo, em Viana do Castelo, tendo terminado a licenciatura em Filosofia na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Como professor do ensino Secundário ocupou, a partir de 1974, vários cargos de gestão em estabelecimentos de ensino. Entre 1980 e 1982 foi vereador da Cultura, pelo Partido Socialista, na Câmara Municipal de Famalicão, sendo Presidente Antero Martins do PSD, onde alicerçou uma política inovadora nesta área. Promoveu os Encontros Municipais e de Formação Autárquica, fundou o Boletim Cultural. Dinamizou o movimento associativo local. Em 1983 foi eleito presidente da Câmara de Famalicão, cargo que ocupou até 2001. O seu trabalho de autarca a favor da educação, ensino e acção social (foi um dos primeiros autarcas do país a criar no seu concelho uma rede pública de infantários) foi reconhecido em 1993 pela UNICEF, que o declarou “Presidente da Câmara Amigo das Crianças”. Ao longo dos seus sucessivos mandatos – que se estenderam por um período de quase 20 anos – o concelho transfigurou-se. A ele se deve a implantação de importantes infra-estruturas como o Citeve, Matadouro Central, Universidade Lusíada, Escola Superior de Saúde do Vale do Ave, Biblioteca Municipal, Artave, Centro Coordenador de Transportes, Casa das Artes, Museu da Indústria Têxtil e piscinas municipais. Também tomou decisões polémicas, como a urbanização da parte dos terrenos de Sinçães, a instalação de grandes e médias superfícies comerciais à entrada da cidade e a demolição do Cine-Teatro Augusto Correia. Foi um dos fundadores da Associação de Municípios do Vale do Ave, tendo, neste âmbito, enfrentando a maior contestação popular dos seus mandatos com a construção da ETRSU de Riba de Ave. É sócio de inúmeras associações cívicas, culturais e de solidariedade social e foi mandatário concelhio de Mário Soares e Jorge Sampaio (1º mandato) nas suas campanhas à Presidência da República.

Escreva um comentário

Apenas utilizadores registados podem comentar.