Saúde | Ansiedade quanto baste (q.b.)

Saúde | Ansiedade quanto baste (q.b.)

 

O cheiro dos lençóis lavados e a frescura de uma cama acabada de fazer, com uma almofada fofa onde pousar a cabeça, é a conjugação idílica para muitos de nós. É lugar-comum, mas só o é precisamente por ser tão prazeroso deitarmo-nos e podermos, finalmente, adormecer nesse ambiente. A não ser que não possamos, ou melhor, não consigamos!

Depois de um dia extenuante de trabalho, de afazeres em casa e de problemas rotineiros para resolver, o merecido descanso sabe a ouro… mas nem sempre o conseguimos aproveitar.

A ansiedade é um problema extremamente prevalente na nossa população e comummente ignorado e negligenciado. Quer pelo próprio, quer por quem o rodeia. É visto como sinal de fraqueza não se ser capaz de enfrentar as próprias provações e é ainda mais fraco o que precisa de ajuda externa para as resolver. E por essas ideias erradas, negligenciáveis e de culpabilização é que o problema se arrasta e se torna monstro em nós.

Um nível de ansiedade q.b. é comprovadamente um ótimo estímulo ao avanço e à conquista. Se perante adversidades e provações não houvesse qualquer ânsia, nenhum receio, o nosso empenho seria diminuto e os feitos ficariam aquém. Um exemplo claro é o dos alunos perante um exame nacional – se não houvesse ansiedade a anteceder a prova eles não se superariam na preparação da mesma e não iriam além daquilo que fazem no dia-a-dia e muitos dos resultados seriam inferiores, subestimando capacidades. Por outro lado, e pegando no exemplo de alguém que começa um novo emprego, se a ansiedade pelo novo cargo, pelos diferentes colegas e pelo desconhecido for tão grande que o impeça de interagir e de raciocinar, a performance ficará muito aquém também.

E a ansiedade não se resume apenas a momentos isolados de avaliação ou de desafio. Ela pode estar relacionada com situações ordinárias, que diariamente se vivem: podemos ficar ansiosos em determinados contextos sociais, por passarmos em certos lugares, sempre que precisamos falar com pessoas que nos são estranhas, ao conduzir, ao receber amigos em casa, quando sentimos uma dor no peito, se viajarmos de comboio, …

A pessoa ansiosa fica angustiada de tal forma que pode não conseguir relacionar-se ou estar de modo adequado. Há um stress inerente à situação-problema e de cada vez que se pensa nisso se fica agitado, não se consegue comer ou beber nada, a boca seca, há palpitações e os gestos saem frágeis, a medo. A preocupação é constante e toma conta de nós e tudo o que nos rodeia se inferioriza e não é capaz de nos arrancar do estado de angústia – não dormimos sem pesadelos ou sonos fragmentados, não temos momentos ao longo do dia de somente aproveitar o que acontece…. Alguém que está ansioso nunca deixa de pensar… e isso é extenuante!

Levada ao limite, a ansiedade pode provocar uma sensação de retirada da realidade e desajuste que pode causar ataques de pânico com sensação de morte iminente! Vejam bem, sensação de morte!

Todos nós já estivemos ansiosos por algo na vida, mas também todos nós já desvalorizámos esse estado em nós e nos outros. E podemos fazê-lo, quando a ansiedade não nos limitar nem dominar; enquanto não nos impedir de avançar e não for a única coisa em nós. Mas quando a ansiedade tomar tudo o resto devemos pedir ajuda, gritar por ela! Para que não sejamos levados pela angústia a seu bel-prazer. E quem nos rodeia deve incentivar a essa procura de apoio; não achar que somos fracos mas sim valorizar a nossa força em reconhecer que tudo aquilo é demasiado para nós.

Valerá a pena quando, mais tarde, deitarmos a cabeça numa almofada fofa, de lençóis lavados, e finalmente não pensarmos em nada… O doce prazer de não se pensar… e descansar!

Se antes de cada ato nosso nos puséssemos a prever todas as consequências dele, a pensar nelas a sério, primeiro as imediatas, depois as prováveis, depois as possíveis, depois as imagináveis, não chegaríamos sequer a mover-nos de onde o primeiro pensamento nos tivesse feito parar.

 José Saramago

VN Online | Inês Grenha - Ansiedade quanto baste (qb); ilustração de Jorge Ferreira

 

 

Imagem de destaque: O doce prazer de não se pensar… e descansar (Jorge Ferreira, ilustração)

Outras imagens: Ansiedade (Jorge Ferreira, ilustração)

 

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Categorias: Ciência

Acerca do(a) Autor(a) do artigo

Inês Grenha

Inês Grenha formou-se em Medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade do Porto em 2016. No corrente ano de 2018 é Interna de Formação Específica de Medicina Interna na Unidade Local de Saúde do Alto Minho.

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