Vila Nova de Famalicão

FAC | No Cinquentenário do Cine-Clube de Famalicão

FAC | No Cinquentenário do Cine-Clube de Famalicão

Pub

 

Neste ano em que se comemora o quinquagésimo aniversário do Cine-Clube de Famalicão, dou a minha contribuição repetindo praticamente o que tive a oportunidade de referir no testemunho que prestei na obra “A luta da Oposição Democrática contra o Fascismo em Vila Nova de Famalicão”, no seguimento da exposição que , em boa hora, a Câmara Municipal realizou subordinada ao tema “A Oposição Democrática em Vila Nova de Famalicão, 1945/1973”.

Como o Dr. Sá da Costa referiu na inauguração dessa exposição, a resistência ao regime fascista assumiu frequentemente a forma de actividades culturais e associativas.

Tais actividades assumiram um papel fundamental no desenvolvimento da consciência crítica, geradora dos anseios de liberdade e de revolta contra a opressão por parte de amplas camadas da população, principalmente das mais jovens.

A criação dessa consciência foi decisiva para a participação desses cidadãos na luta política propriamente dita contra o fascismo.

Uma dessas actividades centrou-se à volta do Cine-Clube de Famalicão, em cuja criação e exercício colaborei activamente. Recordo-a num esforço de memória, com muitas lacunas, mas ajudada por alguns vestígios escritos que consegui encontrar.

O nome que o Cine-Clube adoptou foi o de Secção de Cinema do FAC, para cuja criação foi decisiva a abertura manifestada pelo falecido Dr. Eugénio Mesquita, meu Colega de profissão e que, nessa altura, desempenhava o cargo de Presidente do F.A.C., estrutura dominada por elementos afectos ao regime então vigente. Bem haja a sua memória.

Cine-Clube era, na altura, uma designação demasiado conotada com a esquerda e era necessário contornar os obstáculos próprios do conservadorismo local reinante na época.

Vencidos os obstáculos iniciais à sua criação, conseguiu-se criar no FAC uma secção de cinema.

Enquanto durou – salvo erro até meados de 1972 -, a secção teve uma actividade febril: organização administrativa e financeira, contactos com as distribuidoras de filmes, organização das sessões, elaboração dos programas com as biografias dos respectivos realizadores, filmografia e apreciação crítica dos filmes.

Consegui encontrar alguns exemplares de programas, que foram juntos na referida exposição, através dos quais se pode aquilatar do nosso esforço.

Esforço abnegado não só por parte dos promotores (entre os quais se contava o Joaquim Loureiro, então recém-chegado a Famalicão), mas também de muitos jovens que entusiasticamente apoiaram e deram corpo à realização do projecto. Certamente com falhas de memória, de que me penitencio, lembro a Margarida Malvar (então estudante em Coimbra), o Eduardo Peres Sanches, o Sá da Costa, o Telmo Machado, o António Cândido, o Zé Elísio, os irmãos Simões e o Custódio.

Criaram-se laços duma profunda solidariedade e a grata consciência de nos dedicarmos a uma causa comum cultural-política de resistência à acul-turação vigente, sem outra compensação que não fosse a satisfação do cumpri-mento dum dever cívico que a nós próprios impusemos como cidadãos de espírito livre.

Soubemos, na acção desenvolvida no Cine-Clube, não sermos fundamentalistas na recolha dos filmes, entremeando os de tese com aqueles em que, embora de qualidade, predominava o carácter lúdico.

O Cine-Clube de Famalicão – como era conhecido dentro e fora do concelho – desenvolveu e estreitou relações com outras organizações congéneres, designadamente os Cine-Clubes do Porto, Guimarães e Coimbra.

As sessões realizavam-se no ex-cinema Augusto Correia, cuja construção contribuiu decisivamente para a realização das actividades culturais e lúdicas do nosso concelho. É pena que uma casa com aquelas tradições haja sido desactivada e – o que é pior – demolida.

A maioria das exibições dos filmes era precedida de breves intervenções explicativas do filme e do seu realizador.

É bom recordar essas nossas raízes comuns, que creio, pese embora os diversos caminhos percorridos depois, nunca desapareceram nem desaparecerão das nossas existências, pois que destas fazem parte duma forma muito marcante.

Bem hajam, todos !

 

Imagem de destaque: Foto Humberto (fotografia – cópia digitalizada; espólio de Amadeu Gonçalves).

Outra imagem: Dr. Macedo Varela (2017) (Município de Famalicão; divulgação)

**

*

Se chegou até aqui é porque provavelmente aprecia o trabalho que estamos a desenvolver.

Vila Nova é gratuita para os leitores e sempre será.

No entanto, a Vila Nova tem custos associados à sua manutenção e desenvolvimento na rede.

Se considera válido o trabalho realizado, não deixe de efetuar o seu simbólico contributo sob a forma de transferência bancária.

MB Way: 919983404

Netbanking ou Multibanco:

NiB: 0065 0922 00017890002 91
IBAN: PT 50 0065 0922 00017890002 91
BIC/SWIFT: BESZ PT PL

*

Pub

Categorias: Cultura

Acerca do(a) Autor(a) do artigo

Macedo Varela

Advogado. Medalha de Honra da Ordem dos Advogados Portugueses. Secretário de Estado da Emigração no 1º Governo Provisório. Deputado Municipal (V.N. de Famalicão e Porto). Vereador na Câmara Municipal do Porto, durante dois mandatos. Co-fundador da Livraria Júlio Brandão e do Cine-Clube de Famalicão, dois polos de luta politico-cultural em Vila Nova de Famalicão, antes do 25 de Abril.

Escreva um comentário

Apenas utilizadores registados podem comentar.